BCE tenta acalmar os falcões: as reações das gestoras internacionais

BCE, BCE tenta acalmar os falcões: as reações das gestoras internacionais
Créditos: Sanziana Perju / ECB

Na última reunião do Banco Central Europeu, Christine Lagarde reconheceu que tinha debatido extensamente uma questão central: inflação, inflação e inflação.  E a presidente da entidade monetária tem sido clara na sua posição.  Para o BCE, os atuais níveis de inflação são transitórios.  Um efeito passageiro dos preços da energia, constrangimentos causados pela pandemia e por uma procura dos consumidores que superou a oferta. Os preços vão subir a curto prazo, vai durar mais tempo do que inicialmente pensavam, mas a inflação vai cair no próximo ano.  

Mas o seu discurso choca de frente com as expetativas dos mercados, que continuam a apostar que o BCE terá inevitavelmente de ser mais agressivo. A leitura dada pelo mercado de obrigações é que o tapering chegará em breve à Europa e será rápido. E até uma subida das taxas do BCE em 2022 começa a ser descontada.  Nada poderia estar mais longe do que Lagarde defende. O BCE não prevê uma subida num horizonte de três anos.

Lagarde vs os mercados

O que é claro é que este gap entre a orientação do BCE e as expetativas do mercado terá de ser fechado. Peter Allen Goves, analista de obrigações da MFS IM, vê que é improvável que dure para sempre. “Ou o BCE sobe em linha com as expetativas do mercado ou não”, prevê. E Nicolas Forest, o responsável global de obrigações da Candriam, concorda. Forest não duvida de que o BCE irá rever em alta as suas previsões de inflação em dezembro. Mas também acredita que o mercado continuará a testar o banco central sobre a sustentabilidade das pressões inflacionistas nas próximas semanas.  "Como resultado, as taxas a curto prazo vão aumentar significativamente após a reunião, reforçando a inconsistência. Uma inconsistência que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser resolvida”, comenta.

Vamos ver quem ganha a luta. Sebastien Galy, responsável de estratégia macroeconómica da Nordea AM, é claro sobre quem está a perder: o BCE. “A decisão de combater as expetativas prematuras de aumentos de taxas é difícil para o mercado e para as famílias entenderem”, insiste. Nunca seria uma conferência de imprensa fácil para Largarde, reconhece Helen Anthony, gestora de carteiras de obrigações da Janus Henderson. Os dados da inflação não ajudam. Uma subida histórica de 5,5%.  “Esta é uma posição difícil para o BCE, que depende da credibilidade duramente conquistada para o que é essencialmente uma aposta de que esta inflação é em grande parte transitória”, acrescenta Galy. E lembremo-nos que já tiveram de ceder e reconhecer que esta transição dura mais tempo do que esperavam. É por isso que Galy não exclui que esta se torne uma questão política em toda a zona euro. O BCE tem mesmo de apertar a política monetária, mesmo que pense que faz pouco sentido a longo prazo.  

O mercado continua à espera de um BCE mais hawkish

Com o discurso de hoje, o BCE mantém-se como um dos bancos centrais mais acomodatícios. Mas acaba por não convencer o mercado. “O mercado continua nervoso relativamente ao risco de inflação a curto prazo, mas a sua mensagem de steady as she goes foi clara”, reconhece Charles Diebel, diretor de obrigações da Mediolanum International Funds. E Pietro Baffico, economista da abrdn, coincide: “O risco de pressão inflacionista está a erodir a confiança dos investidores, que agora esperam ansiosos pela reunião de dezembro, na qual também se reavaliará o futuro dos programas de QE”.

Como aponta Konstantin Veit, gestor de carteiras da PIMCO, os preços de mercado, perante o primeiro aumento da taxas, não mudaram substancialmente após a reunião. “Isto provavelmente indica que os mercados questionam a determinação do BCE e o seu compromisso com a nova estratégia de política monetária, dado o longo histórico de não cumprimento do objetivo anterior de estabilidade de preços”, interpreta.

É que o BCE não joga com as cartas a seu favor. Primeiro, porque assinala Morgane Delledonne, da Global X, a divergência do BCE face a outros bancos centrais poderá pesar mais sobre o euro face às principais moedas. Isto reforçará as pressões inflacionsitas na Europa a médio prazo. Segundo, porque a especialista espera que os preços da energia se mantenham voláteis à medida que a Europa passa para uma economia net zero.

Fim do PEPP em 2021?

Nem todos os especialistas são contrários a Lagarde. Para Johannes Müller, responsável de Análise Macro para a DWS, o BCE continua no bom caminho, o que se ajusta às suas expetativas e às de muitos analistas. Na mesma linha pensa Karsten Junius, economista chefe no Bank J. Safra Sarasin. O economista espera que o BCE continue a enviar mensagens moderadas, o que deverá conduzir a taxas de juro em queda no extremo curto da curva de yields.

Assim, o encontro de dezembro converte-se agora em algo chave para os mercados. Não só haverá mais clareza sobre o que está para vir na inflação, mas também poderá anunciar-se mudanças nos programas de compras do BCE. Lagarde confirmou as suas expetativas de que o Pandemic emergency purchase programme (PEPP) seja eliminado no final de março. “Se quiser evitar os efeitos da ponta do precipício, terá que decidir se aumenta as suas compras regulares de ativos (APP) ou se lança um programa sucessor do PEPP que é igualmente flexível”, diz Junius. Isto é o que os gestores esperam: decisões importantes. “Continuamos a acreditar que o APP aumentará ligeiramente para aproximadamente 40.000 milhões de euros por mês para evitar uma queda acentuada nas compras líquidas. Também acreditamos que é necessário transferir um pouco de flexibilidade do PEPP para o APP”, diz Hugo Le Damany, economista da AXA IM.