Luis Sancho (BBVA AM): “O investimento em obrigações é uma opção que faz sentido no atual entorno económico”

Luís Sancho BBVA
Luís Sancho. Créditos: Vítor Duarte

COLABORAÇÃO de Luis Sancho, responsável de Investimentos na BBVA AM.

A segunda metade do ano poderá ser marcada pelo receio dos bancos centrais do seu próprio sucesso. Até agora, a condução da política monetária tem conduzido de modo consistente à descida paulatina dos níveis de inflação. Nesse sentido, o excesso de zelo que começa a perpassar nas intervenções dos principais interlocutores da Fed pode condicionar a altura apropriada para iniciar o seu processo de normalização monetária, podendo contribuir, involuntariamente, para uma travagem mais abrupta no crescimento económico

Na esfera geopolítica, as aproximações das eleições norte-americanas irão acrescentar alguma incerteza, impactando diretamente na orientação da política comercial a nível global, por si só já marcada por um aumento do nível de protecionismo e, aqui, mais incerto, no rumo dos conflitos militares presentes, em especial no que diz respeito à guerra na Ucrânia.

Perspetivas de crescimento dos mercados desenvolvidos

Nos EUA, apesar de reiterarmos a visão de um crescimento moderado em 2024, sobressai a resiliência da economia norte-americana, num entorno de política monetária restritiva, que continua a desafiar as melhores estimativas. Seja devido ao desenvolvimento da inteligência artificial com os ganhos de produtividade associados, seja devido a um entorno mais propício ao investimento com programas como o Inflation Reduction Act, a verdade é que o nível de crescimento projetado para 2024 poderá situar-se à volta de 2,0%.

Na Europa, e apesar do sucesso relativo na mitigação dos custos de energia, o crescimento tem sido mais anémico. O BCE parece também mais desperto para esta situação e iniciou antes da Reserva Federal o ciclo de normalização de cortes de taxas. Ainda assim, um quadro político mais exigente, sobretudo em França, poderá retirar algum momentum à recuperação da atividade económica. Apesar disso, a forte resiliência evidenciada pelo mercado laboral alicerçada no impulso decorrente da aplicação dos fundos comunitários deverão proporcionar níveis de crescimento à volta de 0,8%.

Crescimento dos mercados emergentes

A China continua a evidenciar dificuldades em ultrapassar totalmente os problemas relacionados com o seu parque imobiliário, e é uma das variáveis que tem condicionado a evolução do crescimento económico. Contudo, a resiliência global da economia também tem permitido que a meta de crescimento definida pelas autoridades centrais seja alcançável. Nesse sentido, níveis de crescimento muito próximos de 5% poderão ser uma realidade em 2024.

Na América Latina, os dois principais motores da região, Brasil e México, deverão continuar a tirar proveito da procura interna, suportada por um ciclo de cortes de taxas de juro mais adiantado. A política fiscal também deverá dar uma ajuda ao manter-se expansionista, ainda que, no caso de México, tais políticas possam também colocar em causa a credibilidade fiscal do país. Os investidores não deixarão de monitorizar atentamente a evolução de programas sociais ambiciosos e exigentes do ponto de vista orçamental e como os mesmos poderão impactar o défice.  Apontamos para uma ligeiríssima revisão em alta com as duas maiores economias da região a poder crescer à volta de 2,1%. 

Comportamento das classes de ativos

Reiteramos que o investimento em obrigações é uma opção que faz sentido no atual entorno económico. Acreditamos que as taxas de juros reais terão que continuar o seu caminho de normalização para níveis próximos do crescimento potencial da economia, o que implica, por exemplo, que as mesmas nos EUA tenham que cair cerca de 100 pontos base.

O bom comportamento dos spreads de crédito, transacionando a níveis próximos de mínimos históricos, nivelou bastante as preferências entre investment grade e dívida soberana, dado que ambas poderão beneficiar de níveis de carry interessantes e, em igual medida, do ciclo de cortes de taxas de juro que se avizinha. O segmento high yield também conta com níveis de carry elevados, ainda que nos pareça, num horizonte temporal mais alargado, em desvantagem numa análise do binómio risco/retorno face aos seus congéneres de melhor qualidade creditícia.

O mercado acionista também continua a tirar partido de um entorno favorável como consequência de vários fatores já aqui enumerados. Uma evolução económica melhor do que o esperado e níveis de inflação que continuam a convergir para a meta desejada pelos bancos centrais, além de que, não menos importante, todo o momentum à volta das dinâmicas relacionadas com a inteligência artificial faz-nos acreditar que os mercados ainda não se encontram com níveis exagerados de valorizações. Em termos de métricas, continuamos a ver valor na Europa, sobressaindo, nesse particular, a bolsa do Reino Unido. A própria subida dos trabalhistas ao poder, desta vez, poderá contribuir para um impulso dos ativos britânicos.

Eleições nos EUA

No momento em que escrevo estas linhas, parece haver uma maior clarividência de que Donald Trump poderá regressar à Casa Branca em janeiro próximo. Nesse sentido, o mercado poderá começar a posicionar-se para tirar partido de algumas bandeiras do seu programa. Cortes de impostos, menor regulação, maior nível de tarifas, menor alinhamento com os aliados tradicionais, e alguma indiferença perante os objetivos necessários para combater as alterações climáticas são assuntos que irão estar na agenda do dia. A conjugação da normalização da política monetária com um programa fiscal expansionista num contexto de défices elevados poderão gerar algumas fricções que não deixarão de se fazer sentir nos mercados financeiros.