A crescente emissão de SDG Linked Bonds e Sustainability Linked Bonds

Pedro Carita:ABANCATodos os wealth managers e private bankers sabem a importância que as obrigações têm numa carteira de ativos. Elas oferecem menor risco, menor volatilidade e, como consequência, um maior descanso e tranquilidade aos investidores.

Nos últimos tempos temos assistido a uma tendência no mercado financeiro, e em particular no mercado de renda fixa, com a crescente emissão de SDG Linked Bonds e Sustainability Linked Bonds.

A sigla SDG significa Sustainable Development Goals (objetivos de desenvolvimento sustentável), programa lançado em 2015 pelas Nações Unidas que tem como objetivo acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar a paz e prosperidade até 2030. Este compromisso foi assumido por governos, setor privado, sociedade civil e cidadãos em geral, um pouco por todo o mundo. São 17 objetivos que culminam com a vontade de encontrar em 2030 um mundo mais equilibrado, com menos desigualdades e um planeta mais saudável. As Nações Unidas acreditam que será necessário um investimento total anual de 5 a 7 triliões de dólares americanos para alcançar as metas estabelecidas e para isso conta com os governos e empresas em geral.

Este tipo de obrigações permite que as empresas tenham acesso a fundos para desenvolver projetos inovadores, alinhados para poder dar um contributo positivo para os SDG e, ao mesmo tempo, criar valor a longo prazo, tanto para o seu negócio, como para os seus stakeholders. Muitas instituições têm abraçado esta tendência, com diversas emissões deste tipo de obrigações, admitindo que têm um papel crucial para que se consiga alcançar os objetivos propostos pelas Nações Unidas e adotando para si os princípios de ESG (Environment, Social e Governance), tão fomentados nos últimos anos. Empresas como a energética italiana ENEL, os grupos financeiros HSBC e ANZ, a Telefonica e mesmo o governo Mexicano são apenas alguns dos exemplos de entidades que já emitiram SGD Linked Bonds.

As Sustainability Linked Bonds (SLBs) têm como objetivo desempenhar um papel-chave no mercado de dívida, encorajando as empresas para contribuir para a sustentabilidade numa perspetiva ESG. Quer isto dizer que estas obrigações têm como objetivo principal o financiamento de projetos sociais e/ou ligados ao ambiente. Isto tem acontecido porque um número crescente de investidores tem incluído nas suas estratégias de investimento princípios ESG e este desenvolvimento gerou maior interesse neste tipo de emissões. A pandemia do novo coronavírus intensificou o interesse em SLB’s e espera-se que as emissões atinjam entre 325 e 375 biliões de dólares americanos até ao final de 2020.  Aliás, a crise pandémica do COVID-19 fez com que a Associação Internacional do Mercado de Capitais redefinisse o conceito de financiamento sustentável dando como exemplo de projeto social as despesas relacionadas com o COVID-19 para aumentar a capacidade e a eficiência no fornecimento de serviços e equipamentos de saúde. A Novartis, a Starbucks, a Alphabet e a Chanel são alguns exemplos de emitentes de SLBs.

Quer seja através das SDG Linked Bonds ou das Sustainability Linked Bonds, o mundo precisa de uma transformação significativa na economia para que se atinjam os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Se por um lado estes títulos podem desempenhar um papel fundamental no financiamento desta economia sustentável, cada um de nós também tem um papel importante, quer seja na tomada de decisões de investimento, quer nas nossas decisões de consumo ou mesmo na rotina do dia-a-dia. O exercício é bem simples: Estou a contribuir para um mundo mais sustentável com esta minha decisão?