Carta anual de Larry Fink (BlackRock): “Todos ativos podem ser tokenizados. Se o conseguirmos fazer, isso revolucionará o investimento”

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Larry Fink Créditos: cedida (BlackRock)

A tokenização muda tudo. A tokenização é a democratização. "Todas as ações, todas as obrigações, todos os fundos - todos os ativos - podem ser tokenizados. Se o conseguirmos fazer, isso revolucionará o investimento". Estas são as palavras de Larry Fink, na sua carta anual aos investidores. Na sua missiva de 2025, que já se tornou uma referência para o setor, o CEO da BlackRock dedicou algumas palavras a este tema.

Se a indústria adotar a tokenização, os mercados não terão de fechar. “As transações que hoje demoram dias seriam liquidadas em segundos. E milhares de milhões de dólares atualmente retidos por atrasos na liquidação poderiam ser imediatamente reinvestidos na economia, gerando mais crescimento”, prevê Larry Fink.

Como nos recorda o CEO da BlackRock, o dinheiro do mundo ainda circula através de uma infraestrutura construída numa época em que o fax parecia uma revolução. A Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT) é o sistema que sustenta biliões de dólares em transações globais todos os dias e funciona como uma corrida de estafetas: os bancos passam instruções uns aos outros, verificando meticulosamente os pormenores a cada passo. “Esta abordagem fazia sentido nos anos 1970, uma era analógica em que os mercados eram muito mais pequenos e as transações diárias muito menores. Mas atualmente, confiar no SWIFT é como enviar um e-mail através do serviço postal”, afirma.

Tokenização muda tudo

“A tokenização muda tudo. Se o SWIFT é o serviço postal, a tokenização é o próprio correio eletrónico: os ativos circulam direta e instantaneamente, sem necessidade de intermediários”, insiste Larry Fink. A tokenização consiste essencialmente em transformar ativos do mundo real - ações, obrigações, imóveis - em tokens digitais negociáveis online. Cada token certifica a propriedade de um ativo específico, como se fosse uma escritura digital. Ao contrário dos tradicionais certificados em papel, estes tokens vivem em segurança numa blockchain, permitindo comprar, vender e transferir instantaneamente, sem papelada ou espera.

Para Larry Fink, a tokenização não é apenas uma questão operacional. “A tokenização torna o investimento muito mais democrático”, afirma. Pode democratizar o acesso através da propriedade fracionada, o que significa que os ativos podem ser divididos em partes infinitamente pequenas, reduzindo uma das barreiras para investir em ativos valiosos que antes eram inacessíveis, como imóveis privados ou capital privado. Pode democratizar os direitos de voto entre os acionistas. Pode democratizar a rentabilidade, uma vez que alguns investimentos oferecem retornos muito mais elevados do que outros, mas só os grandes investidores têm acesso a eles. 

O desafio: a verificação da identidade

De facto, Larry Fink acredita que, um dia, os veículos tokenizados serão tão familiares aos investidores como os ETF são atualmente, desde que seja resolvido um problema fundamental: a verificação da identidade.

As transações financeiras exigem verificações de identidade rigorosas. O Apple Pay e os cartões de crédito efetuam a verificação de identidade sem problemas, milhares de milhões de vezes por dia. Plataformas de negociação como a NYSE ou a MarketAxess fazem o mesmo para a compra e venda de títulos. “Mas os ativos tokenizados não passam por esses canais tradicionais, por isso precisamos de um novo sistema de verificação de identidade digital. Parece complexo, mas a Índia, o país mais populoso do mundo, já o faz: atualmente, mais de 90% dos indianos podem verificar com segurança as transações diretamente a partir do seu smartphone”, explica.

BlackRock já não quer ser uma gestora tradicional

A carta anual de Larry Fink tem sido sempre um bom barómetro dos objetivos estratégicos da maior gestora de ativos do mundo. Se considerarmos a carta de 2025, podemos deduzir que os mercados privados vão ser um dos grandes objetivos da BlackRock a curto prazo. As palavras de Larry Fink são uma declaração de intenções: "A BlackRock sempre teve um pé nos mercados privados. Mas temos sido, antes de mais, uma gestora de ativos tradicional. Foi assim que começámos 2024. Mas já não somos isso".

As palavras do CEO apoiam as movimentações da BlackRock nos últimos 14 meses: a aquisição de duas das principais empresas nas áreas de mais rápido crescimento dos mercados privados (infraestruturas e crédito privado) e a compra da Preqin para reforçar as suas capacidades de dados e de análise.

Para Larry Fink, a razão dessa exclusividade dos mercados privados sempre foi o risco. “A iliquidez. A complexidade. É por isso que só certos investidores têm acesso. Mas em finanças, nada é imutável”, adverte. Na sua opinião, os mercados privados não precisam de ser tão arriscados, tão opacos, tão fora de alcance. “Não se a indústria do investimento estiver disposta a inovar - e é precisamente nisso que temos estado a trabalhar na BlackRock no último ano”, explica.

Do 60/40 a 50/30/20: esbatimento da fronteira entre cotados e privados

Para Larry Fink, a beleza de investir nos mercados privados não está em possuir uma ponte, um túnel ou uma empresa de média dimensão em particular, mas na forma como estes ativos complementam as ações e as obrigações: diversificação. “À medida que o sistema financeiro global continua a evoluir, a clássica carteira 60/40 pode já não representar uma verdadeira diversificação. A carteira padrão do futuro poderá assemelhar-se mais a uma carteira 50/30/20 - ações, obrigações e ativos privados, como o imobiliário, as infraestruturas e o crédito privado”, prevê.

Tal como com a tokenização, Larry Fink está ciente dos desafios. “A indústria não está estruturada para um mundo 50/30/20”, reconhece. Está largamente dividida entre as gestoras tradicionais centradas exclusivamente no 50/30 (ações e obrigações) e as empresas especializadas em mercados privados que dominam o 20 (ativos privados).

Mas também envia uma mensagem forte: “O fosso entre os mercados cotados e privados é um problema complexo, mas tem solução”. A BlackRock, insiste, já resolveu desafios de mercado como este anteriormente. Antes da dicotomia entre mercados cotados e privados, havia a dicotomia entre gestão indexada e gestão ativa. “A indústria agia como se fosse necessário escolher um lado, como se estas duas abordagens fossem mutuamente exclusivas”, recorda Larry Fink. E todos nós sabemos como é que essa história acabou