Esta semana vou estar de olho... na curva forward de taxas de juro

André David Nunes Norfin
André David Nunes. Créditos: Cedida (Norfin)

Esta semana vou estar de olho em... é da autoria de de André David Nunes, CIO, Arrow Global Portugal.

Encontramo-nos hoje em dia numa encruzilhada interessante que resulta, por um lado, da maior robustez económica, resultante da recuperação pós-pandemia que as várias economias têm tido e, por outro, das extraordinárias nuvens no horizonte que resultam das incertezas relativas à inflação e ao impacto da guerra na Ucrânia.

Desse ponto de vista é curioso ver a evolução das várias curvas forward de taxas de juro que, à falta de uma bola de cristal, representam a visão coletiva do mercado sobre o futuro.

E o que nos dizem? Fundamentalmente que o mercado não acredita que a subida das taxas de juro que o Fed iniciou na semana passada seja um fenómeno duradouro.

Ou seja, ao contrário do que muita gente antecipava, não parecemos estar numa situação de inversão de ciclo continuado com subidas graduais e prolongadas das taxas de juro. Inclusive, o mercado antecipa, genericamente, que os bancos centrais terão que cortar taxas no espaço de 1-2 anos novamente.

Isto mostra o quão precária é a situação em que nos encontramos atualmente e o equilíbrio instável em que os Banco Centrais vão operar ao tentar controlar a inflação antecipada sem despoletar uma recessão.

É curioso também notar que, mesmo num cenário de taxas de juro baixas em que atualmente ainda nos encontramos, começam a aparecer pequenos sinais de distúrbio em setores que tipicamente podem ser considerados como os canários na mina do sistema financeiro, como é o caso do setor de high yield. Tem havido nos últimos meses uma divergência entre high yield e equity, sobretudo nos EUA a que se juntaram, recentemente, os primeiros defaults do ano no mercado de CLOs.

Estes são sinais que podem revelar quão frágil é a situação atual e o impacto que uma subida sustentada de taxas pode vir a ter. Apesar de tudo não nos podemos esquecer que a economia global está hoje em dia mais alavancada do que no período de 2007-2008 e consequentemente um cenário de taxas mais altas continuadas pode ter um efeito devastador.

A nível local, e para quem está presente no mercado de imobiliário e crédito, todos estes sinais são importantes para ter um pouco mais de visibilidade sobre a robustez a que se tem assistido no sector imobiliário por um lado e, por outro, na antecipação de stresses que possam vir a ocorrer no sistema financeiro com consequente impacto nas carteiras de crédito dos bancos.

Em termos gerais somos da opinião que os sinais negativos recentes terão como consequência que os Bancos Centrais terão um espaço muito estreito de subida de taxas e daí a importância da monitorização das forwards nos próximos tempos para confirmar a validade dessa tese.