Emissão de dívida pública reflete as expetativas de crescimento e inflação

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Portugal foi esta quarta-feira ao mercado para emitir 1.250 milhões de dívida de longo prazo - 625 milhões em obrigações do tesouro a sete anos e 625 milhões a 10 anos. O resultado: uma subida das yields praticadas em ambos os casos. De facto, na emissão a sete anos a taxa praticada foi de -0,086% e na emissão a 10 anos de 0,237%. Esta última, representa uma subida face ao último leilão quando comparada a janeiro, onde a taxa se fixou nos -0,012%.

A subida das taxas da dívida soberana nacional, não estão associadas a um risco específico de Portugal, mas sim a um movimento que estamos a assistir em toda a dívida soberana europeia. As taxas da dívida soberana alemã que em janeiro estavam nos -0,60% subiram atualmente para os -0,299%. Este movimento está diretamente associado a algum otimismo que os mercados estão a tentar antecipar, relativamente à abertura das economias e ao processo de vacinação que se encontra a decorrer. As expectativas face a um maior crescimento económico, inflação mais elevada e retorno a uma normalidade económica, acabaram por justificar esta subida das taxas”, comenta Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa.

Ainda sobre a subida das yields face ao leilão anterior na emissão desta quarta-feira, Filipe Silva, salientava “este movimento está a ser monitorizado pelos Bancos Centrais, uma vez que se o mesmo for muito acentuado, poderá deitar por terra todas as expetativas criadas, tendo em conta o nível de endividamento dos países, empresas e particulares, que é elevado e, qualquer subida nas taxas acabará por se traduzir em custos mais elevados.”

Os riscos de inflação

Como um dos drivers de uma eventual subida de taxas, o tema da inflação tem sido um tema quente nas últimas semanas, num contexto em que as medidas de estímulo ganham intensidade e os níveis de poupança durante o período da pandemia sobem significativamente, fazendo anteceder uma eventual pressão do lado do consumo. “Os mercados estão, aos poucos, a aperceber-se desta possibilidade. As expectativas de inflação, medidas pela diferença de yield entre as obrigações do Tesouro dos EUA nominais e as indexadas à inflação aumentaram bruscamente desde os mínimos alcançados durante a pandemia. Encontram agora nos níveis superiores à média de 2% da última década”, dizia recentemente Sean Markowicz, estratega de Research e Análise da Schroders.

No entanto, Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal comentava também que “não nos devemos iludir, porque na realidade é cada vez mais difícil tornar sustentados os episódios fugazes de inflação, neste mundo endividado, envelhecido e tecnologicamente disruptivo”. Por outro lado, Carlos Bastardo, general manager na Imofundos alertava que os números mais recentes impunham alguma atenção, mas mostrava-se de acordo ao apontar as forças que têm contido a inflação. O “baixo crescimento económico, o aumento da produtividade, a racionalização e modernização tecnológica dos processos industriais de produção e sobretudo os preços baixos das principais commodities não trouxeram pressões inflacionistas”, nos últimos anos, dizia.