A nova liderança da Alemanha será decidida nas negociações: primeiras reações das gestoras às eleições alemãs

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Créditos: Ansgar Scheffold (Unsplash)

O primeiro capítulo das eleições alemãs começou ontem, mas, tendo em conta o resultado, ainda faltam muitos meses para ver o resultado destas eleições que, pela primeira vez na história, a chanceler em exercício, neste caso Angela Merkel, não se candidatou.

Os resultados preliminares dão uma vitória quase pírrica aos sociais-democratas (SPD) de Olaf Schloz com 25,7% dos votos, seguidos dos Unionistas (CDU / CSU) de Armin Laschet com 24,1%. Números que legitimam os dois candidatos a chanceler. Quem ganhará? Tudo depende da decisão dos outros dois partidos mais votados: os Verdes, de Annalena Baerbock, e os Liberais (FDP) em negociações que parecem durar pelo menos mais algumas semanas.

A chave do governo não está nas mãos dos vencedores

"O maior desafio é para os Verdes e o FDP superarem as suas diferenças políticas em questões como o travão da dívida, aumento de impostos e gastos públicos. Embora concordem em questões de grandes empresas como digitalização e investimento verde, precisam encontrar um meio-termo sobre como o governo gasta e se financia a fim de construir um executivo", diz Stephanie Kelly, deputy head of Research Institute, da abrdn.

Tendo descartado a possibilidade de uma grande coligação, os dois resultados mais recorrentes são dois. Ou a opção do semáforo (Coligação do SPD, dos Verdes e do FDP, com Olaf Scholz como chanceler), descontada pelo mercado nas últimas semanas de acordo com Lale Akoner, estratega de mercado sénior da BNY Mellon IM; ou a chamada Jamaica (coligação CDU / CSU, Verdes e FDP, com Armin Laschet como Chanceler). Fica eliminada a opção que o mercado mais temia, a opção vermelha, vermelha, verde, que implicava um agrupamento da esquerda, incluindo Die Linke, uma vez que o partido mais esquerdista da Alemanha foi deixado de fora do parlamento por não alcançar 5% dos votos.

Tranquilidade nos mercados

Consequentemente, a reação dos mercados é completamente calma, apesar do fato de ainda não saberem quem sucederá a Chanceler Merkel, embora não se possa descartar que permaneça no cargo até o final de 2021 enquanto o seu sucessor for acordado. Assim, o Dax alemão sobe perto de 1% e valores semelhantes são observados nos restantes índices europeus. Já no mercado de obrigações, observam-se vendas moderadas que levam a rentabilidade do bund para níveis de -0,21%. "O mercado de ações, nacional e internacionalmente, tem prestado pouca atenção às eleições para o Bundestag. Isto não é surpreendente, já que os problemas são predominantemente de âmbito nacional. Portanto, é difícil esperar efeitos maiores ou mesmo duradouros internacionalmente. Especialmente, porque não podem haver uma coligação do SPD, os Verdes e Die Linke", afirma Hans-Jörg Naumer, responsável Global de Mercado de Capitais e Análise Temática da Allianz GI.

E no caso de ter algum impacto a médio prazo, ambas as possibilidades se tornariam positivas para o mercado de ações. Em concreto na BlackRock acreditram que uma coligação SPD com os Verdes poderá estimular o gasto público impulsionando as ações ligadas a ele enquanto outra pssibilidade, a coligação CDS/CDU com os mesmos atores, representará um "impulso ao investimento verde, digitalização, vias férreas... mais desregulação e privatização tudo isto positivo para as ações alemãs e para as green bonds a médio prazo".

De todas as formas, é preciso esperar para ver já que, como aponta Gergely Majoros, membro do Comitê de Investimentos da Carmignac, a coligação final pode levar meses para ser identificada. Por enquanto, há pouca visibilidade para uma política fiscal potencialmente mais frouxa na Alemanha no futuro, embora os gastos relacionados às mudanças climáticas devam fazer parte das perspetivas, de qualquer maneira".

Continuidade europeísta…

Em todo caso, os especialistas consideram que, seja quem for o novo chanceler alemão, isso não implicará grandes mudanças nas relações da Alemanha com o resto da Europa. Reto Cueni, economista-chefe da Vontobel AM, lembra: "Para um investidor global, as eleições alemãs não serão uma grande mudança por dois motivos: primeiro, é praticamente impossível para um partido da UE ou eurocéptico fazer parte de uma coligação de governo e, em segundo lugar, o partido mais forte da Alemanha é provavelmente um dos dois que já governaram o país nos últimos anos".

Mesmo assim, várias mudanças podem ocorrer no novo governo alemão, dependendo de quem ficar finalmente no poder. O economista e estratega europeu sénior da Schroders, Azad Zangana, destaca três questões-chave: política ambiental, política fiscal e relações com a Europa.

...com um parlamento muito fragmentado

Em relação a este último, é de esperar que uma certa continuidade do estilo Merkel se Laschet finalmente assumir a chancelaria enquanto "o SPD parece inclinar-se mais para a visão francesa da necessidade de uma maior expansão e integração da UE", afirma Zangana. Embora seja necessário ver que condições os Liberais e os Verdes colocam neste e em outros aspetos em troca do seu apoio. Na verdade, Gilles Moëc, economista-chefe da Axa IM, comenta que "é muito provável que não haja um novo chanceler antes que a campanha presidencial francesa esteja em pleno andamento". E avisa: "Os assuntos da UE podem permanecer estagnados até ao próximo verão."

Não surpreendentemente, de acordo com Stefan Keller, estratega sénior da Candriam, o novo parlamento alemão será muito mais fragmentado do que no passado, uma vez que aproximadamente três quartos não pertencem ao partido do Chanceler, então o papel dos menores é cada vez mais importante. “Esta situação é conhecida em outros países europeus, como Itália e Espanha, mas representa uma evolução importante para a Alemanha”, explica. No entanto, este especialista prevê que o fato de a coligação ser formada com pelo menos três partidos derivará numa política centrista e, portanto, na continuidade de uma política económico-financeira moderada. Outra coisa será ver como será feita a distribuição dos cromos ou, no caso, dos ministérios.

E, atenção, porque esta negociação pode demorar muito tempo. "Em 2017, foi preciso um recorde de 171 dias para formar governo", recorda Nadia Gharni, economia para a Europa da Pictet WM. Não obstante, esta especialista confia que nesta ocasião, haja chanceler antes do fim do ano para evitar uma nova crise política.