A sensibilidade do indivíduo face a ganhos ou perdas nos mercados financeiros

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Aaron Burden, Unsplash

“Para compreender as decisões dos indivíduos nos mercados financeiros é fundamental perceber como se comportam em cenários de incerteza”, é a premissa de um estudo divulgado pela CMVM que testou e validou a relação entre diversas variáveis e a aversão ao risco e à perda.

Para compreender as decisões dos indivíduos nos mercados financeiros é fundamental perceber como se comportam em cenários de incerteza“, é a premissa de um estudo executado por Diogo Ribeiro, Mara Madaleno, Anabela Botelho, do Departamento de Economia da Universidade de Aveiro e Júlio Lobão da School of Economics and Management, da Universidade do Porto, divulgado pela CMVM no Caderno Do Mercado de Valores Mobiliários Nº 65

Neste estudo, os autores desenvolveram uma medida de tolerância ao risco e à perda. “A partir de uma análise fatorial exploratória e do método de equações estruturais avaliamos a relação entre um conjunto de variáveis que captam a sensibilidade do indivíduo, face à possibilidade de ganhos ou de perdas nos mercados financeiros gerando duas variáveis latentes”, grau de aversão ao risco e grau de aversão à perda.

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“Através da metodologia proposta foi possível extrair duas variáveis que serão sensíveis ao comportamento dos indivíduos, possibilitando a criação de uma proxy para medir o comportamento dos indivíduos em cenários de ganhos ou perdas. Desde o trabalho de Kahneman e Tversky (1979), em que os autores verificaram que o comportamento dos agentes se altera de acordo com a possibilidade de ganhos ou perdas, muitos trabalhos têm sido desenvolvidos corroborando e validando a Teoria da Perspetiva (TP). Abdellaoui, Bleichrodt e L’Haridon (2008), List (2004), Dimmock e Kouwenber (2010) e Campos-Vazquez e Cuilty (2014) concluíram que os indivíduos comportam-se de acordo com a TP em diversos cenários”, indicam no estudo.

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No estudo constatou-se que existem algumas diferenças na forma como os indivíduos atuam em cenários de ganhos ou perdas, nomeadamente:

1. “Os homens estão mais dispostos a arriscar e a incorrer em perdas do que as mulheres”

2. “À medida que a idade dos indivíduos aumenta, os indivíduos estão menos dispostos a arriscar e a incorrer em perdas”.

3. “A variável emprego explica de forma significativa o grau de aversão ao risco, mas é não significativa no modelo de aversão à perda, evidenciando que a aversão ao risco é sensível à tipologia/precaridade de emprego, enquanto a aversão à perda não mostra ser influenciada por este fator”.

4. “Relativamente à variável escolaridade, esta também apresenta diferenças nos dois modelos de estimação, sendo que influencia significativamente o grau de tolerância à perda, mas não de forma significativa o grau de tolerância ao risco. Esta conclusão mostra que a tolerância à perda é sensível à escolaridade.” 

5. “A variável rendimento tem um comportamento diferente de acordo com o grau de aversão ao risco e o grau de aversão à perda.” 

6. “Destacamos ainda que encontramos diferenças significativas entre investidores e não investidores, revelando que os investidores são mais tolerantes a incorrer em riscos e perdas do que os não investidores”.

“Em suma, as nossas medidas de aversão ao risco e à perda são robustas, sendo que a estrutura proposta foi validada pelos dois modelos. Os resultados parecem ainda indicar que as variáveis género, idade, escolaridade, condição laboral e rendimento têm o feito esperado, corroborando os resultados já apresentados em estudos anteriores e validando as 10 hipóteses levantadas”, concluem. 

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Os autores do estudo alertam que dado “que as duas medidas inferidas neste trabalho são sensíveis a cenários financeiros (adequados para a análise de decisões contextualizadas com os mercados financeiros)”, e sugerem “a aplicação deste método em trabalhos futuros analisando o impacto dessas medidas nas diversas decisões financeiras relacionadas com os mercados financeiros (por exemplo, estudar como a aversão ao risco e a aversão à perda afetam a construção de uma carteira; avaliar o impacto das medidas de aversão ao risco e aversão à perda nos resultados dos mercados financeiros; possibilidades estas já em curso). Contudo, salientamos que a generalização dos resultados deve ser cuidadosa, sendo que as medidas podem não ser adequadas para alguns tipos de decisões financeiras. Além disso, na interpretação de resultados deve ter-se em atenção que estas conclusões foram inferidas com base numa amostra da população portuguesa, que na sua maioria eram investidores, não se podendo generalizar à totalidade da população”.