A grande migração dos portefólios conservadores

Numa mesa redonda promovida pela Carmignac, Inês Castro, da DWM do Millennium bcp, Luís Alvarenga, CFA, da BPI Gestão de Ativos, Miguel Taledo de Sousa da sucursal portuguesa da Bankinter Gestión de Activos e o responsável pelo mercado português da entidade gestora francesa, Ramón Carrasco, recorreram a toda a sua experiência para responder a uma questão: Poderão os investidores ver-se forçados a abraçar as ações como a única solução para obter retorno nos portefólios?

Para Miguel Taledo de Sousa, diretor de investimentos da Bankinter GA, a resposta aproxima-se do sim. “Temos visto, de facto, uma série de investidores ultra conservadores a serem expulsos do território dos depósitos ou dos investimentos de taxa de juro em geral. Vimos também alguma migração natural dos perfis mais defensivos para perfis moderadamente conservadores ou moderados. Aliás, esta é, no meu entender, a intenção dos bancos centrais. Com as taxas em níveis negativos, a única solução para os investidores é assumir mais risco, financiando a economia real e, por arrasto, alguns segmentos mais arriscados do mercado de capitais”, afirma. 

“Até quando os fundos de pensões e as seguradoras vão financiar um universo de yields negativas?”

No que se refere a soluções específicas de investimento, observa movimentos no mercado que provam que a falta de yield empurrou a indústria para produtos muito específicos como forma de espremer o que ainda há de yield no mercado. “Fundos dedicados a dívida subordinada, fundos dedicados, somente, a dívida high yield, ou um misto desta com a primeira. Fundos de distressed debt… Muita criatividade no espaço de fixed income para tirar proveito dos nichos que ainda têm uma yield positiva”, exclama. “Como consequência desta conjuntura que vivemos há mais de 10 anos, corremos o risco de que o mundo em que vivemos se converta de um mundo normal de carteiras de ações, obrigações e liquidez, num mundo binário, apenas com liquidez e ações. A pergunta que deixo é: até quando os fundos de pensões e as seguradoras vão financiar um universo de yields negativas?”

Na mesma linha de pensamento, Ramón Carrasco, diretor de desenvolvimento de negócio da Carmignac, é contundente na conclusão da sua análise: “É provável que os bancos centrais tenham muita dificuldade em sair da repressão financeira”. Capitalizando a questão que Miguel Taledo de Sousa deixou no ar, o profissional da Carmignac detalha ainda mais o problema. “Imaginem um plano de pensões de benefício definido a enfrentar ano após ano um universo investível em terreno negativo. A única forma de ultrapassar o problema será assumir mais risco, ou verão as taxas nominais e a inflação a reduzirem ainda mais o retorno real do portefólio. Esta repressão financeira empurra os clientes com perfis mais defensivos para investimentos mais equity like”.

“Esta repressão financeira empurra os clientes com perfis mais defensivos para investimentos mais equity like”

Para Ramón Carrasco existem – ainda – formas de obter yield no mercado. Dívida de mercados emergentes ou crédito, são uma alternativa, mas mesmo aí, os investidores têm que assumir um nível significativo de risco e levanta-se a dúvida: “Se é para assumir risco, porque não adicionar ações à carteira?” 

Desta forma, realça, “uma estratégia de investimento flexível e equipas especializadas são essenciais para enfrentar este cenário”. “É o que vemos os nossos clientes a procurar. Eles querem ver garantido que as suas carteiras têm a flexibilidade para ajustar a alocação de ativos de acordo com cada cenário. Querem o melhor retorno possível para cada nível de risco”, refere.

Um problema que não é de agora

Embora a crise gerada pela pandemia tenha exacerbado a situação, a falta de yield no mercado não é um problema de agora. Inês Castro e a sua equipa estão há anos a ajustar as suas carteiras no sentido de otimizar a resposta à conjuntura económica. “Estamos sobreponderados em ações há muito, muito tempo”, “mesmo na Europa, quando ninguém acreditava  que as ações europeias poderiam ter uma boa performance. Sofremos um bocado com a sobreponderação a esta classe de ativos, mas fomos recompensados pela perseverança”. 

“As taxas nominais em níveis tão baixos e tão ancorados, a longo prazo, são um suporte para o investimento em ações.”

Para Inês Castro fazia todo o sentido estar overweight na classe acionista como resposta à ausência de potencial de retorno em obrigações. “As taxas nominais em níveis tão baixos e tão ancorados, a longo prazo, são um suporte para o investimento em ações. Os bancos centrais vão manter as taxas em terreno negativo por um período longo, pelo que não há razão para achar que será diferente daqui em diante”. 

“No entanto, não estamos tão positivos em todos os setores. Nesta fase de mercado preferimos os segmentos mais cíclicos, como IT ou industriais”, esclarece. Contudo, a responsável de seleção de fundos da DWM do Millennium bcp deixa uma ressalva. “Claro que, como investimos através de fundos de investimento ativos acabamos por delegar aos gestores a decisão de posicionamento. Se os escolhemos foi porque acreditamos que serão capazes de tomar boas decisões em termos de setores e stock picking”. 

Gestor de fundos multiativos na BPI GA, Luís Alvarenga enfrenta os mesmos desafios. “Muitos de nós e muitos dos nossos clientes viram-se empurrados a subir um pouco a escada do risco. É normal, não só em Portugal, como um pouco por todo o mundo. Uma das conclusões importantes que retiramos deste contexto de mercado é que as ações tornaram-se ainda mais no motor de performance dos portefólios. E é algo que deverá manter-se nos próximos anos”, afirma. 

Luis Alvarenga_BPI

“Uma das conclusões importantes que retiramos deste contexto de mercado é que as ações tornaram-se ainda mais no motor de performance dos portefólios.”

No entanto, o gestor não quer com isto dizer que outras classes de ativos não tenham o seu valor, tanto em termos de retorno potencial como em termos de capacidade para providenciar diversificação. “Mesmo em obrigações, os retornos não são gerados apenas pelo carry. Há outras formas de gerar performance”, diz. 

Em jeito de conclusão, Luís Alvarenga lança um alerta a todos os profissionais de investimento. “Outra conclusão importante da análise da atual conjuntura é que os perfis de investimento mais conservadores se tornaram, inerentemente, mais voláteis do que no passado. Isto é algo que representa um desafio quando comunicamos com os clientes. Perante portefólios mais voláteis é mais fácil cometer erros e deixar as emoções levar a melhor no momento errado. Saiu reforçado o nosso papel e responsabilidade para explicar o que têm em carteira e o que deverão esperar da mesma para evitar esses vieses comuns e os erros que frequentemente acontecem”.