Ativos para proteger as carteiras da inflação

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Créditos: Siyan Ren (Unsplash)

Algo nos quererão dizer os movimentos nas obrigações e nas matérias-primas. Se há um consenso claro para este ano é que os preços vão subir. O mercado parece posicionar-se para isso se analisarmos a rotação para ativos cíclicos na primeira metade. Veremos no fim um regresso da inflação? Se sim, como protegemos as carteiras do chamado reflation trade? É isto que propõem as gestoras internacionais.

“Há uma grande probabilidade de vermos uma inflação mais elevada”, começa por explicar Adam Skerry, responsável de Inflação na Aberdeen Standard Investments. Para o profissional, é sobejamente conhecido que as impressões da inflação para o restante de 2021 serão voláteis e que vão seguir predominantemente uma trajetória ascendente nos mercados desenvolvidos, devido às comparações anuais com as raízes da crise da COVID-19. “No médio e longo prazo, a combinação de fatores como uma política monetária muito flexibilizada, uma política fiscal expansionista, uma procura reprimida por serviços e investimentos, altas taxas de poupança e a reabertura de economias sugerem que a inflação pode ser persistentemente mais alta do que nos acostumámos na Grande Moderação dos últimos quarenta anos”. Adam Skerry, acrescenta ainda que “os investidores podem querer proteger-se através da alocação a obrigações que tenham proteção explícita contra a inflação, como obrigações indexadas à inflação dentro do fixed income. Da mesma forma, os investidores podem desejar adicionar exposição a empresas que têm cash flows que podem ser aumentados com a inflação, superando assim a erosão da receita real que pode ocorrer de outra forma.”


Miguel Luzarraga Alliance Bernstein

Miguel Luzarraga, responsável de negócio da AllianceBernstein para Portugal e Espanha, comenta que “a curto prazo os preços vão subir porque provavelmente a procura será elevada – os consumidores americanos obtiveram ajuda financeira e a recuperação do mercado laboral também deverá dar um impulso aos ganhos -, mas do lado da oferta da economia enfrentará limitações de capacidade à medida que progrida a reabertura”. Para o profissional AllianceBernstein, isto irá dar lugar a uma subida de preços durante mais algum tempo, mas isto não é o mesmo do que a inflação, que consiste num progresso sustentado. “Os investidores devem verificar a alocação a determinadas classes de ativos para detetar a sensibilidade da inflação. Por exemplo, as ações value funcionam melhor quando as taxas de juro sobem. Fazer ajustes prudentes na alocação de ativos pode ajudar a posicionar as carteiras para um contexto em mudança, mas não há que ter medo de que as ações estejam vulneráveis com taxas de inflação moderadas”, refere.


“O consenso de mercado é que a inflação em 2021 é provável que dispare devido à forte recuperação, principalmente nos EUA, e devido ao aumento do preço do petróleo”, assim o considera Stefan Hofrichter, economista-chefe da Allianz Global Investors. Para o especialista, esta subida, no entanto, é considerada de natureza transitória. “Estou menos certo sobre as perspetivas de consenso no longo prazo, e penso que o risco de que a inflação surpreenda estruturalmente pelo upside subiu. Espero então que os investidores crescentemente considerem no preço o risco de inflação mais elevada no médio- longo prazo do que até então era antecipado”. Em termos de impactos nos mercados, Stefan Hofrichter refere que “historicamente a inflação passou a pesar nos preços das ações a partir de taxas de inflação acima de 4%. Desta vez, com os investidores a mostrar extremo otimismo e a contar com o apoio contínuo da política monetária e fiscal, a inflação pode começar a causar valuations mais elevadas já em níveis muito mais baixos”.

“Jogando pelo seguro, recomendamos olharem para ações value, que estão subvalorizadas de forma massiva. Esta opção também inclui adotar posições longas em ações europeias e asiáticas, com um horizonte de investimento de longo prazo. Como não esperamos que a inflação volte aos níveis de 1970 e fique abaixo de 4%, as ações ainda são um investimento melhor do que as obrigações e provavelmente vão gerar retornos positivos. Dentro do rendimento fixo, os inflation linkers ainda são uma boa ideia, inclusive numa curva mais inclinada. O ouro, por sua vez, funciona enquanto as taxas reais caírem. Mais recentemente, as yields reais aumentaram. Consequentemente, neutralizámos a nossa posição longa em ouro. Por outras palavras: o ouro é uma aposta em taxas baixas, não em inflação alta”, conclui o profissional da Allianz GI.


inflação

Para Raúl Fernández, diretor de Distribuição da Amundi Iberia, a exposição à inflação parece uma opção interessante. Sobretudo em comparação com outras classes de ativos que já descontaram os pacotes de apoio e recuperação. Como bem ressalta, o aumento da inflação desafia a diversificação tradicional, já que as correlações entre as ações e as obrigações se tornam positivas. “Os investidores deverão considerar aumentar as suas alocações a ativos como as obrigações ligadas à inflação, ativos reais (imobiliário e infraestruturas) e matérias-primas”, propõe. Por outro lado, a gestora tem uma estratégia (CPR Focus Inflation) que aborda a inflação como classe de ativos em si mesma. É uma exposição pura à inflação (unicamente à inflação implícita) de gestão ativa. Isto significa que os investidores podem aproveitar -ou proteger-se- de um aumento da inflação e evitar a exposição às taxas de juro reais.


Na opinião de Jaime Albella, diretor de vendas da AXA IM, a melhor forma de investir em inflação é investir em obrigações ligadas à inflação de duração curta. “Têm uma exposição mais direta à mesma já que ao ser de duração curta não é penalizada pela subida de taxas”, explica. Quando investimos em obrigações de inflação de duração curta estamos a investir em inflação realizada. Isto vai-se refletir no preço das obrigações em função de como for a publicação mensal.

Além disso, têm propriedades muito interessantes. O cupão é flutuante ao estar indexado à inflação. E a correlação com as obrigações nominais é praticamente negativa (tem propriedades de diversificação muito altas). As obrigações ligadas à inflação têm um comportamento positivo em torno de subidas de taxas moderadas (a subida da inflação compensa a subida de taxas). “Parece-nos uma alternativa muito interessante para a parte defensiva das carteiras. São das poucas obrigações governamentais com bom rating e duração curta que têm yield positiva”, afirma.


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Estímulos monetários, reativação económica e aumento de custos de produção. O cocktail convida a pensar que, após um período de inflação baixa, esta possa aumentar sem que os bancos centrais atuem no curto-médio prazo enquanto não se superar de forma consistente esse nível. Com este cenário central, na BlackRock melhoraram a sua aposta em ativos de risco no geral e em setores cíclicos em particular. Segundo explica Manuel Gutiérrez-Mellado, responsável de negócio institucional da BlackRock em Portugal, Espanha e Andorra, como veem que a economia, de maneira general, está a recuperar melhor do que o que se podia antecipar há doze meses, isto favorece os ativos de risco, e em especial as ações.

Além disso, reduziram a recomendação sobre as obrigações soberanas a subponderar. “Porque perante este cenário já não têm o papel protagonista que tiveram no passado. Perderam parte do seu poder diversificador pela sua baixa rentabilidade a vencimento”, explica Gutiérrez-Mellado. Têm uma visão mais positiva sobre as obrigações ligadas à inflação no contexto atual de mercado.


Pataki_Aron

No contexto atual e contando com expectativas de inflação ascendentes, a proposta de Aron Pataki será apostas nas ações com viés para as empresas energéticas ou entidades do setor das matérias-primas ou indústria. No fundo que gere, o BNY Mellon Global Real Return (Eur), e segundo conta, “temos a sorte de contar com duas capas: uma focada em obter rentabilidade e outra de estabilização. A primeira parte tem a ver com ativos alternativos. Neste caso o gestor da BNY Mellon IM gosta de energias renováveis e infraestruturas. No se refere à capa estabilizadora, está mais inclinado para ajustar a duração com posições curtas em futuros sobre obrigações do tesouro americano e manterá obrigações ligadas à inflação. O ouro também é um ativo que contribui para manter a estabilidade.


Didier Saint-Georges

“A inflação é um animal estranho que tem vindo a derrotar as previsões dos economistas e os esforços dos bancos centrais há 20 anos. Hoje em dia o consenso concorda que a inflação irá por fim alcançar, ou mesmo exceder, os 2% de target que tem sido tão evasivo desde 2008”, começa por explicar Didier Saint-Georges, membro do Comité Estratégico de Investimento da Carmignac. De facto, para o profissional, “o efeito base irá ajudar depois do colapso da inflação no ano passado, e a reabertura das economias irá impulsionar a procura, enquanto as cadeias de fornecimento permanecem interrompidas e os preços das commodities recuperam. Nos EUA os preços das rendas vão fortemente recuperar, bem como os salários.”

“Mas poderá isto durar e tornar-se global? As forças deflacionárias da demografia e a tecnologia são ainda poderosos. Em vez de se apostar num resultado incerto, uma estratégia mais segura deve ser considerada: comprar ações de empresas com crescimentos de lucros e poder de fixação de preço, que possibilitem passar aumentos nos preços aos seus clientes. Onde encontrá-las? Possivelmente na tecnologia e nos setores de bens de luxo”, comenta o especialista da Carmignac.


Mariano-Arenillas-DWS_notícia

Mariano Arenillas, responsável da DWS para Portugal e Espanha, propõe olhar para empresas cotadas que se encarreguem de desenvolver e explorar infraestruturas durante longos períodos de tempo. “Podem ser uma boa opção para poder aproveitar o potencial de subida da inflação a longo prazo e proteger-nos assim parcialmente dos efeitos negativos que possam sofrer outras partes da carteira”, refere. Os contratos que assinam estas empresas nas concessões que ganham para desenvolver infraestruturas normalmente contêm cláusulas de revisão de preços ligadas à evolução das infraestruturas”, explica. Assim, as suas receitas não deverão ser afetadas pela subida dos preços já que vão evoluir a par. “Por outro lado, a previsibilidade futura das receitas destas concessionárias faz com que sejam ações com menor risco de volatilidade face à média do mercado”, acrescenta.


Tim Foster, gestor de fundos de obrigações da Fidelity International, coincide em que uma boa forma de proteger as carteiras das expectativas de reflação é alocar uma parte a obrigações vinculadas à inflação. Mas o gestor acrescenta uma nuance: isto acontecerá só no segmento do vencimento de 1 a 10 anos. O motivo é que este arco temporal, além de ajudar a isolar o risco da inflação, reduz também o de duration em relação aos índices de vencimento mais longo. E, ao mesmo tempo, não é demasiado curto. “Se olharmos para o universo de 1 a 5 anos, além de ser mais pequeno, os seus rendimentos podem ver-se impulsionados por movimentos voláteis indesejados do preço do petróleo, por exemplo. Por isso, não só é preciso usar as obrigações ligadas à inflação, também é importante usar o segmento apropriado.


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E face às propostas em obrigações e ações, Laure Peyranne, diretora de ETF da Invesco para a Península Ibérica, América Latina e US Offshore, fala-nos do ouro. Historicamente, o ouro funcionou como ativo refúgio contra a perda de valor derivada da inflação. “Basta dizer que há 2000 anos, um centurião romano cobrava por ano 38,6 onças de ouro… que valem hoje 50.000 euros. Pouco mais do que recebe um militar de patente equivalente hoje em dia. Provavelmente não há um só ativo no mundo com essa capacidade de preservar o seu valor”, conta.

Também é especialmente relevante o seu comportamento durante períodos de inflação esperada. Quando se espera um aumento dos preços num futuro próximo: o ouro comportou-se historicamente bem em nove dos 10 períodos desde 1985 nos quais os investidores previam uma maior aceleração da inflação. O Invesco Physical Gold ETC permite investir em ouro em dólares ou euros, de uma forma fácil, transparente, segura e só por 0,15% anual.


“Em suma, invista em empresas que vendam coisas que é provável que as famílias e os governos comprem”, sentencia Mike Bell, estratega de mercados globais na J.P. Morgan AM. Como muitos, coincide que a longo prazo, as ações foram uma boa proteção contra a inflação. E mostra-nos com números. Desde 1963, o cesto para cálculo da inflação do IPC dos EUA aumentou aproximadamente 750%. Ao mesmo tempo, o S&P 500 subiu 5000%.

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Está consciente de que eventualmente um reaquecimento da economia poderá levar os bancos centrais a subir as taxas de juro até ao ponto de provocar uma recessão. Mas considera provável que esse ponto esteja a vários anos de distância. “Até que provoquem uma recessão, o aumento das yields das obrigações e as taxas de juro tenderão a coincidir com o aumento dos mercados de valores”, afirma. As finanças, em particular, beneficiam das taxas mais altas. Os produtores de matérias-primas também beneficiam claramente dos preços mais altos. Uma característica comum dos períodos de aumento da inflação. “Estes setores também são mais baratos do que o mercado”, realça. “Quem investe em empresas com balanços sólidos e valorizações razoáveis, que vão beneficiar do gasto das famílias e governos, não deverão ter medo da inflação”, resume.


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Guy Barnard, CFA codiretor da equipa de ações imobiliárias da Janus Henderson, destaca que os ativos imobiliários e as empresas imobiliárias cotadas (REIT ou SOCIMI) brindam uma cobertura adequada face à inflação. As rentabilidades dos REIT não só evoluíram a par da inflação durante muitas décadas, mas aumentaram mais rápido que este parâmetro. Até durante a crise do petróleo do início da década de 1970 e 1980.

“Devemos considerar as empresas imobiliárias cotadas como os arrendadores da economia mundial”, explica. Em geral, conforme o crescimento económico (e a inflação) aumenta, observamos uma maior procura de ativos imobiliários. Isto traduz-se num aumento do preço dos alugueres e do preço dos ativos (dado que não se pode criar mais terreno). É uma cobertura natural e contínua para as receitas num contexto de aumento da inflação e compensa largamente qualquer aumento associado aos custos por juros.


Ariel Bezalel Jupiter

Para Ariel Bezalel, gestor e responsável de estratégias de obrigações da Jupiter AM, vamos ver um regresso da inflação efetiva durante 2021, contudo, muito será causado pelos efeitos base, dados os baixos níveis de inflação vistos durante 2020. “As questões mais importantes, contudo, serão se iremos ver um permanente aumento nas pressões de inflação globais core e também quanto do aumento da inflação já foi descontado pelo mercado”, explica. Na Jupiter não consideram que se irá ver um permanente aumento das pressões inflacionistas, visto que muitas das pressões de queda no longo prazo que emanam da demografia, da dívida e da tecnologia disruptiva se mantêm. “Se algo mudou na força das pressões, foi ser ainda mais acelerado”, refere o profissional. Também a economia irá emergir da crise com uma capacidade de poupança significativa, particularmente no mercado de trabalho.

“Contudo, os mercados já descontaram uma subida expressiva da inflação, com os breakvens a 10 anos (uma medida de inflação média para os próximos 10 anos) a moverem-se dos valores mais elevados de início de 2013. Por isso, acreditamos que os mercados estão a descontar demasido a probabilidade de um significativo aumento da inflação. No entanto, se realmente queremos proteger-nos de outro movimento de subida nos preços da inflação o fundo pode comprar breakevens, como referido acima, reduzir a exposição a duração, procurar setores da economia que beneficiem de uma permanente subida da inflação e também ter ativos reais que segurarão o seu valor à medida que os preços sobem”, conta Ariel Bezalel.


Sebastien Galy

No cenário de uma reativação do comércio, o foco principal para Sebastien Galy, responsável de estratégia macroeconómica da Nordea AM, estará nas ações dos mercados emergentes da Ásia Pacífico. “Espera-se que a China, a Coreia do Sul, o Taiwan e eventualmente a Índia experimentem um ritmo de crescimento muito decente”, aponta. Isto deverá ser suportado pela procura nos seus mercados de exportação nos Estados Unidos e na Europa. Do ponto de vista do PE futuro, as valorizações parecem baratas face aos mercados desenvolvidos, ainda que em comparação com o passado.

“Esperamos que o impulso das receitas recupere dando um novo impulso à região. Inclinamo-nos para a qualidade e o valor com um foco nos cuidados de saúde e numa classe média crescente”, explica. Para Galy, as moedas destes países estão expostas a um pronunciamento da curva do Tesouro americano, mas muito menos para a Índia e a China, enquanto as expectativas de uma recuperação cíclica contrastem com este efeito. “De facto, o dólar de Taiwan teve um rendimento superior”, afirma.


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Uma inflação moderada costuma ser boa para as ações. Porque costuma estar associada a um crescimento económico positivo, a um aumento dos lucros e a uma subida das cotações, explica Leonardo Fernández, diretor do canal intermediário da Schroders. Não obstante, se a economia sobreaquecer e a inflação sobe demasiado este efeito pode ser negativo. Estudos da Schroders mostram que as ações superaram a inflação em 90% dos casos em que esta estava baixa (menos de 3% em média) e a aumentar. “Que é onde nos encontramos atualmente”, acrescenta.

Por isso, vê no Schroder ISF Global Cities Real State uma opção atrativa. Um dos setores que mostra melhores dados é o imobiliário, opina. 67% das vezes obtém uma rentabilidade melhor e com uma rentabilidade média acima da inflação de 4,7%. “É intuitivo já que em geral as rentabilidades estão ligadas à inflação, por isso, o aumento passa para os contratos de arrendamento, assim como os preços dos imóveis”, explica.