Diferentes investidores, diferentes formas de abordar os mercados privados

Fonte: Cedida

Uma grande tendência que se consolidou nos últimos anos da década com as taxas de juro mais baixas da história foi o crescimento da alocação por parte de investidores institucionais a ativos privados. Depois de anos complicados para a alocação tradicional de ativos, alternativas rentáveis e diversificadoras em mercados menos líquidos ganharam tração nas carteiras. Contudo, nem todos os investidores olham para o tema da mesma forma e diferentes considerações dirigem os processos de due dilligence e seleção das subclasses de ativos e veículos. Charles Lezardiere, especialista de Private Markets na Mercer explicou, no mais recente Simpósio de Investimentos da Mercer, com o tema Driving your portfolio forward, o que diferencia cada segmento investidor.

Segundo indica, no caso dos family offices,  os principais fatores a ter em conta incluem uma abordagem de investimento que combine os objetivos familiares e equilibre a preservação do capital com a maximização do retorno. Segundo Charles Lezardiere, é um segmento investidor já com uma experiência consolidada. “Um grande número de family offices tinham já dotações significativas em fundos de capital de risco - em empresas de biotecnologia, por exemplo - ou com gestores de private equity norte-americanos que têm demonstrado resultados muito bons”, diz. “Estes family offices são tipicamente muito sofisticados. Muitos começaram através de investimentos diretos e evoluíram para investir com empresas de private assets”. 

Já os planos de pensões de benefício definido têm aumentado as afetações aos mercados privados, particularmente no Canadá e nos EUA, segundo indica. As preocupações circulam em torno do nível de financiamento do plano de  pensões, o horizonte de investimento e a gestão do risco de liquidez, com o efeito de denominador  - ou o risco de uma sobre-exposição a ativos menos líquidos como resultado da desvalorização dos mais líquidos - a destacar-se entre os demais. 

“Os fundos de pensões são uma história um pouco diferente, dependendo de onde se está globalmente”, indica o profissional. Segundo diz, se olharmos para os fundos de pensões canadianos ou americanos, vemos afetações muito grandes aos mercados privados. O Reino Unido, por seu lado, encontra-se num ponto intermédio. Não obstante, “os regimes de pensões de benefício definido, em geral, têm vindo a aumentar as alocações aos mercados privados, nomeadamente na Europa”, conta Charles Lezardiere. O profissional vê também algumas preocupações quando se trata de uma potencial venda ou liquidação do fundo de ativos privados, nomeadamente, quais as classes de ativos que podem ser mais favoráveis para reinvestir. “Geralmente, a resposta é a dívida privada, devido ao seu ciclo de vida mais curto. Dos diferentes blocos de ativos privados - private equity, imobiliário, infraestruturas ou dívida privada -, esta é,  de longe, a que tem o ciclo de vida mais curto”.

Desenvolvimentos interessantes

No universo segurador, por seu lado, o profissional salienta a gestão do risco de liquidez, a procura por alfa e a utilização de veículos eficientes em termos de capital, como os fatores mais relevantes. 

“Nas companhias de seguros, estamos a começar a assistir a uma alocação crescente às infraestruturas e à dívida privada. Regra geral, fazem-no através de ativos core ou com um perfil de risco mais baixo dentro dessas classes de ativos, sempre com uma consciência das restrições ao nível do consumo de capital”. Há algumas vantagens neste último ponto no que aos ativos privados diz respeito, segundo o profissional. “Estamos também a começar a ver algumas seguradoras a incluírem a dívida privada nas suas carteiras de matching de responsabilidades. Um desenvolvimento interessante”, comenta.

Finalmente, na gestão de patrimónios privados, Charles Lezardiere tem registado um crescimento significativo do interesse, com os avanços tecnológicos a melhorar o acesso aos mercados privados na gestão da riqueza. Os desenvolvimentos nas estruturas de fundos, plataformas e regulação também melhoraram o acesso, facilitando aos indivíduos o investimento em mercados privados com mínimos de investimento mais baixos. “Parte disto deve-se ao acesso a fundos semi-líquidos, mas, essencialmente, para alguém que procura investir 25.000 euros em mercados privados, pode agora fazê-lo através de diferentes soluções. A barreira tem descido muito, e há muito interesse”, termina.