Darwinismo digital: a nova disrupção

Romualdo Trancho. Créditos: Cedida (Allianz GI)

TRIBUNA de Romualdo Trancho, diretor e desenvolvimento de negócio na Allianz Global Investors (AllianzGI). Comentário patrocinado pela Allianz Global Investors (AllianzGI)

A disrupção existiu sempre, mas estamos a avançar para uma nova era digital na qual apenas os mais fortes sobreviverão – e assim o demonstra a FundsPeople, que cumpre a primeira década de atividade em Portugal. É hora de reformularmos o que pensávamos que sabíamos sobre a disrupção. No início, estava associada principalmente ao setor tecnológico, nomeadamente às novas plataformas que abalavam os meios tradicionais de transporte, aluguer e entrega de refeições ao domicílio, entre outras áreas. Atualmente, os avanços em hardware e software – e a proliferação massiva dos dados – estão a impulsionar, mais do que nunca, uma transformação em mais setores e âmbitos das nossas vidas, a um ritmo exponencial.  

Esta evolução está a traduzir-se numa espécie de darwinismo digital, um fenómeno global que vai barrar algumas empresas e permitir que outras obtenham uma quota de mercado dominante, e que poderá mesmo afetar a ordem geopolítica mundial. Tal como o processo evolutivo a que deve o seu nome, o darwinismo digital é uma reviravolta à escala celular e está a mudar o mundo em que vivemos. Mas há boas notícias para os investidores: não só podem aproveitar as oportunidades de investimento para alcançar o crescimento e a rentabilidade financeira, como também podem contribuir para gerar outros resultados positivos para a sociedade ou o ambiente.  

Três temas-chave de investimento para a nova disrupção

1. Clima e tecnologia. Os avanços no âmbito da tecnologia do clima, desde os mercados dotados de inteligência artificial para compensar as emissões de carbono até às infraestruturas de transmissão de energia melhoradas, podem contribuir para reduzir o impacto do aquecimento global. Segundo a PwC, no ano que terminou em junho de 2021, foram investidos 87,500 milhões de dólares em empresas que combatem a crise climática, o que contrasta com os 24,800 milhões de dólares no ano anterior1. Desde 2013, mais de 60% de todo o financiamento de venture capital foi destinado a tecnologias relacionadas com a mobilidade e o transporte, área que inclui os veículos elétricos (ver gráfico abaixo).  

2. Dados e conetividade. Dado que grande parte da população mundial está ligada digitalmente, as inovações disruptivas podem estender-se por todo o planeta a uma velocidade vertiginosa. Devemos ter presente que mais de 60% da população mundial está ligada à Internet2 e toda essa conetividade gera 2,5 triliões de bytes de dados por dia3. E mais, a Internet das Coisas (da sigla em inglês, IoT) cresceu 9% em 2021, atingindo os 12,300 milhões de ligações4. Além disso, a tecnologia 6G, na qual a China está na vanguarda atualmente, poderá ser 100 vezes mais poderosa do que a 5G. Esta evolução poderá ir muito além das casas inteligentes e das cidades inteligentes e contribuir para enfrentar dificuldades económicas, sociais e ambientais significativas.  

3. O homem e a máquina. Ao longo da história, houve grandes saltos evolucionistas que impulsionaram a vida adiante – a disrupção biológica original. Podemos estar a aproximarmo-nos de um momento semelhante hoje.  Alguns analistas estimam que, até 2045, a aprendizagem automática e a inteligência artificial podem dar lugar à singularidade, o momento em que as máquinas serão mais inteligentes do que os seres humanos5. No entanto, mesmo que esse momento nunca aconteça, as novas tecnologias terão um profundo impacto na qualidade e na duração da vida. Veja-se como a ciência parece estar a seguir a sua própria Lei de Moore, com as novas tecnologias a serem implementadas a um ritmo cada vez mais elevado, enquanto os seus custos diminuem de forma constante. 

Preparemo-nos para o darwinismo digital 

Tal como Charles Darwin e outros naturalistas avançaram uma teoria da evolução baseada na lei do mais forte, estamos a assistir a um ambiente competitivo redefinido pela capacidade de empresas concretas se adaptarem e prosperarem. No entanto, as implicações que o vencedor fica com tudo nesta corrida para a supremacia tecnológica tem uma projeção mais ampla. Poderíamos afirmar que esta corrida está no cerne das tensões geopolíticas, por exemplo entre os EUA e a China, já que o controlo dos dados confere poder. Aliás, perante a necessidade de proteger as empresas digitalizadas, contar com uma cibersegurança robusta torna-se essencial. O custo da cibercriminalidade a nível mundial poderá atingir 10,5 mil milhões de dólares até 2025, contra os 3 mil milhões de dólares em 20156, tornando-o um setor em rápido crescimento: estima-se que a despesa global em cibersegurança exceda os 1,75 mil milhões de dólares entre 2021 e 20257.

Duas conclusões para os investidores  

  1. Repensar como são elaboradas as carteiras. Neste ambiente de baixas rentabilidades, em que se valoriza particularmente o potencial de crescimento e obtenção de lucros, é importante adotar uma abordagem diferente. Além dos fundos mais tradicionais para a parte core, os investidores devem considerar: (i) o investimento e os fundos temáticos e (ii) a sustentabilidade em todas as suas formas e os investimentos alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. 
  2. Aproveitar o poder da tecnologia disruptiva no processo de investimento. Para aproveitar ao máximo a nova disrupção, os investidores devem incluir novas tecnologias potencialmente disruptivas no seu processo de investimento. Devem ser tidos em conta todos os fatores que influenciam a criação de soluções de investimento a longo prazo - crescimento ou valor, fundamental ou quantitativo. 

A disrupção pode ser intrinsecamente perturbadora, mas é algo que devemos abraçar devido às oportunidades que apresenta e à enorme e urgente necessidade de transformar os seus efeitos negativos em vantagens. Enquanto gestora ativa, desenvolvemos constantemente ferramentas que apoiam os nossos gestores na sua procura por alfa, incluindo alfa financeira e vinculada a objetivos concretos, respondendo ao mesmo tempo com agilidade ao dinamismo do mercado. 


1 Fonte: Relatório ‘State of Climate Tech 2021’ de PwC, Dezembro de 2021

2 Fonte: DataReportal: ‘Digital around the world – global digital insights’, Outubro de 2021

3 Fonte: SeedScientific.com: ‘How much data is created every day?’, 2018

4 Fonte: FirstPoint: ‘Top 4 challenges in IoT data collection and management’, Outubro de 2021

5 Fonte: Futurism.com ‘Kurzweil claims that the singularity will happen by 2045’, Fevereiro 2017

6 Fonte: Cybersecurity Ventures: ‘Cybercrime to cost the world $10.5 trillion annually by 2025’, Novembro de 2020

7 Fonte: EINNews.com: ‘Global cybersecurity spending to exceed $1.75 trillion from 2021-2025’, Setembro de 2021