Duração nas carteiras sob vigilância: entre o risco político e a normalização das taxas, a preferência é pelas maturidades curtas 

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Almudena Mendaza, Sérgio Martins, Joel Carvalheira, Diogo Verde. Créditos: Vítor Duarte

Num pequeno-almoço organizado em parceria com a Generali Investments, a FundsPeople reuniu Almudena Mendaza, head of Sales Iberia da Generali Investments, Diogo Verde, selecionador de fundos da DWM do Millennium bcp, Sérgio Martins, portfolio manager da Atrium Portfolio Managers, e Joel Carvalheira, head of Direct Investments da Caixa Gestão de Ativos, para debater os principais desafios e oportunidades no atual contexto da curva de yields. Os profissionais convergem num diagnóstico comum: a normalização das taxas de juro e o regresso da inflação moderada criaram um cenário mais equilibrado, mas o risco político e orçamental - sobretudo em França - continua a ser o principal foco de preocupação.

Para Almudena Mendaza, o ambiente europeu é “saudável”. “O risco de inflação está nas nossas mentes, mas o crescimento do PIB mantém-se sólido”, afirma, defendendo que por agora não é necessário assumir uma duração excessiva. A parte curta da curva, entre um e três anos, continua a oferecer um equilíbrio atrativo entre retorno e segurança. “Um contexto de taxas em torno de 2% é positivo para a economia. As taxas negativas dos últimos 15 anos acabavam por não ser  saudáveis”, sublinha, destacando também a importância das obrigações indexadas à inflação, que representam cerca de 20% das carteiras soberanas da casa.

Também cauteloso, Sérgio Martins considera que “a parte longa da curva não é investível”, justificando com os os défices orçamentais e a incerteza política como principais riscos. Prefere maturidades entre  1 e 3 anos, e entre 5-7 anos, ajustando taticamente a exposição por país. Já Joel Carvalheira nota um renovado interesse pelos emitentes soberanos europeus, mas alerta para as fragilidades estruturais de países como França. “A disciplina orçamental só virá se os mercados pressionarem”, diz. Por sua vez, Diogo Verde reforça a prudência relativamente ao país: “O peso de França - cerca de 25% do mercado europeu - justifica uma postura defensiva.” Nos EUA, por sua vez, reconhece o atrativo da dívida pública, mas o custo da cobertura cambial limita a exposição que possam ter.

Onde estão as oportunidades?

Quando se fala de oportunidades em obrigações, o consenso entre os profissionais é claro: é prudente manter uma abordagem seletiva e defensiva. A incerteza económica, os riscos orçamentais e o comportamento atípico das curvas de yields levam à preferência por maturidades curtas e intermédias e a procurar valor fora dos mercados desenvolvidos. Para Diogo Verde, as melhores oportunidades estão nos mercados emergentes. “Não estamos positivos nem nos EUA, nem na Europa. O que sobra são os emergentes”, explica. O profissional vê potencial na dívida soberana, tanto em moeda forte como local, beneficiando de inflação controlada e estabilização cambial após a apreciação do dólar.

Joel Carvalheira, por seu turno, considera o momento mais propício para “tirar partido dos movimentos da curva”, do que em assumir posições direcionais. “Esperámos uma recessão que nunca chegou. Há abrandamento, mas a economia continua a crescer”, observa. Na sua leitura, as maturidades curtas oferecem melhor potencial, enquanto as longas enfrentam riscos acrescidos devido a défices elevados e políticas fiscais expansionistas. Sérgio Martins partilha uma visão semelhante: “Estamos sobreponderados na parte curta e intermédia da curva.” Em países emergentes mantêm  algum exposição, mas esta é residual. “Quando queremos estar expostos a risco, preferimos investir em  ações”, acrescenta. A filosofia é clara: mais obrigações, mas concentradas nas maturidades curtas e intermédias, onde o equilíbrio entre rentabilidade e risco é mais favorável.

Moderadamente otimistas

Apesar da incerteza geopolítica e da volatilidade dos mercados, os profissionais mantêm um tom moderadamente otimista. A visão comum é que a economia global deverá continuar a evitar uma recessão, com inflação controlada e bancos centrais menos propensos a provocar choques. “Acreditamos que será possível evitar uma recessão”, afirma Sérgio Martins, ainda que alerte para “a sobrevalorização generalizada dos ativos” e a necessidade de “ajustar as carteiras com flexibilidade”.

Diogo Verde e Joel Carvalheira reforçam a postura defensiva. O primeiro prefere operar numa faixa curta de duration, privilegiando o crédito face à dívida soberana, enquanto o segundo chama a atenção para fatores estruturais que poderão afetar as maturidades longas, como a política fiscal mais expansionista na Alemanha e a reforma das pensões nos Países Baixos. “A procura por obrigações de maturidades mais longas pode cair, pressionando as yields em alta”, destaca Joel Carvalheira, que, apesar de ver potencial de crescimento na Europa, mantém cautela nas durações mais longas.

Já Almudena Mendaza sublinha o papel agora mais contido dos bancos centrais, que considera terem “cumprido a sua função” após anos de intervenções determinantes. “Na Europa, estamos bastante positivos em relação à comunicação do BCE. Nos EUA, a situação é diferente, há mais pressão política. Mas não esperamos grandes movimentos nas taxas.” Na sua visão, o cenário de base é de PIB positivo, inflação em torno dos 2% e estabilidade das taxas na Europa, mesmo com alguns picos pontuais provocados por fatores energéticos. A profissional da Generali Investments mantém uma visão construtiva sobre obrigações denominadas em euros, tanto investment grade como high yield de duração curta, além de uma alocação ativa em dívida soberana. “Para um investidor conservador, há oportunidades interessantes em obrigações. O foco está no carry e no retorno, é isso que importa no final do dia”, concluiu.