Cenários para a resolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia e o impacto na economia

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À medida que a invasão russa na Ucrânia se agrava, aumenta a desigualdade de efeitos económicos e cresce a assimetria nos mercados. Que caminho tomará o conflito e como afetará os investimentos? É a pergunta que mais se fazem por estes dias os clientes e as gestoras de fundos. Necessitam de visibilidade para tomar as suas decisões, mas esta não existe. "Estamos perante um cenário muito binário", reconhece Paul Brain, responsável de Obrigações na Newton, boutique da BNY Mellon IM. E, neste contexto, a prudência parece ser a melhor conselheira.

A notícia de que a Rússia não procuraria uma nova mudança de regime e que a Ucrânia poderá estar disposta a negociar a neutralidade tem provocado fogos de artifício nos mercados. O que confirma que os mercados têm vindo a descontar nas últimas semanas um prémio de risco elevado. "No entanto, deveríamos ter cuidado na hora de prever o final do conflito", avisa Stefan Kreuzkamp, diretor de investimentos da DWS.

Por agora, ainda não se conhece o alcance total dos estragos na economia e no sistema financeiro. A guerra continua e existem dúvidas razoáveis sobre como seria realmente qualquer oferta de negociação de Vladimir Putin. "O que parece claro é que, quanto mais longa for a guerra, maiores serão as repercussões económicas e para o mercado", afirma Álvaro Cabeza, responsável da UBS AM para a Península Ibérica.

Projecções

As projeções da Fidelity indicam que uma subida de 100% nos preços do petróleo poderia dar lugar a uma subida de 200 pontos base na inflação homóloga em todo o mundo, mas este efeito poderá ser maior pela via das expetativas de inflação. "Observamos que as expetativas de inflação estão a começar a aumentar e que estas já eram elevada antes da crise começar. Os efeitos de segunda e terceira ordem deste choque para o crescimento mundial poderão rondar os 300 pontos base", explica Salman Ahmed.

Segundo o responsável global Macro da gestora, na Europa podemos ver inclusive um golpe no crescimento de 4% este ano devido à subida dos preços do petróleo e do gás. "O efeito do que já vimos provavelmente é uma redução de 1% do PIB europeu em 2022, mas a incerteza é muito alta, já que desconhecemos que gravidade terá uma perturbação ou quanto tempo durará". Dado que por agora a visibilidade é escassa, a única coisa que se pode fazer é elaborar cenários.

Cenário 1: os líderes ucranianos demitem-se e cedem o controlo à Rússia

De acordo com Álvaro Cabeza, um cenário em que os líderes da Ucrânia se demitem, fogem ou cedem o controlo da Rússia sendo derrotados de uma perspetiva militar, permitiria ver o final da guerra em curso. Também teria o mesmo efeito as conversações de paz efetivas ou a retirada unilateral da Rússia depois de alcançar determinados objetivos militares. "Estes acontecimentos a curto prazo seriam mais consistentes com implicações menos graves para o crescimento e para o sentimento dos investidores", aponta o especialista.

Cenário 2: restrições de acesso ao petróleo e gás russo

Pelo contrário, há fatores que implicariam um período de guerra mais longo ou impactos mais severos para os mercados e para a economia. Cita, como exemplo, as restrições ao acesso ao petróleo e ao gás russo impostas pelo ocidente ou pela Rússia. "Serviriam para ampliar os efeitos económicos negativos do aumento dos preços da energia. Para além disso, o estabelecimento de um governo por parte dos civis ucranianos no oeste do país, representaria provavelmente um período mais longo de oposição militar organizada", explica.

Cenário 3: a NATO entra no conflito

Não é o cenário base das gestoras internacionais. No entanto, segundo Cabeza, não se pode descartar que a NATO participe militarmente de forma ativa no conflito. "Vemos como pouco provável que se produza esta situação, a não ser que o conflito se prolongue mais do que o previsto e as condições piorem", assinala. Neste caso, voltaríamos à ideia inicial: "Uma guerra prolongada aumenta o risco de desaceleração e recessão mundial", conclui Kunjal Gala, gestor de carteiras de mercados emergentes no negócio internacional da Federated Hermes.