As três razões a favor das small caps

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Créditos: Harry Shelton (Unsplash)

Todos os dias surgem fatores que aumentam a volatilidade dos mercados. A incerteza em torno dos bancos centrais, a geopolítica e as mudanças no ciclo económico condicionam o sentimento dos investidores. Neste ambiente, os investidores devem privilegiar a qualidade e, sobretudo, valorizações atrativas, fluxos em mínimos e o apoio de catalisadores macroeconómicos — três elementos que voltam a colocar as small caps no radar.

Com o BCE a manter as taxas de juro e com o corte da Fed, o receio do mercado face a um contexto de custos de financiamento elevados ficou para trás, criando um cenário fértil para os valores de pequena capitalização. Ainda assim, os especialistas são unânimes em sublinhar que a seleção será decisiva: identificar empresas com fundamentais sólidos, beneficiárias de tendências estruturais ou com catalisadores corporativos claros fará a diferença entre capturar alfa ou assumir riscos desnecessários.

Valorizações em níveis historicamente baixos

O primeiro argumento a favor das small caps são as suas valorizações. A Westfield Capital Management sublinha, nas suas últimas perspetivas, que este segmento está barato face à história, barato face às grandes empresas e barato face às obrigações. “O spread atual com as grandes capitalizações encontra-se em mínimos de vários anos, até abaixo dos níveis de 2020.”

Na Europa, Tzoulianna Leventi, investment manager na Aberdeen Investments, destaca que muitas pequenas empresas italianas estão a negociar apenas a onze vezes os lucros. Para Leventi, esta diferença abre uma janela de oportunidade, sobretudo após vários anos em que estas empresas ofereceram uma das melhores rentabilidades do mundo. “Batti il ferro finché è caldo” — é preciso bater o ferro enquanto está quente, refere a gestora.

A visão coincide com a da Azvalor Asset Management, que na sua carta semestral recorda que as pequenas empresas de valor (MSCI ACWI Small Value) estão a negociar a 13,9 vezes lucros, menos de metade das grandes empresas de crescimento. Além disso, a gestora salienta que as small caps britânicas estão a negociar com múltiplos claramente inferiores aos históricos e com um desconto recorde face a outros índices. No fundo Azvalor Managers, os gestores mantêm 73% de exposição a empresas de pequena e média capitalização que negoceiam a apenas dez vezes lucros, o que implica um desconto de 50% face ao mercado global.

Fluxos e posicionamento ainda deprimidos

O segundo elemento é o comportamento dos fluxos. Apesar do seu atrativo, os fundos de small caps registaram saídas massivas este ano, com alocações em mínimos históricos e um posicionamento muito curto em futuros. A Westfield alerta que esta combinação poderá gerar um efeito alavanca em caso de inversão no sentimento, forçando os investidores a cobrir posições curtas e amplificando as subidas.

Catalisadores e riscos imediatos

O terceiro eixo combina catalisadores e riscos. Um novo ciclo de cortes de taxas da Reserva Federal aliviaria o custo de financiamento das small caps, enquanto uma reaceleração global beneficiaria os setores cíclicos, onde estas empresas têm maior peso. A nível técnico, os índices de pequena capitalização mostram uma tendência ascendente desde abril e aproximam-se de resistências-chave, o que poderá confirmar uma mudança de ciclo se forem rompidas em alta.

No entanto, os riscos não desaparecem. A Westfield adverte que uma recessão profunda nos Estados Unidos seria um obstáculo para os retornos absolutos. Embora uma recessão breve acompanhada de estímulos pudesse ser positiva, um cenário mais severo pressionará todo o mercado. Neste contexto, as small caps podem comportar-se melhor em termos relativos, sobretudo face às grandes tecnológicas, onde as valorizações se encontram mais exigentes.

Leventi também recorda que a consolidação bancária em Itália e o envelhecimento da população são fatores estruturais que acrescentarão volatilidade ao segmento. Por sua vez, del Valle enfatiza que em Espanha o ponto-chave continuará a ser o volume transacionado, já que permite distinguir entre movimentos sustentáveis e simples picos especulativos. A Azvalor, por seu lado, insiste que as oportunidades nas small caps residem no que está “esquecido” pelo mercado, sempre com uma seleção cuidadosa de empresas com fundamentais sólidos e equipas de gestão alinhadas com os acionistas.