Existe um espaço nas carteiras para os mercados privados? Sim, em três tons diferentes

Karim Lenguel, Thibault Richon, Raphael Haselberger.
Karim Lenguel, Thibault Richon, Raphael Haselberger. Créditos: CFA Society Portugal

A CFA Society Portugal organizou um evento onde o tema central foi os mercados privados e onde foi possível ouvir a opinião de três especialistas sobre três segmentos diferentes dos mercados privados e ilíquidos.

O primeiro segmento abordado foi o mercado de private equity. Segundo Raphael Haselberger, especialista de produto sénior da Allianz Global Investors, o private equity “tem um espaço nas carteiras dos investidores”. Este segmento tem provado ser mais estável historicamente e menos volátil durante ciclos económicos mais complicados”. O gestor explica: “Em private equity, os anos dourados para investir, atendendo aos resultados históricos, aconteceram em períodos de desaceleração económica. O ambiente de mercado em mudança pode levar a mais oportunidades para os investidores com bom acesso ao mercado e à capacidade de detetar transações que outros não conseguem.

Direct Lending

Por sua vez, Karim Leguel, diretor de Vendas do Mercado Privado da Fidelity International, falou de um segmento dentro de um segmento. Falamos de direct lending, um tipo de investimento intrinsecamente ligado à dívida privada. “Direct lending não é nada mais do que um fundo privado a emprestar dinheiro a uma empresa de média capitalização (por norma com um EBITDA entre 5 e 150 milhões de euros). Geralmente estes empréstimos são utilizados para facilitar o processo de aquisição de outra empresa, para expandir as suas operações ou, simplesmente, para alavancar o seu crescimento”, explica o especialista.

Tradicionalmente, o mercado de dívida privada apresenta retornos constantes, os empréstimos pagam uma yield e contam com elevado nível de senioridade. As empresas onde se investe “tendem a atuar em setores mais defensivos, setores com baixos níveis de gastos de capital, setores pouco cíclicos e com baixa correlação com o preço das matérias-primas”. Posto isto, Karim Leguel finaliza: “Estes empréstimos contam com uma taxa variável, o que os protege contra a inflação. Além disso, como vimos, a senioridade inerente a estes investimentos protege os investidores num cenário de stress, e, mesmo em caso de default, a recovery rate tendo a ser muito elevada. No ciclo económico atual, os investidores agradecem o retorno constante e pouco volátil”.

Infraestruturas

O último segmento abordado foi o do investimento em infraestruturas privadas. O investimento em infraestruturas pode ser divido em quatro principais setores: energia e ambiente, transporte, digital e social. Cada área tem as suas especificidades, no entanto, há caraterísticas que são comuns às várias vertentes do investimento em infraestruturas privadas. Segundo Thibault Richon, diretor da SWEN Capital Partners (Ofi Invest), este é “um mercado em crescimento”. O especialista explica: “Este mercado está em crescimento devido ao gap que existe entre a necessidade de construir infraestruturas e a capacidade dos governos de as financiar. As megatendências contribuem, também, para este crescimento; desde a descarbonização e transição energética - onde se tem que construir infraestruturas de suporte - à digitalização - onde é necessário a criação de redes de informação”.

Em jeito de conclusão, também Thibault Richon respondeu à questão: porquê investir agora neste segmento? “Primeiro, falamos de ativos reais, ativos usados pela população diariamente. Estes ativos contam com enormes barreiras à entrada - devido ao enorme capital necessário para a sua construção - e planos regulatórios de muito longo prazo”, explica o diretor. Os fluxos de caixa são estáveis e previsíveis, não estão diretamente correlacionados com os restantes mercados e são pouco afetados por ciclos de mercado. Os contratos com taxas de juro variáveis também protegem o investimento do risco de inflação. O último ponto levantado remete para o tema da sustentabilidade. O especialista afirma: “Este tipo de investimento pode, e deve, ter um impacto muito positivo no ambiente. Existe um esforço feito, pelos intervenientes que atuam neste segmento, para incorporar a descarbonização no modelo de avaliação e, desta forma, tornar o mundo de amanhã, um mundo melhor”.