Emanuel Silva (IM Gestão de Ativos): “Enquanto não existir informação ESG sobre as empresas e emitentes nos quais investimos, vai ser difícil fazer este caminho”

IMGA, Emanuel Silva (IM Gestão de Ativos): “Enquanto não existir informação ESG sobre as empresas e emitentes nos quais investimos, vai ser difícil fazer este caminho”
Emanuel Silva. Créditos: Cedida

Se em 2019 e 2020 o crescimento dentro da IM Gestão de Ativos se tinha centrado muito nos produtos de curto prazo, 2021 trouxe uma inversão de tendência, mas que já era antecipada pela entidade. Como conta agora Emanuel Silva, presidente executivo, houve uma rotação no interesse dos investidores, e dirigiram-se essencialmente para os fundos multiativos e também para os PPR. Neste segmento, o crescimento foi de facto significativo. “Crescemos mais de 700 milhões, e foi um crescimento de 60% face a 2020”, começou por assinalar o responsável em entrevista à FundsPeople.

Em termos mais genéricos, a entidade também acompanhou o ano notável da indústria de gestão de ativos nacional. Contas feitas, o património gerido em fundos mobiliários incrementou-se em mais 1.106 milhões de euros, tendo-se mantido a quota de mercado nos 21,7%. Para o líder da entidade, um conjunto de fatores conduziu a estes resultados. “Existiu muito mérito das redes de distribuição, mas também das equipas de produto, do acompanhamento de marketing, etc.”, enfatizou. Tudo isto num ano em que a expansão da rede de distribuidores aconteceu.  Ao Millennium bcp, EuroBic, Crédito Agrícola e ActivoBank juntaram-se mais quatro nomes: o BiG, o Banco Invest, o Bison Bank e o Banco Best. 

Venda internacional e distribuição em nome próprio

Mas a palavra futuro é aquela que define melhor a entidade por esta altura. Isto porque são muitos os projetos que vão arrancar neste ano de 2022. Precisamente a expansão das redes de distribuição é uma das ambições. E não só dentro de portas. “Lentamente queremos começar a entrar no mercado internacional, em primeiro lugar no espanhol”, revelou o responsável, sobre uma ambição que tentaram executar em 2021, mas que a pandemia acabou por travar. “2022 será o ano em que vamos apostar na venda internacional. Numa primeira fase institucional, e depois logo se verá a evolução”, afirma. 

Apesar do aumento do número de distribuidores, a aposta em nome próprio também está planeada. Querem iniciar a sua própria distribuição direta, com um enfoque maior no segmento de clientes private. “Estamos a alargar atividades para a gestão de patrimónios e serviços complementares. Vamos começar a gerir, fundamentalmente, mandatos. Entendemos que podemos oferecer um serviço diferenciador, mas com um foco no segmento institucional e, eventualmente, no de familly offices”, avançou Emanuel Silva. Neste campo, para a entidade é fundamental que não exista concorrência com os distribuidores que servem. Por isso, fica desde logo excluída a distribuição própria ao segmento de retalho.  

Embora exista o hábito do cliente institucional contratar muitos fundos internacionais, para o líder da IM Gestão de Ativos não faltam qualidades aos produtos que gerem. Entende mesmo que os fundos da casa “são tão bons ou melhores” em termos de peer group. Esta alternativa surge assim no que considera ser “o momento adequado”. 

Como visível nesta sucessão de intenções da casa, a ideia é, como diz o próprio responsável, oferecer “soluções integradas aos clientes”. Para além da abertura da área de gestão de patrimónios, para breve estará também a entrada no segmento imobiliário. 

Capital de risco 

Para lá dos fundos mobiliários, a gestora foi já dando passos na área de capital de risco. Planearam a incursão no segmento olhando para fundos de agregação, seguindo, portanto, uma lógica próxima do private equity. “Posicionamo-nos no segmento de agregação, mais concretamente agregação de setores económicos, de forma a podermos criar mais produtos para o mercado de capitais”, apresenta o responsável.

Por esta altura têm então aprovado o IMGA PME Flex, “um fundo de curto prazo que funciona um pouco como um agregador de papel comercial e outros instrumentos de curto prazo”, e para o qual construíram “um sistema de scoring interno robusto”.  Aprovado também está o IMGA PME Invest, cujo objetivo é “investir em capital e quasi capital de empresas portuguesas, com foco na economia local, em especial, as PME que tenham como estratégia a exportação”. Em breve, diz o presidente, a ideia é alargar a linha dos fundos PME, adicionando ainda um produto focado em loans. 

Também constituído, como lhe demos a conhecer recentemente, está o fundo Silver Domus, que também ele encaixa nesta visão estratégica que a entidade tem sobre o segmento. “É um fundo de 120 milhões de euros, e acreditamos que seria o primeiro a entrar no mercado com esta dimensão. 

Temos como objetivo chegar às 4.000 camas [o fundo centra-se na tendência de envelhecimento da população], e passaríamos assim a ser o primeiro player de mercado neste segmento”, ambiciona Emanuel Silva. 

ESG: falta de informação e legislação densa

O presidente executivo da IM Gestão de Ativos não tem dúvidas de que o ESG é o futuro, mas foi explícito ao sublinhar as incongruências que o assunto ainda oferece. “O tema é extremamente importante e queremos estar posicionados, mas para já classificamos os nossos fundos entre o artigo 6º e o 8º, da SFDR”, iniciou. Na perspetiva de Emanuel Silva, é incipiente trazer os clientes de retalho para o tema, pois ainda não existe procura ativa da sua parte. “A grande diferença no ESG será executada pelos clientes institucionais. O grande negócio reside aí. As gestoras portuguesas, contudo, não têm uma grande fatia de clientes institucionais”, assinalou. 

Mas vai mais longe. Na opinião do líder da IM Gestão de Ativos a legislação é também parte do problema. “É muito densa e muito confusa”, começa por apontar, lembrando ainda a escassez de informação com que se deparam no dia a dia. “Faltam dados, informação e padronização. É impossível fazer o que quer que seja neste tema sem o material para o fazer”, reitera, afirmando que o provedor mais conhecido neste momento no mercado ainda tem muitas falhas de dados. 

Emanuel Silva reclama, portanto, pragmaticidade no tema. “Enquanto não existir informação ESG sobre as empresas e emitentes onde estamos a investir da maneira padronizada que necessitamos, e de forma a que se constituam os scores internos, vai ser difícil fazer este caminho”, resumiu. Nesse sentido, para o profissional, o tema tem de envolver a indústria como um todo. “Criou-se o ónus nas sociedades gestoras e bancárias sobre este tema, mas o ónus não pode ser só nosso. Tem de ser de todo o mercado. Ninguém pode andar num carro sem ele ter motor”, referiu. 

Ainda assim, a entidade não deixa em mãos alheias o caminho no ESG. Quando entrarem na classe institucional sabem que este tema terá um maior impacto e, por isso, já criaram um score interno ESG. “Da mesma forma que temos o score financeiro para a parte financeira, criámos também para a parte ESG”, avança Emanuel Silva. 

Continuação da aposta em ações

Para além dos projetos atrás mencionados, o futuro da entidade passará também pela consolidação de outras áreas. A Autorização de Residência para Atividade de Investimento (Golden Visa) foi outro dos projetos em que capitalizaram, a partir da elegibilidade permitida aos fundos mobiliários de ações portuguesas. “Só nos meses de novembro e dezembro do ano passado registámos mais de 200 clientes, ou seja, 70 milhões de captação só nestes fundos que são elegíveis”, conta agora. Nesse sentido, querem continuar a aposta no mercado de ações, pois acreditam que há valor por explorar. 

Na gama de fundos multiativos, por sua vez, pretendem efetuar uma expansão. “Foi criado o fundo de alocação defensiva, que até agora não existia. Era o fundo que nos faltava nesta gama de multiativos, e acho que vai ter uma forte aceitação. Transformamos o fundo Retorno Global, dando lugar a este novo produto”, indica Emanuel Silva. Por fim, a aposta nos PPR será outra das direções de atuação da casa. “Têm estado de facto a crescer muito, e a nossa aposta daqui em diante será claramente neste tipo de produto. Vai ser lançado este ano um novo PPR, muito interessante a todos os níveis, nomeadamente ao nível do impacto fiscal que o produto consegue”, avança ainda o profissional.