Dirigem cada vez mais o investimento feito em fundos em Portugal, e são produtos que servem diversas necessidades e objetivos. Como se gerem e selecionam os multiassets?

Agregam já uma fatia interessante do investimento feito por fundos mobiliários em Portugal, e são um produto que cada vez mais cai nas graças dos investidores nacionais, um “público” conhecido por ser conservador e adepto do investimento em títulos considerados menos arriscados. Qual o “charme” dos fundos multiativos e o que tem feito com que os investidores nacionais se enamorem por eles? Neste Insights Portugal nada melhor do que falar com quem os gere e seleciona, para perceber não só as suas caraterísticas mais táticas ao nível de alocação de ativos, mas também as suas especificidades em termos genéricos, que fazem com que os investidores queiram, cada vez mais, ter na sua panóplia de produtos um fundo desta índole.

Carla Veiga, selecionadora e gestora de fundos multiativos da GNB Gestão de Ativos, vê diferenças na forma como este produto pode servir as necessidades de cada um dos tipos de clientes. “Enquadro um fundo multiativo em duas perspetivas ou objetivos. Para um cliente de retalho comprar um fundo multiativo é uma forma eficiente de ter acesso a gestores muito bons em diferentes áreas dos mercados financeiros. O desafio a esse nível passa por selecionar um fundo consistente que encaixe no perfil de risco/retorno do cliente. Neste contexto pode dizer-se que o nível de volatilidade esperado é tão ou mais importante do que o nível de retorno. Por outro lado, acho que também se pode selecionar um fundo multiativo tanto para integrar portefólios balanceados, como para fazer parte de portefólios multiativos. A questão, a este nível, passa por selecionar um fundo que possa adicionar valor, o que na minha perspetiva é possível. Para mim faz todo o sentido investir num fundo multiativo dentro de um portefólio multiativo. Contudo, para isso, o fundo multiativo tem de investir em diferentes tipos de ativos, nomeadamente inflation linked bonds, infraestruturas, MBS, etc. É importante que use diferentes tipos de estratégias para diversificar o portefólio, e para otimizar o risco/retorno”.

“Para mim faz todo o sentido investir num fundo multiativo dentro de um portefólio multiativo. Contudo, o fundo multiativo tem de investir em diferentes tipos de ativos”Carla Veiga, GNB GA

Precisamente nessa perspetiva de investimento em diferentes tipos de ativos, a profissional explica que o investimento que preconizam vai muito além das ações ou das obrigações, o que implica uma gestão de risco cuidada. “A última mudança que fizemos nos portefólios foi aumentar a exposição a high yield norte-americano. Foi um movimento que correu muito bem, com uma performance fantástica. Resolvemos adotar um viés a mercados emergentes, especialmente na Ásia. Investir em high yield pode ser uma forma de aumentar o risco numa busca por maior retorno, tal como aconteceria com com o reforlo da componente  de ações. Dívida de mercados emergentes, de igual forma. Por exemplo, um fundo de obrigações pode estar equiparado a fundo de ações em termos de risco pelo quea nossa abordagem ao risco vai mais além do investimento em ações ou obrigações”.

Os desafios no investimento deste tipo de produtos são grandes hoje em dia, como conta Pedro Vieira, responsável de fundos multiativos na IM Gestão de Ativos. “Um dos desafios é a questão do retorno num contexto de taxas de juro baixas. Nesse espaço estamos a ter cada vez mais exposição ao segmento de high yield, mas também a dívida de mercados emergentes. Neste espaço high yield temos em carteira euro high yield, mas também high yield norte-americano, com uma exposição a diferentes maturidades. Esta é uma posição que comporta mais riscos do que investment grade ou government bonds, mas que neste momento acrescenta valor. Na dívida de mercados emergentes também temos exposição com diferentes abordagens: ou através de hard currency ou local currency, seja emdívida de governos de mercados emergentes ou empresas, com diferentes maturidades também. Do lado das ações procuramos também aumentar os  retornos de várias formas, incluindo uma atuação mais dinâmica, a exposição a setores como tecnologia, a fatores como growth e quality, ou  privilegiando  a exposição temática a ‘secular trends’, onde se inserem indústrias que crescem acima das taxas normais, e que achamos que continuarão a crescer daqui em diante. Falamos por exemplo da automação, robótica, ambiente, etc.” explica.

“Nas ações tentamos aumentar os retornos de forma dinâmica. Destaco por exemplo o investimento nas secular trends, onde estão indústrias que crescem acima das taxas normais” – Pedro Vieira, IMGA

O investimento em alternativos também tem ganho um papel importante no trabalho do gestor. “O aumento da exposição a alternativos é uma tendência da indústria à qual não somos alheios, sendo de destacar neste segmento as commodities e os hedge funds UCITS. No caso destes últimos, como sabemos, alguns portefólios acabaram por não corresponder às expetativas, e como é um universo muito diverso temos de ter cuidado. Outro dos desafios atuais, para além do  aumento o retorno num contexto de baixas taxas de juro, é o de perceber como é que diversificamos o risco. A este nível temos dado mais atenção ao papel que o ouro e algumas moedas podem ter”, remata.

Com uma perspetiva mais genérica sobre o investimento em multiativos, Stephan Fritz, especialista de produtos multiativos na Flossbach Von Storch, explica o contexto em que vivemos. “As pessoas têm de se convencer de que as baixas taxas de juro já não são um problema europeu ou japonês, e penso que esta foi uma grande lição do coronavírus. As baixas taxas de juro tornaram-se um problema global, e não apenas de um período curto de tempo. Neste contexto, e quando temos flexibilidade no investimento, apenas resta uma classe de ativos que oferece maiores ganhos potenciais: as ações. Claro que há boas opções que se podem comprar, como o imobiliário ou o ouro, mas as ações são o maior ‘profit taker’ para as próximas décadas. Recordando as palavras de Warren Buffett: “o valor intrínseco pode ser encontrado de forma muito simples: é o valor do fluxo de caixa descontado que pode ser retirado do negócio durante a vida útil que lhe resta”. Este é o ponto importante. Quando isto for percebido cada cash flow futuro será cada vez mais valioso. Apenas precisamos de empresas que criem cash flow e crescimento. Para quê então compar obrigações? É preciso uma abordagem muito oportunística neste campo. “Buy a good company, creat value: that’s it”, disse o especialista de forma incisiva.

“Buy a good company, creat value: that’s it” – Stephan Fritz, Flossbach Von Storch

Nesta perspetiva de educação dos clientes, o profissional acredita que o investidor alemão não difere muito do português. “Nós gerimos mais de 60 mil milhões de euros de ativos, e a nossa maior estratégia multiativo agrega mais de 30 mil milhões em AuM. É uma combinação da nossa  missão e dos resultados que lá obtemos. Nós temos a missão de educar os nossos clientes. Temos de lhes dizer que se querem manter o seu dinheiro têm de mudar o seu mindset. Temos de lhe explicar que investir em ações não é especular; é sim investir em empresas e participar no seu crescimento”, resumiu.

Com um PPR multiativo flexível no mercado há pouco mais de um ano, a Sixty Degrees partilha dos mesmos desafios de gestão dos colegas, como conta Nuno Pereira, responsável de investimentos da entidade. “O nosso fundo não é patrocinado por nenhum banco ou agência e, portanto, temos de ser nós a contactar diretamente os clientes. Posicionamo-nos num segmento de High Net Worth Individuals, com um mínimo de subscrição do produto de 100 mil euros, e temos vindo a perceber que estes indivíduos têm o mesmo tipo de problemas do que os investidores de retalho. Não têm muito tempo para dedicar às suas aplicações financeiras, e querem ter uma abordagem ao risco dinâmica.  Querem ser conservadores quando o mercado cai, e agressivos quando os mercados sobem. Na base dos investimentos que fazemos estão sempre vários pontos que temos de cuidar: liquidez diária e escalabilidade. Tendemos, por isso, a não investir nalguns tipos de ativos como alternativos ou MBS, ou seja, produtos que se podem tornar ilíquidos muito rapidamente.

“Na base dos investimentos que fazemos estão sempre vários pontos que temos de cuidar: liquidez diária e escalabilidade”Nuno Pereira, Sixty Degrees

“Em fixed income tentamos ter uma abordagem muito simples, com obrigações governamentais e um pouco de corporates, complementando com ações. Encontrar retorno é de facto difícil, porque não temos high yield na carteira. Ou seja, quando estamos à procura de retorno temos de injetar uma boa dose de risco no portefólio. O que fazemos é ter uma abordagem muito mais dinâmica na parte das ações, com mais ou menos risco neste ativo de acordo com o mercado e as suas dinâmicas.  Tal como já tinha sido dito nesta conversa, a nossa principal preocupação também é a volatilidade e o seu controlo”, sentencia.

Ramón Carrasco, responsável de vendas da Carmignac para o mercado português, coloca ênfase na importância de conhecer o perfil de risco do cliente. “Temos de ter em mente que no final do dia o perfil de risco do cliente é muito importante, bem como o contexto de mercado. E hoje em dia estamos a viver num contexto de mercado extremamente volátil. É necessário diversificar os portefólios. Quando investimos em portefólios de rendimento fixo temos de ter em mente o ativo livre de risco, mas atualmente esse ativo tem uma yield negativa, como podemos ver pelas Bund, com uma yield negativa de 0.4%. Se o investidor investir num portefólio mais defensivo, com os ativos mais livres de risco, isso resultará, garantidamente, num fundo com retorno negativo para os próximos dois/três anos. Não faz sentido investir para receber resultados negativos”.

 “Não faz sentido investir para receber resultados negativos”, Ramón Carrasco, Carmignac

“O interesse por fundos multiativos cresceu muito durante este ano. Tendo em mente aquilo que se passou em 2020 – muita volatilidade que acreditamos que vai continuar por mais 5 a 12 meses – pensamos que os clientes dos fundos multiativos vão permanecer. Quando falamos nestes fundos temos de pensar na psicologia do investidor, e pensar em alguns conceitos chave: alocação de ativos, diversificação e flexibilidade. Temos de nos lembrar que em janeiro e fevereiro a estratégia correta parecia ser estar longo em ações. Contudo, de março até maio, aconteceu o colapso nas ações, com alguns índices a caíram mais de 30% e alguns sectores a recuarem mais de 80%. Imaginando que o cliente tinha um long only ações o resultado líquido iria ser um desastre para o resto do ano. No final do dia, o importante é ter um portefólio diversificado, com um a estratégia flexível, baseada na convicção, porque a volatilidade é muito elevada, e continuará a ser nos próximos meses”, prevê.  

No papel de selecionador de fundos, João Pina Gomes, selecionador de fundos do ABANCA, apresenta a sua perspetiva dos movimentos das gestoras neste tipo de produtos. “O que vejo muitos gestores de ativos a fazerem é a deixarem o investment grade, na parte de obrigações do portefólio, dirigindo-se a high yield. Nas ações, vejo-os a seguirem as tendências dos fluxos. Os fluxos estão a dirigir-se para a tecnologia e saúde, e os gestores de fundos multiativos vão atrás. Nas ações de dividendos – como muitas empresas cortaram os seus dividendos – o que acontece é que os preços de mercado sofreram. Por isso acho que nos próximos meses veremos muitos movimentos de regresso a esse tipo de ações.  Em resumo, não vejo grandes diferenças na gestão dos fundos de multiativos do mercado”, testemunha.

Vejo muitos gestores de ativos a deixarem o investment grade, dirigindo-se a high yield”, João Pina Gomes, ABANCA

“No nosso caso, dos 1.5 mil milhões de ativos distribuídos, 400 milhões estão em fundos multiativos. A maioria do dinheiro dos nossos clientes ainda está em obrigações, mas o passo seguinte diria que são os fundos balanceados. Os portugueses gostam deste tipo de fundo porque são muito diversificados, com acesso a várias classes de ativos, e tende a ser um mandato de gestão discricionária dentro de um ‘wrapper’ fundo, com o risco a ser mitigado pela gestão. Para além disso, temos tido muito sucesso nos últimos cinco anos com os fundos multiativos de distribuição. É algo que os nossos clientes gostam, e os portugueses em geral, diria”, conclui.

Carlos Pinto, selecionador e gestor de fundos multiativos na Optimize Investment Partners, dá conta de movimentos nas carteiras também já abordados. “Temos vindo a posicionar as carteiras para uma maior exposição a ações no sentido de encontrar retorno. No fixed income começámos há alguns meses a aumentar a exposição a high yield europeu e a fundos globais de obrigações sem constrangimentos. Apenas usamos estratégias passivas no campo do investment grade norte-americano. Atualmente não temos exposição a dívida de mercados emergentes, mas quando voltarmos a investir, fá-lo-emos através de estratégias ativas assim como no euro high yield. Nas ações a nossa perspetiva de como efetuamos o investimento depende um pouco de vários fatores. Normalmente usamos a gestão ativa em mercados onde não abunde informação sobre as empresas e/ou onde não tenhamos expertise. ”, conta.

“Temos vindo a posicionar as carteiras para uma maior exposição a ações no sentido de encontrar retorno”, Carlos Pinto, Optimize Investment Partners

Sobre o sucesso do formato PPR Carlos Pinto comenta que é muito importante, “mas não tem sido o principal responsável pelo sucesso do formato dos multiativos em Portugal. Os portugueses, na minha opinião, são conservadores, por duas razões: primeiro porque a literacia financeira está muito abaixo da média e, em segundo lugar, porque os investidores tiveram más experiências no investimento em determinados ativos diretos. O atual contexto veio forçar os investidores a olharem para alternativas de investimento mais diversificadas e essa diversificação, a mitigação do risco e a flexibilidade são providenciados por estes produtos. Em geral, acredito que os multiativos vão continuar a crescer, mas os PPR pela sua componente fiscal terão um boost acrescido”, conclui.