Algumas luzes sobre o mercado de matérias primas e fornecimento de petróleo e gás

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Créditos: Martin Adams (Unsplash)

Os mercados mundiais não estavam a descontar um cenário de guerra e agora os preços estão a ajustar-se perante o que significa um conflito armado desta magnitude na Europa. Tudo aponta que a situação tardará a estabilizar-se e que, portanto, a volatilidade persistirá. Por agora, o mercado está a recalibrar o impacto do choque geopolítico e a assumir os efeitos das decisões políticas que se vão adotando, tanto por parte da Rússia como do Ocidente. Na mira está o que vai acontecer com o fornecimento do petróleo e gás, um assunto de vital importância.

Por agora, a decisão do Kremlin de invadir a Ucrânia fez com que os preços das matérias primas alcançassem novos máximos. Já no período prévio à crise, as commodities estavam a descontar um prémio de risco geopolítico que mais não fez do que aumentar com o estalar da guerra. O índice Bloomberg Commodity (BCOM) subiu cerca de 20% desde o início do ano. O petróleo WTI revalorizou-se esta quinta-feira cerca de 8%, enquanto que o Brent negoceia acima dos 100 dólares, o nível mais elevado desde 2014.

A escassez de gás na Europa agravou-se porque a Alemanha já tinha bloqueado na segunda-feira a abertura do Nordstream 2, o que torna provável mais problemas de fornecimento de gás. Como resultado, o gás comercializado nos Países Baixos subiu cerca de 50% desde segunda-feira. "A guerra aumentou consideravelmente os riscos de interrupção do fornecimento de petróleo e gás, mas importa ter em conta que a Rússia cumprirá os seus contratos de fornecimento de energia a longo prazo, como fez no passado", aponta Michel Salden.

Os stocks na Europa, em níveis abaixo da média

No entanto, o responsável de Commodities na Vontobel AM vê como pouco provável que o país envie gás adicional para repor os stocks europeus no verão, que agora estão cerca de 20% abaixo das suas médias de cinco anos. "Isto poderá ser um problema importante no próximo inverno", avisa. Coincide neste ponto com Benjamin Melman, diretor global de investimentos na Edmond Rothschild AM, para quem a dificuldade será reconstruir os stocks para o próximo inverno. "A Europa depende da Rússia e as entregas já se tinham reduzido em 2020".

Tal como explica, o passo para o gás liquefeito apenas poderá ser limitado, já que não há suficientes terminais de liquefação e regaseificação, o que deixa a oferta desajustada à procura. "Haverá que procurar outras fontes de energia e isso traz outro problema, sobretudo se se tratar de carvão. Também haveria que pensar em medidas de poupança energética", assinala.

Outro ingrediente para adicionar à equação é que a sanção muito discutida de excluir a Rússia do sistema de pagamento SWIFT será complicada. “Se a Rússia não puder receber pagamentos pelas suas entregas de petróleo e gás, restringirá ou até cortará o fornecimento. Para aliviar a situação, a Europa e os Estados Unidos poderão recorrer a um acordo imediato sobre um novo pacto de petróleo com o Irão. Embora tal acordo contribua para trazer novos barris de petróleo para o mercado - até um milhão por dia em seis meses -, criaria novos riscos geopolíticos no Médio Oriente”, destaca Salden.

Mercado de cereais

No entanto, a crise tem repercussões além da oferta de energia, já que os stocks das principais matérias-primas caíram para os níveis mais baixos em 20 anos. A Ucrânia é responsável por 12% e 16% das exportações mundiais de trigo e milho, respetivamente, e ainda não se sabe até que ponto os portos e a infraestrutura de transporte da Ucrânia serão prejudicados pelo conflito militar. Além disso, a Ucrânia e a Rússia são dois dos maiores exportadores de fertilizantes, o que apresenta riscos em torno da segurança alimentar global.

“Enquanto isso acontece, todos os grãos nos Estados Unidos começaram a ser comercializados com acentuadas subidas, o que causou mudanças significativas no comércio. O trigo francês subiu 17% ontem. As perspetivas nos mercados de metais, marcados pelo domínio russo, são semelhantes: o alumínio subiu 4%, o níquel 5% e o paládio 7%”, destaca o responsável de Commodities da Vontobel AM. Resta saber como este aumento dramático dos preços afeta a inflação e, por extensão, as políticas monetárias aplicadas pelos diferentes bancos centrais.

“As suas agendas podem mudar se os efeitos sobre as perspetivas de crescimento aumentarem”, indica Pascal Blanqué. O ex-diretor de Investimentos da Amundi e agora chefe do Instituto Amundi lembra que a guerra adiciona incerteza ao cenário global num momento em que os bancos centrais agiam para combater as pressões inflacionárias num ambiente quente. “O risco de estagflação global agora é maior. O fator inflação é reforçado enquanto o fator crescimento enfraquece”, afirma. O ambiente atual é certamente complexo, intrincado e a visibilidade é muito baixa.