Alternativas, é o que os investidores precisam num contexto como o atual em que os ativos clássicos, abordados de forma clássica não cumprem o seu papel da mesma forma que cumpriram no passado.

Alternativas de rentabilidade, de rendimento, de gestão de risco… são necessárias para fazer crescer o dinheiro ao longo do tempo, bater a inflação, preparar a reforma e gerir o património, mas quanto há que sacrificar? Neste Portugal Insights, seis profissionais do mundo da gestão de ativos e patrimónios dissecam o assunto e apresentam as suas alternativas, críticas e alertas, sobre um segmento da gestão de ativos que é tudo menos simples. 

Para António Mello Campello, Partner da sociedade consultora para investimento BlueCrow tem respondido aos desafios da atual conjuntura de mercado com diferentes formas de olhar os ativos de sempre. “No nosso papel como consultores para investimento não temos olhado para classes de ativos diferentes, mas sim para as classes de ativos comuns e procurado formas mais eficientes de nelas investir, na atual conjuntura. Expusemos os nossos clientes, por exemplo, aos clássicos Real Estate Investment Trusts (REITS), uma classe de ativos pouco comum na Europa e que representa um veículo interessante ganhar exposição a propriedades imobiliárias. Fazemo-lo principalmente focando nas áreas que consideramos mais resilientes, como as propriedades industriais ou agrícolas, ou em veículos focados no financiamento. Temos olhado também com interesse para instrumentos de trade finance e receivables, ativos que os bancos não querem e que os fundos e o capital de risco têm absorvido”, comenta. 

“É muito importante que os clientes olhem para os investimento ‘through time’ e não ‘on time’” – António Mello Campello, BlueCrow

“O nosso objetivo central ao adicionar estes ativos às carteiras é maximizar o retorno total dentro dos níveis de risco definidos, e estes ativos apresentam uma menor volatilidade do que os ativos cotados. No entanto, dada a menor liquidez, é muito importante que os clientes olhem para os investimentos ‘through time’ e não ‘on time’. Há que explicar que podemos ter uma parte da carteira com menor liquidez e que o objetivo não é vender amanhã, mas sim manter o investimento por um período mais longo”, explica. 

Já a Caixa Gestão de Ativos surge como uma entidade gestora que se apresenta como consumidora e provedora de soluções alternativas de investimento. Guilherme Piedade, responsável de seleção de fundos, comenta exatamente a característica mais marcante dos ativos privados ou menos líquidos, a menor volatilidade. No entanto, “nem todos os investidores conseguem suportar o que têm que abdicar pelo prémio de iliquidez. Numa carteira multiativos temos investidores que poderão suportar 5 a 10% de ativos sem liquidez, enquanto outros toleram muito mais. Tudo depende do horizonte de investimento”.

“Vemos um retorno adicional de 2 a 3% por ano que poderá ser atribuído a esse prémio de iliquidez” – Guilherme Piedade, Caixa Gestão de Ativos

“O grande problema com o prémio de iliquidez é definir um número. Não é fácil medir e há que perceber quanto cada investidor exige de retorno adicional para sacrificar a liquidez. Seja em private equity, imobiliário e infraestruturas, e pelo que temos experienciado na Caixa GA, só poderemos quantificar verdadeiramente o prémio de iliquidez depois de se executar o investimento, normalmente ao fim de 10 ou 15 anos. Face às ações listadas vemos um retorno adicional de 2 a 3% por ano, que poderá ser atribuído a esse prémio de iliquidez, mas não só. E a verdade é que conseguimos ter esse resultado com 30 a 35% menos de volatilidade do que no investimento em ações cotadas. Este sim, é o maior benefício destes ativos e para alguns clientes é a grande solução”, exclama. 

“No passado, os investidores institucionais, tal como os particulares, não viam a necessidade de sacrificar a liquidez. Os portefólios clássicos de obrigações proporcionavam a yield e a segurança que se procurava. Ao nível da Natixis IM temos vindo a desenvolver bastante trabalho para tentar perceber o que está a motivar a movimentação do investimento no sentido dos ativos menos líquidos. Os inquéritos e estudos mostram que o mercado de ativos privados pode duplicar em cinco anos”, comenta Almudena Mendaza, a responsável de vendas ibérica da entidade

“Certamente que uma das motivações, talvez a principal, é a procura por yield” – Almudena Mendaza, Natixis Investment Managers

“Certamente que uma das motivações, talvez a principal, é a procura por yield. No segmento institucional vimos as grandes seguradoras começarem há uns dois anos a canalizar o investimento para estes ativos e agora vemos o mesmo movimento nas entidades mais pequenas e no dinheiro privado, principalmente canalizado em private equity, numa fase inicial.  Vemos também interesse em segmentos como as infraestruturas ou a dívida privada. A primeira abordagem ao mercado é principalmente através de players locais na gestão deste tipo de ativos, mas num segundo nível dirigem-se para os grandes nomes internacionais. Porquê? Pelo sentimento de segurança que os grandes provedores de soluções proporcionam a quem começa a investir em classes de ativos que não domina”, explica. 

“A verdade é que as coisas têm mudado muito ao longo dos últimos anos e os modelos que funcionavam estão agora quebrados. É difícil retirar yield seja do que for e, como consequência, temos descido na escada da liquidez à sua procura”, atesta Bernardo Godinho, responsável do Mercado de Capitais do Atlântico Europa. “Nos últimos anos temos introduzido REITs, direct lending, hedge funds UCITS… temos investido em Cat Bonds, também, porque gostamos do perfil de risco/retorno da classe de ativos, mas para o típico cliente de banca privada as coisas não podem mudar muito, pela questão da liquidez, horizontes temporais e muitos outros fatores”, explica. 

É difícil retirar yield seja do que for e, como consequência, temos descido na escada da liquidez à sua procura” Bernardo Godinho, Atlântico Europa

“Temos que investir com os olhos nos períodos de stress dos mercados e desenhar as carteiras com base no perfil de liquidez que queremos encontrar nesses contextos e sacrificamos liquidez apenas em mandatos muito específicos, alguns de perfil institucional. Nunca para a maioria dos clientes. Quando investimos em ativos menos líquidos fazemo-lo pela yield, não tanto pela apreciação do capital. Os clientes têm que se adaptar a um novo normal, com baixas rentabilidades, e preparar-se para algum evento sistémico que se pode desenrolar nos próximos meses. Se tiverem o estômago para isso, poderão abraçar estas ‘novas’ classes de ativos, mas com um horizonte de longo prazo e a consciência da baixa liquidez em períodos de stress.”  

“No que se refere aos hedge funds, especificamente os alternativos líquidos, têm sido na sua maioria uma desilusão. Claro que alguns têm-se comportado bem, mas para a maioria tem sido uma década perdida. Uma década de promessas não cumpridas de alpha num contexto em que os mercados têm sido parabólicos”, conclui. 

Um profissional com 30 anos de experiência na área de hedge funds, Francisco Carneiro, partner do Lisbon Family Office é assertivo na forma como explica aquela que considera a melhor forma de olhar este mercado de gestão de ativos tão alternativo. “Depois de ter investido em mais de 300 hedge funds em toda a minha carreira profissional o que faço hoje em dia tem um bom paralelismo com o futebol. As equipas que têm mais recursos e os melhores jogadores ganham mais. Se apenas investir com os hedge funds que têm grandes infraestruturas, muitos datos, grandes cientistas… sei que provavelmente vão ganhar mais. Os hedge funds que se destacam hoje em dia são aqueles que têm a possibilidade de pagar pelos sistemas e pelos dados, e os resultados têm sido fantásticos entre esses fundos”, explica. 

“Se querem um hedge fund, comprem ‘the real thing’. Se não, mantenham-se nas classes de ativos tradicionais” – Francisco Carneiro, Lisbon Family Office

Para Francisco Carneiro, a liberdade que vem em conjunto com a menor transparência no universo tradicional de hedge funds é também um fator diferenciador pela positiva. “Bater o mercado parece muito simples na teoria. Teoricamente, se queremos fazê-lo no longo prazo basta comprar ações com um beta elevado. Como toda a gente tem esta restrição, as ações com um beta elevado negoceiam mais caro. Investidores como o Warren Buffet descobriram, no entanto, que podem comprar ativos de baixa volatilidade, alavancar um pouco a carteira e bater o S&P. Este é o modelo tipo de um hedge fund”, exclama. “Os hedge funds UCITS fazem teoricamente sentido, mas lendo um prospeto com que me deparei recentemente encontrei 24 razões pelas quais o fundo podia suspender a liquidez. Têm liquidez diária se ninguém precisar dela! Se querem um hedge fund, comprem ‘the real thing’. Se não, mantenham-se nas classes de ativos tradicionais”, exclama. 

Finalmente, para Pedro Assis, Partner na Baluarte Wealth Advisors, há algumas distinções importantes nesta temática. “Alternativos são todos os investimentos que não são ações e obrigações investidos da forma tradicional. Isto inclui formas não convencionais de investir nestes ativos – estratégias long/ short, estratégias de volatilidade, etc -, bem como investimentos convencionais em ativos completamente diferentes, desde commodities e imobiliário até outros mais exóticos como vinho, arte ou automóveis clássicos. Ao longo do tempo, muitas estratégias de investimento alternativas em ativos cotados foram sendo transformadas em fundos de investimento, que têm vindo a aproximar-se em disponibilidade e liquidez, a fundos de investimento tradicionais. Podemos chamar-lhes hedge funds harmonizados. Pelas restrições a que têm que obedecer estes fundos alternativos mais “domesticados”, e pela arbitragem já feita sobre a maioria das oportunidades que existiam há 20/30 anos, estes investimentos alternativos mais líquidos têm perdido progressivamente interesse, e vemos uma alocação cada vez menor no património dos nossos clientes. Por outro lado, vemos um aumento de exposição a investimentos em ativos não cotados, como private equity, private debt e imobiliário. Há um conjunto de razões para este efeito. Por um lado, há um custo a suportar pela liquidez dos investimentos, que se manifesta de várias formas. Por outro, ativos não cotados obrigam a focar a análise no valor dos cash-flows futuros e no longo prazo, por oposição ao movimento dos preços no curto prazo – descobrem-se mais oportunidades. Por último, a experiência de volatilidade do valor do ativo na carteira do cliente é também diferente”, explica.

“A volatilidade é muito mais elevada nos preços do que o é no valor das coisas” – Pedro Assis, Baluarte Wealth Advisors

“A volatilidade é muito mais elevada nos preços do que o é no valor das coisas. Um exemplo muito simples é que os preços das ações são muito mais voláteis do que os resultados das empresas. Os mercados de equity são, como resultado, sujeitos a exageros. São democráticos, é verdade, mas se o grupo que os transaciona não é tão racional como se assume na teoria temos um problema. E as pessoas não são racionais, são emocionais. Retornos mais diluídos e uma volatilidade mais elevada nos preços que no valor das coisas fazem com que ativos alternativos não cotados sejam mais interessantes. Para aqueles que podem aceder aos ativos privados – que não é toda a gente – estes são uma alternativa no contexto de taxas nulas que vivemos”.