O que nos dizem os dados sobre o interesse do investidor de retalho pelo ESG
Digitais? Sim. Sustentáveis? Nem tanto. Os dados que a MyInvestor analisa evidenciam a enorme diferença que existe entre as preferências declaradas dos clientes de retalho e onde acabam por investir o seu dinheiro. “Quando fazem o teste de adequação MiFID, 40% dos nossos utilizadores declara que a sustentabilidade é importante. Mas depois, menos de 5% dos ativos vai para fundos Artigo 9º”, explica Ignasi Viladesau, diretor de Investimentos (CIO) da MyInvestor, durante um encontro organizado pela FundsPeople no âmbito do ETF&Index Minds em que também participaram Pedro Santuy, diretor de Vendas de ETF e Indexados na BNP Paribas AM, Lorena Martínez-Olivares, responsável de ETF para Espanha e Portugal na J.P.Morgan AM, e Óscar Esteban, responsável de Negócio em Espanha e Portugal na Fidelity International.
Não é um problema de oferta. “Temos cerca de 100 fundos Artigo 8º ou 9º – fundos de investimento, não indexados – e também bastantes ETF”, continua Viladesau. “Oferecemos até uma carteira de gestão discricionária Artigo 9º, mas não é um produto estrela nem tem forte procura. Assim, vemos uma diferença clara entre o que os clientes dizem e o que fazem”.
A situação é diferente no segmento institucional. “Se olharmos para os números agregados na Europa, 2022 foi um ano de viragem”, comenta Pedro Santuy. “Nesse ano, 60% dos fluxos foi para produtos Artigo 8º ou 9º, cerca de 40-50 mil milhões de euros. Em 2023 e 2024, essa percentagem caiu para 30% e 15%, respetivamente, mas como o total de fluxos aumentou, o volume investido neste tipo de produtos manteve-se bastante estável na Europa, na ordem dos 40-50 mil milhões. Assim, temos uma procura estável que em percentagem é inferior porque os fluxos estão a crescer muito nos ETF”.
E um aspeto interessante partilhado pelo diretor de Vendas de ETF e Indexados na BNP Paribas AM: “Temos visto uma tendência muito grande para transitar produtos Artigo 8º com tracking error elevado para produtos light green com um tracking error face a índices tradicionais mais baixo. Dos 15.000 milhões de euros que saíram no ano passado de produtos sustentáveis dark green com tracking error entre 2% e 4%, quase 90% passou para produtos light green com um tracking error entre 0,5% e 1,5%”
1/2Do que não há dúvida é de que o setor europeu do investimento sustentável enfrentou o seu particular tsunami regulatório nos últimos anos: o regulamento SFDR e a sua posterior revisão, as novas normas da ESMA sobre rotulagem e greenwashing, a taxonomia verde europeia, a diretiva CSRD (relatórios de sustentabilidade corporativa) e a diretiva CSDDD (due diligence em matéria de sustentabilidade) mantiveram os reguladores ocupados e empresas e investidores em suspenso.
“Creio que a ESG veio para ficar, mas a regulação não acompanhou porque ainda estamos em processo de mudança e, quando as diretrizes não estão claras, tudo se complica”, reflete Lorena Martínez-Olivares. Como recorda a responsável de ETF para Espanha e Portugal na J.P.Morgan AM, “a própria regulação levou muitas gestoras a reclassificar fundos Artigo 9º para o Artigo 8º porque os critérios eram demasiado restritivos”.
Com a flexibilização desses critérios, o que agora se observa é um menor apetite dos investidores por estes produtos. “Embora o investimento com critérios de sustentabilidade não esteja a ter tanta procura como em anos anteriores, na Fidelity International parte da nossa oferta de ETF de gestão ativa em ações inclui filtros com critérios ESG, e toda a nossa gama de ETF de rendimento fixo é artigo 9”, conclui Óscar Esteban.
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