Bruxelas fechou um acordo com Washington que evita uma guerra comercial aberta, mas fá-lo à custa de aceitar compromissos significativos. O novo quadro acordado reduz as tarifas mais extremas anunciadas por Trump durante o Liberation Day, mas introduz uma tarifa uniforme de 15% sobre setores-chave como automóvel, farmacêutico e tecnológico, e compromete a UE a investir mais de 1,3 biliões de dólares nos EUA em três anos.
Segundo Philippe Waechter, economista-chefe da Ostrum AM (Natixis IM), o pacto revela uma cedência estratégica: “A Europa tem tanto medo de se isolar dos Estados Unidos que as negociações abrangem apenas mercadorias, e não o conjunto de bens e serviços cujo comércio está equilibrado”. Na sua opinião, o acordo afasta a UE dos seus objetivos climáticos e industriais e consolida uma dependência geoeconómica em relação a Washington.
Impacto nos mercados: um equilíbrio precário
Os mercados receberam o anúncio com alívio. O Euro Stoxx 600 subiu 1%, enquanto o DAX e o CAC 40 ganharam 0,8%. Nos EUA, os futuros do S&P 500 avançaram 0,5%. No entanto, nem todos partilham do otimismo.
Para Saverio Berlinzani, economista-chefe da ActivTrades, a reação positiva é enganadora: “O acordo evita o pior, mas continua a ser muito favorável para os Estados Unidos”. O euro depreciou-se 0,5% face ao dólar após o anúncio, refletindo a perceção de que o pacto reforça a assimetria estrutural.
No crédito, a leitura foi ligeiramente mais construtiva. Howard Woodward, co-gestor de rendimento fixo na T. Rowe Price, sublinha que “os mercados prosperam com a certeza. Este acordo é menos negativo do que os nossos economistas antecipavam, e isso basta para o interpretar como positivo”. Ainda assim, alerta que setores como o automóvel continuam a negociar termos adicionais e que é provável que algumas empresas repercutam os custos nos preços finais.
A análise da Muzinich coincide: o crédito europeu de high yield avançou 0,38% na semana, beneficiando da menor volatilidade e do carry. Os diferenciais estreitaram tanto no high yield como no grau de investimento.
Vencedores relativos e sinais de reposicionamento
O novo quadro tarifário entre os EUA e a UE deixa um mapa misto de consequências setoriais. Enquanto aeronaves, medicamentos genéricos, maquinaria, certos produtos químicos e matérias-primas críticas ficam isentos, outros setores estratégicos como automóvel, tecnologia e farmacêutico estarão sujeitos à nova tarifa geral de 15%. Evita-se assim o cenário mais severo inicialmente considerado, com tarifas de até 30%.
Este equilíbrio gerou algum alívio imediato, embora persistam dúvidas. Saverio Berlinzani, da ActivTrades, adverte que o pacto inclui cláusulas de revisão unilateral por parte dos EUA, o que introduz uma “insegurança jurídica e comercial que os mercados não devem ignorar”.
Reposicionamento de carteiras e impulso europeu
Para além do impacto direto sobre os fluxos comerciais, o acordo parece ter acelerado um reposicionamento estrutural nas carteiras globais. A procura de diversificação e rentabilidade fora de Wall Street favoreceu claramente a Europa. Assim o sublinha Johanna Kyrklund, diretora de Investimentos do grupo na Schroders: “A Europa tem sido a principal beneficiária da procura de diversificação global. Vimos uma forte procura por ações e obrigações europeias. Até os bancos mantiveram o ritmo das Sete Magníficas”.
Em divisas, o euro mostrou alguma resiliência face ao dólar. Kyrklund não antecipa uma queda abrupta da moeda norte-americana, mas sim “um ajustamento natural” que reforçaria o atrativo relativo da Europa.
À primeira vista, o acordo não parece oferecer grandes motivos de celebração para os europeus. Segundo Apolline Menut, economista da Carmignac, o pacto implica aceitar uma tarifa dez vezes superior à anterior (1,5%), mas permite evitar o que teria sido muito pior: tarifas de 30%, uma escalada caótica de represálias e uma guerra comercial em grande escala. A Europa, lembra, não tem o poder de dissuasão da China nas cadeias industriais e teria ficado exposta a restrições energéticas ou digitais em caso de conflito.
Perspetiva: evita-se a crise, mas não o custo estratégico
O acordo elimina o risco imediato de uma guerra comercial entre os dois blocos, mas reforça a posição dominante dos EUA. Segundo Waechter, os objetivos de autonomia estratégica em energia, defesa, tecnologia ou indústria ficam comprometidos. A promessa europeia de destinar mais de 1,3 biliões de dólares a compras e investimentos nos EUA marca um novo equilíbrio de poder.
Além disso, os detalhes permanecem em aberto. Falta definir as tarifas sobre produtos farmacêuticos e semicondutores, enquanto a Casa Branca avisou que os países que não concluírem acordos “de alta qualidade” até 1 de agosto poderão enfrentar penalizações mais duras.
Nem todas as cifras pactuadas convencem. Menut alerta que as projeções energéticas, em particular, põem à prova a credibilidade do acordo. Mesmo maximizando as exportações, mal se alcançariam 150 mil milhões de dólares a preços atuais, muito longe dos 250 mil milhões anunciados por Von der Leyen.
A conclusão partilhada pelas gestoras é clara: evitou-se a crise imediata, mas à custa de um preço económico e geopolítico duradouro, que exigirá vigilância constante por parte dos investidores.






