A economia global está a instalar-se num regime distinto daquele da última década. A combinação de tensões geopolíticas, transições energéticas e digitais, bem como a necessidade de sustentar o crescimento num ambiente de maior concorrência internacional, está a dar origem a um ciclo de reflação estrutural, maior investimento e taxas de juro mais estáveis. Para os investidores, esta mudança implica repensar o comportamento das economias e identificar onde se encontram as oportunidades a longo prazo.
Neste contexto, Christophe Morel, economista-chefe da Groupama AM, defende que não estamos perante um cenário recessivo ou estagflacionista, mas diante de um modelo mais equilibrado, no qual o investimento se torna a peça central do crescimento. A sua análise revela um mapa claro sobre que regiões estão melhor posicionadas, quais os riscos que devem ser monitorizados e onde se abrem oportunidades reais para os investidores.
O investimento como motor do novo ciclo económico
“Não temos outra opção senão investir”. Para Morel, esta é a principal caraterística do regime atual: a necessidade de investir para sustentar a atividade. O economista explica que a pandemia e a fragmentação geopolítica alteraram de forma estrutural o comportamento das empresas e dos governos, e que o impulso público proporcionou desde então visibilidade a longo prazo e funcionou como catalisador para que o setor privado retomasse o investimento.
A consequência é um ciclo mais estável - aquilo que Morel denomina resiliência cíclica - no qual as empresas mantêm o investimento mesmo em fases de incerteza. O emprego resistiu e a produtividade começa a melhorar graças à combinação de investimento, digitalização e automatização. “Estamos numa fase de normalização económica, com um crescimento mais equilibrado entre consumo e investimento”, afirma. Morel recorda que as economias continuam longe de um excesso de investimento: “Não estamos numa situação comparável à bolha tecnológica. Não sobreinvestimos, estamos ainda no início deste novo regime”.
Um regime reflacionário: inflação mais alta, mas não mais problemática
Por outro lado, o economista sustenta que o regime atual se carateriza por uma inflação algo mais elevada, mas coerente com este novo equilíbrio. “Estamos num novo regime de inflação, provavelmente em torno dos 3%, mas isto não é um problema: significa que a economia está a funcionar”.
Segundo o profissional, “não estamos num mundo recessivo nem estagflacionário, mas num mundo reflacionário”, no qual os bancos centrais podem manter taxas mais estáveis, embora já não tão baixas como na década pós-crise financeira. Morel explica que as transições e o investimento exercem pressões ligeiras sobre os preços, mas sem a dinâmica dos anos 70. “Para haver uma espiral inflacionista, é preciso primeiro um choque das matérias-primas e, depois, expetativas desancoradas. Não estamos aí”. Morel sugere até que este nível de inflação ajuda a sustentar o ciclo de investimento, desde que as expetativas permaneçam sob controlo.
Europa: mais capacidade de investir e potencial de surpresa
Contrariando a narrativa dominante, Morel considera que a Europa está melhor posicionada do que os EUA para a próxima fase do ciclo. Embora o seu crescimento seja menos dinâmico do que o norte-americano, parte de níveis de dívida mais baixos, rácios de poupança mais elevados e planos públicos de investimento que ainda não exprimiram o seu potencial. Esta combinação, afirma, poderá gerar surpresas positivas a partir de 2026, especialmente se forem acelerados os planos de energia, defesa e infraestrutura digital que já foram anunciados.
No campo tecnológico, a sua leitura é particularmente relevante para os investidores europeus. “A Europa não precisa de competir com os EUA produzindo inteligência artificial; o importante é investir na sua aplicação para melhorar a produtividade do resto da economia”. O valor acrescentado europeu, defende, reside mais na adoção do que na criação dos modelos.
Dívida norte-americana e estabilidade financeira: o calcanhar de Aquiles global
O ponto mais crítico da análise de Morel é a situação da dívida pública dos EUA, que aumenta de forma estrutural ao mesmo tempo que a poupança interna permanece baixa. “Estão a tentar resolver o problema, embora não de forma convencional”, explica.
O tesouro está a reduzir a duração da dívida, apoiando-se mais na dívida de curto prazo e exercendo pressão indireta sobre o banco central. “Estão a ganhar tempo. Mas se todos os recursos forem destinados a refinanciar a dívida pública, deixam de estar disponíveis para o setor privado”, afirma. Este é, para Morel, o verdadeiro risco global: a estabilidade financeira, não a inflação. Como explica o economista da Groupama AM, o aumento do endividamento bolsista e a dependência de capital externo fazem com que qualquer tensão possa ter efeitos amplificados.
Produtividade e IA: sinais precoces, mas fricções visíveis
Outro ponto essencial para Morel é o avanço tecnológico, que já está a proporcionar benefícios tangíveis. “Temos bons dados de PIB e não sabemos porquê. Quando não consegues explicar o crescimento, a parte não explicada costuma ser produtividade”, afirma. A combinação de IA, robótica, biotecnologia e eficiência energética representa, assegura, um “alinhamento planetário” favorável.
Mas não ignora os riscos. “Também poderemos observar tensões: o desemprego poderá subir algumas décimas devido à rápida implementação da IA, especialmente entre os trabalhadores mais jovens”, alerta. A seu ver, o desafio não é apenas económico, mas também social: integrar os trabalhadores num mercado cada vez mais digitalizado e preparar as empresas para absorver talento com novas competências. Ainda assim, insiste que o saldo será positivo se o investimento e a produtividade se consolidarem como pilares do novo ciclo.

