Ana Nobre (ABANCA): “Portugal é, atualmente, um país altamente atrativo do ponto de vista fiscal para não residentes”
A terceira edição do Think Tank BNY Investments reuniu novamente especialistas para debater as principais tendências que estão a moldar o futuro da banca privada. Entre os temas em destaque estiveram a evolução das preferências dos investidores, a eficiência fiscal, o impacto da criação de um mercado único de capitais e o papel do banqueiro privado num contexto cada vez mais exigente e globalizado.
O debate sobre as categorias de produtos em destaque no segmento de banca privada foi um dos que mais gerou reflexão. No caso do ABANCA, conta Ana Nobre, diretora de Banca Privada da entidade, não se observa uma alteração substancial nas categorias de produtos que despertam maior interesse, face à última vez que falámos. Segundo explica, a grande maioria dos clientes mantém “um floor de mercado monetário”, enquanto nota “incursões cirúrgicas” no mercado de ETC e ETF.
“Continuamos também com uma predominância muito grande na parte dos produtos estruturados, mas a grande novidade é uma procura muito expressiva por gestão profissionalizada, via gestão discricionária”, afirma, acrescentando que nesse campo observou, de facto, uma curva exponencial de crescimento ultimamente. Nota ainda o destaque que os produtos de banca seguros têm ganho, cujo crescimento se explica, na sua opinião, pela carga tributária a que os investidores estão sujeitos: “Quanto mais o investidor se vê pressionado, maior é o peso que estes produtos passam a ter nas carteiras de investimento da banca e dos seguros”.
Apesar de haver uma maior penetração dos clientes nos mercados privados, Ana Nobre escolhe parcimónia como a palavra para descrever esse movimento. “É preciso saber muito bem aquilo que se está a adquirir, desde a componente da falta de liquidez ao conhecimento de como funcionam as capital calls. Também é crucial que haja um trabalho de preparação cuidadoso entre o private banker e o cliente, para que este saiba qual é o percentual máximo que a sua carteira pode alocar nesse tipo de produto financeiro”. Na sua opinião, há ainda um caminho a ser traçado, “mas é um caminho que tem de ser feito com parcimónia, considerando que a questão da falta de liquidez pode ser um fator dissuasor para alguns clientes”, revela.
A eficiência fiscal e as exigências dos clientes
A reflexão sobre produtos e estratégias de investimento conduz naturalmente a outro tema central: a eficiência fiscal. Para Ana Nobre, neste âmbito, há dois parâmetros fundamentais a considerar: “O primeiro é o resultado líquido e o segundo é garantir uma solução eficiente para a transmissão de património”, colocando o resultado líquido no centro, com três pilares: “Gestão corrente para liquidez e execução; banca seguros vida para horizonte longo e sucessão, beneficiando do diferimento; e fundos perfilados para disciplina e estabilidade, ajustando a alocação dentro do fundo para evitar choques fiscais desnecessários”. A partir daí, Ana Nobre considera ser essencial olhar para cada carteira, integrando todas as soluções disponíveis dentro daquilo que se designa banca/seguros de vida, quer seja unit-linked, PPR, ou seguros de capitalização.
“A eficiência está em termos de diferimento de tributação”, explica, acrescentando que o mais importante é que, ao analisar a carteira de um cliente, se entenda o seu contexto completo. “Cada cliente tem um conjunto único de fatores: ascendentes, descendentes, fontes de rendimento, e, possivelmente, uma parte empresarial. É crucial fazer uma leitura cuidadosa para entender a origem e a composição do rendimento daquele investidor e, assim, oferecer-lhe a solução mais adequada”.
Clientes estrangeiros e o mercado único de capitais: um fator de dinamismo para o mercado português
“A criação de um mercado único de capitais terá, sem dúvida, um impacto significativo”, afirma Ana Nobre. Na sua opinião, este incentivo à padronização é bem-vindo, principalmente tendo em conta que a zona euro é uma das zonas do mundo com as maiores economias e onde os aforradores possuem um maior volume de riqueza per capita. “Estamos a falar de aumentar a escala e a dimensão do mercado, o que é benéfico para todos nós”, acrescenta.
No entanto, acredita que este é um dos poucos casos em que as mudanças devem, efetivamente, ser definidas por decreto, de forma transnacional: “Não pode haver interpretações nem veleidades nacionais que se elevem a este desígnio supranacional e europeu”, afirma, alertando que, caso contrário, correremos o risco de afetar áreas muito importantes para a Europa, como o estado social e o segundo pilar. “Este pilar seria fundamental para integrar uma componente de poupança ligada ao aforro, num contexto demográfico desafiante”.
No que respeita aos clientes estrangeiros, Ana Nobre considera que Portugal é, atualmente, um país “altamente atrativo do ponto de vista fiscal para não residentes”, o que se reflete num volume expressivo de fluxos de entrada. Estes novos investidores representam, segundo a responsável, uma “valência extremamente relevante” para o negócio de banca privada. “Os clientes estrangeiros têm vindo a ganhar um peso crescente, trazendo consigo maior diversidade e exigência, o que, no conjunto, é altamente favorável para a nossa atividade”, afirma a diretora de Banca Privada do ABANCA.
Do ponto de vista da diversidade fiscal, considera que a abordagem dever ser simples. “O enquadramento global resume-se essencialmente a três dimensões regulatórias: o FATCA, o CRS e os acordos de dupla tributação”, afirma. Existe igualmente um aspeto importante relacionado com a portabilidade das soluções, uma vez que, como explica, muitas das soluções que oferecem apresentam uma portabilidade “bastante limitada”, sendo, por isso, essencial compreender bem o domicílio fiscal do cliente para maximizar as opções disponíveis em Portugal.
O banqueiro privado: liderança define o padrão e garante a execução
O perfil do banqueiro privado tem evoluído ao longo dos anos, mas que papel têm as instituições e os responsáveis de equipa neste desenvolvimento? Na opinião de Ana Nobre, o respaldo da instituição é a base: “Marca, balanço, governação, controlo, tecnologia e prazo. O cliente tem um gestor único, responsável por toda a relação”, relata. Esse gestor aconselha, coordena e acompanha e trabalha com padrões de adequação verificados por equipas internas que garantem eficácia e conformidade. O gestor reúne todas as competências essenciais e aplica-as com clareza. “Conhece os instrumentos financeiros e quando os usar, entende a fiscalidade e a sucessão no que é relevante para aconselhar sem erro, comunica de forma simples e regista tudo com rigor”, esclarece. Além disso, conta Ana Nobre, no ABANCA a formação é obrigatória e contínua. “Reforçamos a adequação ao abrigo da MiFID II e, quando aplicável, da DDS. Atualizamos fiscalidade internacional, prevenção de branqueamento e reporte ao abrigo da FATCA e do CRS”, afirma.
Por último, considera que “a liderança define o padrão e garante a execução”, selecionando gestores completos e fornecendo ferramentas e dados. “O resultado é um serviço coerente: um gestor responsável por tudo, apoiado por equipas que asseguram eficácia e adequação, dentro de uma instituição que oferece força, método e estabilidade”, conclui.
