Esta semana vou estar de olho... nos dados de custos do trabalho dos EUA

EUA
Créditos: Aaron Burden (Unsplash)

O Esta semana vou estar de olho... é da autoria de Gonçalo Marouvo, gestor, da BPI Gestão de Ativos.

Na próxima semana vou estar de olho nos dados de custos do trabalho dos EUA. Com o menor receio do impacto económico imediato das recentes falências bancárias nos EUA, a atenção dos investidores poderá (parcialmente) voltar para dados que elucidem se a tendência de queda da inflação se consolida. 

Os membros da Reserva Federal têm direcionado a sua preocupação para a componente de serviços excluindo rendas da inflação. É a rubrica que compreende setores mais intensivos em trabalho, logo mais relacionada com o mercado laboral e com as dinâmicas salariais. Normalmente, os economistas consideram os salários como a âncora de médio-prazo para o crescimento do nível de preços. De facto, a versão original da curva de Phillips tinha o crescimento dos salários como variável dependente, tendo sido depois reconfigurada para a inflação dos preços.

O indicador de custos do trabalho (employment cost index) é considerada a métrica salarial preferida pela Reserva Federal Norte-Americana. Por quê? 

  1. É uma medida mais completa da remuneração de um trabalhador para a empresa, na medida em que inclui os benefícios extra-salariais, como, por exemplo, seguros de saúde. Na ótica da empresa, as decisões de preços e margens tendem a ser independentes de a remuneração dos trabalhadores ser realizada via salário ou via um benefício em espécie.  
  2. Expurga as distorções que a alteração da composição setorial do emprego provoca. A melhor maneira de representar está presente no gráfico, na linha a azul: no período referente aos confinamentos, os setores que envolvem mais contacto social experimentaram uma maior redução no emprego. Como estes setores tendem a ter salários-hora mais baixos (maioritariamente alojamento e hotelaria), a saída dos trabalhadores pior remunerados levou a que matematicamente os salários agregados por hora tivessem aumentado. Daqui se demonstra a relevância de medir com “peso setorial” constante. 

A principal desvantagem desta métrica é a sua frequência, trimestral. Por isso, este dado servirá mais para os investidores confirmarem que o sinal que extraíram dos dados mais erráticos que foram saindo ao longo do trimestre está correto. 

Neste momento, a mediana das expectativas dos economistas que reportam à Bloomberg espera que a variação em cadeia do índice de custos do trabalho seja de 1.1%, uma aceleração face ao valor de 1% do último trimestre. Este valor corresponderá a uma variação homóloga de aproximadamente 4.7%, adicionando um valor inferior à linha a cinzento no gráfico.

Será um valor anualizado em cadeia de cerca de 4.5% desconfortável para a Reserva Federal? Depende da evolução da produtividade. O problema é que deduzi-la (calculando os custos unitários do trabalho) é demasiado volátil para extrair um sinal, uma vez que a produtividade é medida de forma indireta (rácio entre total produzido e tal de horas trabalhadas), como se pode ver na linha amarela. Com valores largamente acima de 2% e aguardando dados de crescimento que permitam aferir as condições de crédito mais apertadas, o mais provável é que a Reserva Federal classifique os recentes desenvolvimentos nas métricas salariais como ainda insuficientes.