Esta semana vou estar de olho... na apresentação de resultados da Nvidia, um teste à resiliência do ciclo de investimento em IA

Mário Carvalho Fernandes. Banco Carregosa
Mário Carvalho Fernandes. Créditos: cedida (Banco Carregosa)

O Esta semana vou estar de olho... é da autoria de Mário Carvalho Fernandes, CIO do Banco Carregosa.

No próximo dia 28 de maio, a Nvidia apresentará os resultados do primeiro trimestre do seu exercício fiscal de 2025. Mais do que uma simples divulgação de contas, este evento tornou-se um verdadeiro barómetro para o sentimento do mercado tecnológico global e, por extensão, para o mercado acionista como um todo.

Para o primeiro trimestre de 2025, o consenso de mercado antecipa receitas na ordem dos 43,3 mil milhões de dólares, dos quais cerca de 90% são relativos ao segmento de data centers, um aumento de 66% face ao mesmo período do ano anterior e de 10% face ao último trimestre, com um lucro por ação estimado em 0,88 USD. A confirmar-se, será mais uma demonstração da força da procura por soluções computacionais de elevada performance, sobretudo no domínio da inteligência artificial generativa.

Nvidia como barómetro macro e tecnológico

A Nvidia posicionou-se como fornecedor central de hardware especializado para grandes modelos de linguagem, sistemas de inferência e clusters de treino em larga escala. As suas GPU de classe empresarial, como as arquiteturas Hopper (H100/H200) e a mais recente Blackwell (B100/B200), tornaram-se o padrão da indústria para cargas de trabalho intensivas em IA. 

Estas inovações visam acelerar ainda mais as capacidades de computação para aplicações de IA generativa. Em simultâneo, colocam a empresa numa posição incontornável no seio dos investimentos nessa área em forte expansão.

Por outro lado, importará descartar a hipótese de que a IA low-cost (tipo DeepSeek), meramente apoiada na inferência realizada por equipamentos menos diferenciados, possa ter perturbado o interesse nos equipamentos mais inovadores, mais eficientes e com maior capacidade computacional. Estes receios avançados durante o primeiro trimestre de que alguns hyperscalers, como a Microsoft, estariam a abrandar o seu ritmo de construção de data centers, têm sido desmentidos na recente época de resultados trimestrais, durante a qual reiteraram as suas expetativas de despesas de investimento para o ano de 2025.

Tensões geopolíticas e exportações limitadas

A Nvidia tem enfrentado restrições crescentes por parte das autoridades norte-americanas no que diz respeito à exportação de tecnologia avançada para a China. Desde outubro de 2022, vários modelos de GPU foram alvo de controlos, com restrições adicionais implementadas em 2023 e 2024. A empresa reagiu com versões limitadas, como os modelos A800 e H800, mas o impacto nas receitas provenientes da Ásia e, sobretudo, nas perspetivas de crescimento em mercados não ocidentais continua a ser uma incógnita. Adicionalmente, a introdução de tarifas comerciais pelos EUA poderia traduzir-se também num risco para o crescimento da Nvidia, ao elevar os custos dos equipamentos importados para utilização nos EUA. Espera-se que a equipa de gestores da empresa, liderada por Jensen Huang, aborde o tema na próxima conferência de resultados, fornecendo indicações sobre como as políticas de comércio externo podem afetar a vaga de investimento na capacidade computacional instalada e, consequentemente, na expansão do volume de negócios da empresa. Os investidores estarão igualmente atentos a mais detalhes sobre os resultados da recente visita de Donald Trump ao Médio Oriente, na qual foram anunciados novos investimentos massivos em data centers em alguns desses países, e que envolvem também a participação da Nvidia.

Mais do que resultados, um sinal

O foco nesta apresentação de resultados de uma empresa justifica-se, pois, o relatório trimestral da Nvidia oferecerá uma visão sobre três dimensões críticas do atual regime de mercado:

  1. A robustez do ciclo de investimento em inteligência artificial;
  2. A capacidade da empresa em manter a liderança tecnológica num ambiente de concorrência e constrangimentos legais crescentes;
  3. O grau de vulnerabilidade da empresa e do sector tecnológico face à possível fragmentação das cadeias de produção globais.

Num momento em que a narrativa dominante assenta fortemente na promessa transformadora da IA — e na sua tradução em fluxos reais de capital e lucros —, os números da Nvidia continuam a ser, não apenas relevantes, mas sistemicamente significativos.