Num pequeno-almoço promovido pela Amundi e pela FundsPeople, Luís Mateus, responsável pela análise de rendimento fixo da Golden Wealth Management; Anabela Pereira, diretora comercial de investimentos do ABANCA Portugal; Eduardo Monteiro, CIO da BPI Gestão de Ativos; e Cristina Carvalho, responsável pela área institucional da Amundi Iberia e pelo desenvolvimento de negócio em Portugal, analisaram a evolução das taxas de curto prazo e o papel dos fundos monetários e de ultracurto prazo na proteção das poupanças face à inflação persistente. O debate centrou-se na perda de poder de compra associada à permanência em depósitos com remunerações inferiores à inflação e na forma como os fundos monetários e de curto prazo podem constituir um primeiro passo para uma gestão mais ativa e diversificada do património.
Dos depósitos aos fundos: como proteger a poupança num cenário de inflação persistente

Para Luís Mateus, da Golden Wealth Management, a tendência de descida das taxas de juro que marcou as últimas décadas foi interrompida por uma alteração mais profunda do contexto económico e geopolítico. A disputa entre grandes blocos, os conflitos armados, as sanções e as perturbações nas cadeias de abastecimento criaram pressões adicionais sobre os preços. “Há poucas razões para regressarmos, pelo menos no prazo imediato, a um período pré-Covid de taxas baixas e dinheiro abundante”, afirmou Luís Mateus, considerando que as taxas poderão permanecer pressionadas durante mais tempo, ainda que sem movimentos tão acentuados como os observados noutros períodos.
Apesar da subida das remunerações dos instrumentos de curto prazo, Luís Mateus entende que os depósitos continuam a oferecer pouco valor. Os bancos apresentam níveis confortáveis de liquidez e não enfrentam uma necessidade significativa de competir pela captação de recursos, o que limita a remuneração oferecida aos clientes. Para o responsável, instrumentos de dívida pública europeia com maturidades curtas podem servir como referência para avaliar as alternativas existentes. “Alocar capital a um ano a menos de 2,5% é uma linha de água e um ponto de partida”, indicou.
A transição, contudo, não deverá significar o abandono total dos depósitos. Luís Mateus reconhece que estes “mantêm utilidade para necessidades imediatas de liquidez", mas defende que não devem concentrar a totalidade da poupança estrutural das famílias. O processo “deve ser progressivo e acompanhado pelas instituições financeiras, sobretudo porque muitos clientes continuam condicionados por experiências negativas do passado”, afirmou.
1/4Anabela Pereira, do ABANCA, considera que a deslocação da poupança dos depósitos para soluções de investimento é inevitável, também pela necessidade de canalizar mais capital para o financiamento da economia europeia. “Passar dos depósitos aos fundos é uma inevitabilidade”, afirmou Anabela Pereira. No entanto, esta mudança “exige um trabalho prévio de literacia financeira e uma explicação simples sobre o funcionamento dos mercados, das obrigações, das ações e dos diferentes veículos de investimento”, apontou.
Para Anabela Pereira, a subida das taxas pode transmitir uma falsa sensação de proteção ao depositante. Quando a inflação se aproxima ou supera a remuneração obtida, o retorno real permanece negativo. “Em termos reais, aquilo que acontece é que o cliente está a perder poder de compra”, alertou.
Os fundos de curto prazo podem, por isso, funcionar como uma primeira etapa, desde que a transição seja construída de acordo com as necessidades de liquidez e o perfil de risco de cada investidor. A responsável defendeu uma combinação entre depósitos, fundos de tesouraria e soluções com exposição diversificada a dívida pública e obrigações investment grade de maturidades reduzidas. “O cliente não pode dar o salto de uma única vez. Este salto tem de ser gradual”, sublinhou Anabela Pereira. A apresentação dos riscos é, na sua opinião, “tão importante como a comunicação das rentabilidades potenciais". Em vez de destacar apenas os retornos esperados, prefere “mostrar aos clientes os piores períodos históricos e as perdas temporárias que poderão enfrentar”, referiu.
Anabela Pereira destacou ainda a importância da fiscalidade. “A redução da tributação das mais-valias para investimentos mantidos durante períodos mais longos pode aumentar o retorno líquido sem obrigar o cliente a assumir riscos excessivos”, indicou. Esta eficiência fiscal, combinada com diversificação e acompanhamento, segundo a mesma, permite construir soluções conservadoras mais capazes de preservar o património.
2/4Eduardo Monteiro, da BPI Gestão de Ativos, apresentou uma visão relativamente construtiva para a evolução da inflação e das taxas de juro no médio prazo. Na sua perspetiva, a atual revolução tecnológica deverá contribuir para ganhos de produtividade e para uma redução gradual dos custos de diversos bens e serviços, reforçando as forças desinflacionistas na economia. "As revoluções tecnológicas implicam cortes de preços, porque só assim existe uma verdadeira transformação dos setores", explicou. O responsável considera pouco provável um regresso ao período de taxas de juro negativas observado na última década. Ainda assim, admite que as taxas possam voltar a descer nos próximos anos, num contexto de menor pressão inflacionista e maior adoção tecnológica. Neste enquadramento, a combinação entre inovação tecnológica, ganhos de produtividade e uma inflação mais controlada poderá criar condições para uma descida gradual das taxas no médio prazo.
Quanto à passagem dos depósitos para fundos de curto prazo, Eduardo Monteiro considera que estas soluções "podem representar uma melhoria clara para os investidores mais conservadores". Mesmo após as comissões de gestão, tendem a oferecer uma remuneração superior à dos depósitos, contribuindo para reduzir a erosão do capital provocada pela inflação. Ainda assim, o responsável sublinha que esta deverá ser vista como uma etapa inicial na construção de património. "Não deixa de ser uma proposta de valor relativamente limitada para quem pretende maximizar a valorização do seu património no longo prazo", afirmou.
Na sua opinião, o cliente português continua a ser mais conservador do que o investidor europeu, uma diferença que resulta de vários fatores e que deverá esbater-se à medida que melhora a literacia financeira. "Tem de haver uma evolução gradual na forma como os investidores constroem as suas carteiras", defendeu. A permanência prolongada em produtos com retornos próximos de 2%, quando outros ativos apresentam um potencial de valorização superior no longo prazo, "pode gerar diferenças muito significativas devido ao efeito da capitalização", alertou o responsável. Os fundos de curto prazo devem, assim, "funcionar como porta de entrada para uma carteira progressivamente mais diversificada", rematou.
3/4Cristina Carvalho, da Amundi Iberia, antecipa uma descida lenta da inflação, condicionada pela evolução do emprego, pelos preços da energia e pela persistência dos riscos geopolíticos. "Segundo o Amundi Investment Institute, a inflação deverá manter-se acima dos objetivos dos bancos centrais no segundo semestre de 2026, reforçando o papel das estratégias de curto prazo na preservação do poder de compra", afirmou. A responsável considera que os conflitos e as tensões em zonas estratégicas continuarão a influenciar os mercados e as decisões de investimento. Na sua perspetiva, a geopolítica continuará a condicionar os mercados, razão pela qual a Amundi integra esta dimensão no processo de investimento.
Da entidade gestora prevêem que o Banco Central Europeu ainda possa realizar uma subida adicional das taxas, enquanto a Reserva Federal deverá manter uma postura mais prudente. “A nossa perspetiva é um pouco mais de higher for longer”, explicou Cristina Carvalho, referindo-se a um cenário no qual as taxas não aumentam substancialmente, mas também não regressam rapidamente aos níveis reduzidos do passado.
Neste contexto, os fundos monetários e as estratégias de ultracurto prazo podem ser particularmente relevantes para clientes conservadores, investidores institucionais e empresas com liquidez disponível durante seis ou 12 meses. “Mesmo no curto prazo, compensa estar investido”, afirmou, destacando a consistência destas estratégias em períodos de maior volatilidade e a possibilidade de remunerar capitais que, de outro modo, permaneceriam parados.
Para Cristina Carvalho, o principal valor destas soluções está em ajudar o investidor a dar o primeiro passo fora dos depósitos. “A mudança deve começar pela parcela de liquidez que não será necessária de imediato e evoluir de forma progressiva. Depois vamos aos passos seguintes”, afirmou, defendendo que a passagem para fundos deve “integrar um processo mais amplo de planeamento financeiro, capaz de separar as necessidades do dia a dia do capital com um horizonte de investimento mais longo - e que, em última análise, permita ao investidor conservador preservar o poder de compra num ambiente de inflação persistente”, concluiu.
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