Nos últimos anos, a dependência de poucos países para produzir componentes críticos, o pico das tensões geopolíticas e o impacto da COVID-19 levaram os EUA e a Europa a repensar o seu modelo produtivo. A equipa da Goldman Sachs AM analisa há anos esta tendência estrutural: a transição de um mundo globalizado para outro em que as grandes economias procuram garantir a sua segurança económica através de novas cadeias de abastecimento, maior capacidade energética e um reforço da infraestrutura de defesa.
Para Sung Cho, managing director de Fundamental Equity na GS New York e co-gestor do Global Future Economic Security Equity Fund, esta transformação abre um universo de oportunidades em setores tradicionalmente subponderados nos índices globais, mas que podem tornar-se motores de crescimento nos próximos anos.
Renascimento industrial: o novo ciclo de investimento
Uma das transformações mais visíveis é o ressurgimento industrial nos EUA, Europa e Japão. A construção de novas fábricas acelerou nos últimos três anos, impulsionada por políticas públicas e pela decisão de muitas empresas de aproximar a produção dos seus mercados de consumo. Este movimento está a ter impacto direto em setores como o dos semicondutores, onde a necessidade de reforçar a capacidade doméstica se tornou uma prioridade geoestratégica.
Cho explica que “cada país quer ter a sua própria capacidade de semicondutores”, uma tendência que está a gerar forte procura de maquinaria especializada. Empresas como ASML, KLA ou Lam Research estão entre as principais beneficiadas, segundo Cho, pois fabricam o equipamento necessário para ativar novas linhas de produção. Neste mesmo processo, o conteúdo elétrico das fábricas modernas está a aumentar rapidamente devido à automação, ao armazenamento estratégico e às exigências dos centros de dados.
Para a equipa da Goldman Sachs AM, este novo ciclo de capex industrial não é um fenómeno de curto prazo, mas uma tendência que pode prolongar-se durante muitos anos. “As economias desenvolvidas procuram reduzir a sua vulnerabilidade a disrupções externas, e isso implica reconstruir capacidade produtiva que se foi perdendo desde o início dos anos 2000”, afirma o co-gestor.
Energia e recursos críticos: um pilar estratégico do crescimento futuro
O acesso a energia estável e competitiva é outro dos grandes eixos do Global Future Economic Security Equity Fund. A procura de gás natural nos EUA está a aumentar, impulsionada pela reindustrialização, pela expansão das exportações de LNG e pelo forte crescimento do consumo elétrico associado à inteligência artificial e aos centros de dados. Como explica Cho, “a procura está a encontrar novos usos devido ao reshoring e à IA. É o motivo pelo qual os preços do gás nos EUA estão a subir”.
O fundo mantém posições destacadas em produtores de gás como Expand Energy e em operadores de infraestrutura como DT Midstream ou Tara Resources, que desempenham um papel essencial no transporte e distribuição deste recurso. Ao mesmo tempo, a energia nuclear está a recuperar interesse. Após duas décadas de estagnação, tanto os EUA como o Japão começaram a reativar instalações existentes, uma mudança que, segundo Cho, beneficia empresas como a Mirion Technologies, especializada em serviços de segurança e instrumentação para reatores.
A isto soma-se o peso crescente dos minerais estratégicos. As terras raras, o cobre ou o lítio tornaram-se ativos geopolíticos essenciais, já que são necessários para a transição energética, tecnologia, defesa e grande parte da eletrónica avançada. “A China domina grande parte destes recursos e os EUA querem reduzir essa dependência”, aponta Cho.
Defesa e segurança: tecnologia, drones e equipamento crítico
A segurança nacional é o terceiro grande eixo que o fundo identifica como motor de crescimento estrutural. Embora o aumento dos orçamentos de defesa na Europa e nos EUA seja um fator relevante, Cho insiste que as oportunidades vão além do gasto militar tradicional. Uma das áreas com maior potencial é a tecnologia de drones, onde o fundo investe em empresas como a Kratos Defense & Security, que desenvolve sistemas autónomos utilizados tanto em defesa como em segurança.
Cho explica que a defesa moderna já não assenta exclusivamente em equipamento tradicional, mas em tecnologias que permitem operar de forma mais eficiente, mais segura e com maior capacidade de antecipação. “Focamo-nos em áreas que serão essenciais independentemente de quem ganhe os contratos de fabrico”, assinala. Esta visão permite à equipa identificar setores que beneficiarão de forma mais estável deste processo, mesmo com mudanças políticas ou ciclos orçamentais.
A segurança nacional, neste sentido, interliga-se com os outros dois eixos: “sem cadeias de fornecimento seguras e sem energia estável, também não é possível construir capacidades defensivas credíveis”, destaca Cho. Isto torna os três blocos partes inseparáveis do mesmo fenómeno estrutural.

