Fed procura acalmar o medo de um novo taper tantrum: reações das gestoras internacionais

EUA
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Inflação dispara… Subida de taxas surpresa… Um Taper Tantrum 2.0 é o principal cisne negro que vigiam os mercados atualmente. Tudo aponta para que as grandes economias continuem a necessitar dos estímulos monetários dos bancos centrais. Mas, teme-se que um susto na subida dos preços procure forçar a mão destas entidades. E é um medo que a Reserva Federal tentou acalmar na sua reunião de janeiro.

O primeiro encontro com os mercados este ano foi escasso em ação, mas importante quanto às palavras utilizadas por Jerome Powel. “A última reunião da Reserva Federal não se tratava de lançar fogos de artifício. Tratava-se de deixar claro que a autoridade monetária não vai reduzir a sua atividade a curto prazo”, resume James McCann, economista global sénior da Aberdeen Standard Investments. Ainda que o otimismo em torno da recuperação se baseie na perspetiva de novos estímulos fiscais em conjunto com as vacinas, por agora a economia continua a lutar contra o último aumento da propagação da COVID-19. “Sem dúvida, Powell estará atento ao que possa fazer a sua predecessora Janet Yellen na frente fiscal, mas por agora não está disposto a manter uma conversa sobre a retirada destas medidas”, defende McCann.

O problema é que os mercados olham de soslaio para o sinal de saída. Antecipam um ataque de raiva. Consciente disso, a Fed enfrenta um ato de equilíbrio muito exigente ao comunicar qualquer mudança de política nos próximos meses e anos, na opinião de Anna Stupnytska, economista macro global da Fidelity International.

Pequenos detalhes no discurso

Por agora, a mensagem da Fed é de que os números confirmam uma postura cautelosa. Como bem realça Stupnytska reconheceram uma certa moderação na recuperação e um progresso mais débil do mercado laboral nos últimos tempos. E esta deterioração nos dados em conjunto com o ressurgimento do vírus não foram suficientes para que a Fed aumentasse a acomodação das políticas nesta etapa. Bruno Cavalier, economista chefe na ODDO BHF, coincide com esta interpretação: “Powell reiterou que é provável que a Fed adote uma postura paciente nos próximos meses quando se vir um salto nos números da inflação, e que por agora considera ser só uma recessão temporária”.

Como observa Christian Scherrmann, economista da DWS, são os pequenos detalhes que fazem a diferença. “As pequenas mudanças em relação à declaração anterior destacam a recente perda de ímpeto económico relacionada com a pandemia”, explica. “A declaração de janeiro menciona o progresso das vacinas como relevante para a recuperação económica, e o impacto da pandemia sobre a atividade económica já não é considerado a médio prazo. Powell deixou claro na conferência de imprensa: estes riscos são agora considerados de curto prazo. Ainda assim, o caminho para a recuperação continua incerto”, destaca.

Parece que, por enquanto, a Fed está a manter a sua posição. Para Tiffany Wilding, economista da PIMCO, Powell encontrou um equilíbrio entre enfatizar a fraqueza económica atual e melhorar as perspectivas económicas. Ao mesmo tempo, reiterou que a atual postura da política monetária altamente acomodatícia é adequada para manter a recuperação económica. Wilding destaca a seguinte frase: “Vamos continuar acomodatícios até vermos uma melhoria na economia e não apenas nas perspectivas.” E em relação a como esta abordagem cautelosa se relaciona com as compras de ativos, Powell sugeriu que demorará muito até que novos avanços substanciais aconteçam, esse que será o gatilho para a Fed começar a reduzir o ritmo mensal de compras, interpreta a especialista.

Com esta tela de fundo, Seamus Mac Gorain, responsável de taxas globais da J.P.Morgan AM, espera que a rentabilidade das obrigações do Tesouro negoceie numa faixa de 1% a 1,25% no curto prazo, mas que vai subir na segunda metade de 2021.