Da Teoria Moderna das Carteiras à gestão do risco

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Luis Alvarenga, Tiago Rabaça, Ramon Carrasco. Créditos: FundsPeople

Diversificar da melhor maneira possível um portefólio de forma a minimizar riscos. É a premissa desenvolvida pelo economista Harry Markowitz na sua Teoria Moderna do Portefólio, que acabou por lhe valer um prémio Nobel da Economia, em 1990. Todos os profissionais da gestão de ativos sabem a teoria: por essa altura ficou provado que o retorno de um portefólio não depende apenas dos riscos e resultados individuais de um ativo que compõe a carteira, mas sim da correlação que esses ativos têm entre si.

O mundo mudou desde a altura em que Markowitz elaborou a sua tese, e as evidências do profissional são muitas vezes postas em causa nos dias de hoje. Sabem-no bem os intervenientes numa conversa dinamizada pela FundsPeople, onde se falou das ações dos bancos centrais, das políticas fiscais ou da gestão de risco. Luís Alvarenga, CFA, gestor de carteiras na BPI Gestão de Ativos, Tiago Rabaça, estratega de investimentos na DWM do Millennium bcp e Ramón Carrasco, responsável de vendas da Carmignac, começaram por olhar precisamente para algumas nuances da teoria.

Sobre o alegado papel estabilizador que as obrigações governamentais representam numa carteira, Luís Alvarenga, como já demonstrado noutras ocasiões, continua convicto de que este ativo joga um papel importante e necessário nas carteiras. “Sabemos que é uma classe de ativos mais volátil comparativamente com há 10 anos, e o seu potencial de subida também é mais limitado do que no passado. No entanto, ainda são um safe haven que diversifica”, iniciou.

Na perspetiva de Ramón Carrasco, olhar para este ativo atualmente é uma questão de preço e de adequação de estratégia. “As obrigações core a 5 e 10 anos são muito caras.  E se pudermos então implementar estratégias curtas, com duração modificada negativa?”, questionou, realçando que, na Carmignac, esta é uma das soluções que implementam nos fundos da casa.

Tiago Rabaça também não crê que a teoria de Markowitz esteja desatualizada. “Acredito que as obrigações governamentais ainda têm um papel a desempenhar, mas agora de forma mais limitada, olhando para uma perspetiva long-only. São necessárias para limitar os danos quando os mercados caem, mas já não compensam, devido ao atual nível reduzido de yields, as perdas que acontecem nas ações”, indicou. Se tiver de escolher, privilegia as treasuries em detrimento das bunds, optando assim pelo “safe haven com as yields mais elevadas”, consciente de que necessita de “monitorizar cada vez mais a exposição a ativos de risco quando os safe-havens dão cada vez menos proteção”.

Velocidade de informação 

A gestão do risco, e a forma como o incorporam nas carteiras que gerem foi outro dos tópicos abordados. Para Ramón Carrasco, a velocidade da informação influenciou bastante a forma como a gestão do risco foi sendo feita ao longo dos anos. “Hoje em dia o mercado considera a informação em segundos e temos de reagir nessa medida. Não temos uma segunda oportunidade, e temos de implementar uma estratégia muito rápido. Basta lembrar o que aconteceu com as yields das bunds no início do ano, com os mercados a moverem-se extremamente rápido. Quando somos um fornecedor de fundos temos de ser os melhores e apenas a flexibilidade permite sê-lo em qualquer contexto”, sentenciou.

Na opinião de Tiago Rabaça, a correlação entre ativos ainda é o que mais interessa quando se olha para os parâmetros de risco, ainda para mais tendo em conta que executa gestão de portefólios multiativos. “Tudo se torna mais complicado quando fazemos gestão de carteiras num contexto de yields que rondam 0. Admito que as yields caíram mais nos últimos anos do que julgava ser possível, mas se não acreditarmos em yields profundamente negativas, os retornos na dívida pública registados ao longo da última década não serão repetíveis no futuro”, referiu o profissional. Do ponto de vista das obrigações governamentais, na sua perspetiva, existe agora uma assimetria. “Olhando para onde estão e para onde já estiveram, em termos absolutos, o potencial de subida de yields parece significativamente superior ao potencial de queda de yields: isto é, excluindo alguns benefícios de diversificação, pode haver muito a perder e pouco a ganhar com a exposição a dívida pública”. Numa perspetiva de construção de carteiras, é também importante acompanhar eventuais mudanças na correlação entre ações e obrigações. “A correlação entre classes de ativos não é necessariamente estável ao longo do tempo. Se mudarmos de paradigma e a inflação se tornar de facto uma preocupação persistente, para mim não é difícil imaginar as ações e as obrigações a terem uma performance positivamente correlacionada, criando a necessidade de procurar alternativas para a diversificação”, sublinhou.

Para Luís Alvarenga, tudo se resume “à qualidade das decisões que se toma, e qual a estratégia que se quer adoptar” enquanto gestora de ativos. Na sua perspetiva, o risco de default acaba por ser “um tópico menos relevante do que no passado, dado o contínuo suporte dos bancos centrais que mantêm os mercados abertos mesmo para os emitentes de pior qualidade”, “e com os investidores dispostos a adicionar risco com um pouco de spread”. Tal como Ramón Carrasco, o profissional também considera que a velocidade da informação acabou por mudar a forma como se investe hoje em dia. “A capacidade que temos agora de olhar para os dados de diferentes maneiras mudou muito nos últimos 10/20 anos. Temos um acesso mais facilitado e simplificado à informação, algo que em 2010 apenas estava acessível por exemplo aos hedge funds”, considera. No seu entender, existe “melhor tecnologia e mais informação”.