Como a BlackRock, a Candriam e a Jupiter AM veem a atual situação dos mercados?

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Créditos: Ray Hennessy (Unsplash)

No passado dia 5 de maio, em Lisboa, realizou-se a primeira edição do Investment Summit 2022 organizado por três gestoras de ativos: BlackRock, Jupiter AM e Candriam. Houve oportunidade de debater muitos temas e de rever caras conhecidas no mercado nacional. Não faltou ao encontro André Themudo, responsável de negócio em Portugal e do negócio de wealth Iberia da BlackRock, Francisco Amorim, diretor de vendas Iberia da Jupiter e Paulo Salazar, codiretor de ações de mercados emergentes por parte da Candriam. Numa mesa redonda moderada por André Pinto, gestor de carteiras na Alvarium Investments, um dos tópicos abordados por estes três profissionais foram as suas visões de mercado e as oportunidades de investimento para os próximos meses.

Este é um evento que ganha especial relevância porque estamos num ano em que o mundo tentava virar a página de uma das maiores crises sanitárias dos últimos tempos e, sem muitos esperarem, rebentou uma das maiores crises geopolíticas das últimas décadas. Como consequência destes dois eventos, os níveis de inflação subiram e os investidores deparam-se agora com um cenário que há muito não presenciavam. Um contexto que levou os bancos centrais a adotarem uma postura cada vez mais hawkish e, muito recentemente, a Fed subiu a taxa de juro de referência em 50 pontos base.

O que realmente preocupa os profissionais?

Nesse contexto, André Themudo iniciou a discussão ao referir que os investidores atualmente encontram uma tempestade perfeita nos mercados. “Em 2022, não há classes de ativos que estejam positivas desde o início do ano”, começou por comentar. “Este não é um movimento típico, numa perspetiva mais académica, onde as ações descorrelacionam com as obrigações. É um problema para os investidores”, acrescentava.

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Mas desengane-se quem pense que a inflação é o tema que atualmente mais preocupa o profissional da BlackRock. Na verdade, é a postura dos bancos centrais. “É precisamente o ponto de os bancos centrais serem demasiado hawkish e subirem em demasia e muito rapidamente as taxas de juro que nos preocupa”, afirma. No entanto, diz também julgar que essa subida repentina "não vai acontecer", pois acreditam "que o mercado está a descontar muito mais subidas do que na realidade aquelas vão acontecer”.

De facto, na BlackRock, entram em desacordo com Jerome Powell, principalmente, num aspeto: a subida dos salários. “Não concordamos com Jerome Powell quando diz que um aumento de salários irá desencadear mais inflação, porque os níveis de produtividade a nível global subiram comparando com os níveis pré pandemia, e isso é um ponto a ter em conta nos aumentos de salários”, explica. “Julgamos que ainda há espaço para aumentar salários sem que a inflação dispare”, sublinha.

Em termos de posicionamento, atualmente, apresenta que na BlackRock estão positivos no mercado acionista, o que contrasta com a sua convicção no mercado de obrigações, onde não veem tanto valor, mas onde admite que há oportunidades. “No mercado de ações prevalecemos com maior overweight em países desenvolvidos face a países emergentes, principalmente ações americanas. Gostamos mais do setor da saúde e tecnologia”, indica.

Há oportunidades no fixed income?

A visão de Francisco Amorim é semelhante à de André Themudo, no sentido em que não acreditam que o banco central norte-americano suba tantas vezes as taxas como o mercado espera. “É um erro crasso porque, mais tarde ou mais cedo, essa situação vai-se reverter”, diz. Veem ainda que a inflação abrande na segunda parte deste ano, em simultâneo com um abrandamento das economias.

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Mas porque é que na Jupiter têm esta visão de que a inflação irá abrandar? A justificação do profissional da casa remete para as conhecidas três forças deflacionistas (3D). “A digitalização, portanto tudo o que é a inteligência artificial, é totalmente deflacionista; a demografia, que nos recorda que a população a nível global está envelhecida e isso é um fator deflacionista; e também a dívida. Estes 3D são algumas das forças que sustentam a nossa visão deflacionista”, coloca o profissional.

E, apesar de admitir que este ano o fixed income tem vindo a ser uma classe pouco amada, está convicto que “não deixará de ser uma oportunidade”. “Se pensarmos e acreditarmos que vamos ter uma recessão ou um abrandamento económico, os refúgios, como a dívida americana, irão para níveis mais baixos de yields e isso irá beneficiar fundos de fixed income”, afirma.

Acrescentou, por fim, ainda na parte de fixed income, a questão da componente emergente: “Há muitas oportunidades e estamos muito positivos, nomeadamente, ao nível dos corporates emergentes”. Os seus argumentos passam por essas empresas terem balanços muito menos alavancados, ciclos económicos diferentes do que vivemos atualmente nos países desenvolvidos e também o facto de os emergentes de hoje em dia serem diferentes dos do passado. "Anteriormente, a Ásia espirrava e contaminava todos os emergentes. Hoje isso não acontece", comenta Francisco Amorim.

A questão da China

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Contudo, tal como Paulo Salazar começou por comentar na sua intervenção, “não há como falar de emergentes sem falar da questão da China”.

Atualmente, a China está a passar por dificuldades, principalmente pela questão da COVID-19. Das 100 maiores cidades chinesas, cerca de 80% delas tiveram lockdowns parciais ou totais nos últimos tempos”, apontou. É um movimento que, efetivamente, terá o seu efeito no PIB chinês.

Além deste problema, "a China atualmente também está a passar por dificuldades no imobiliário, onde subinvestiram durante décadas e agora estão a pagar esse preço”, comentou o profissional da Candriam.

Segundo Paulo Salazar, a questão principal remete agora para a dificuldade que é encontrar um equilíbrio entre a questão da COVID-19 e o crescimento económico. “Ou seja, como é que se consegue estimular uma economia que está fechada?”, questionou. Na sua opinião, a saída da China passa por lockdowns mais dinâmicos.

Vê também muito improvável o governo relaxar as políticas COVID zero, mas, por outro lado, vê com alguma probabilidade os estímulos massivos que se falam. “Penso que a partir do momento que a China comece a estimular a economia e o cash a fluir, ela vai começar a crescer mais, enquanto a economia mundial andará em sentido contrário”, perspetiva. “Num determinado momento, as perspetivas de inflação vão começar a baixar e os emergentes vão ter um desempenho um pouco melhor”, concluiu.