Estamos à beira da estagflação ou o mercado está a exagerar?

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Créditos: Florian Klauer (Unsplash)

Nos últimos anos, houve uma mudança do receio de uma deflação generalizada para se começar a falar de reflação e, mais recentemente, estagflação. Agora, analisamos como esse medo de inflação elevada e crescimento estagnado é um medo fundamentado ou "um exagero", como afirmou recentemente Joachim Fels, assessor da PIMCO.

No momento, levando em consideração a situação atual da economia e as projeções dos especialistas, a segunda interpretação parece mais credível que a primeira. E isso apesar do fato de que a narrativa da estagflação está em níveis máximos, como mostra a Amundi  A gestora duvida que estejamos num período de estagflação, pelo menos por enquanto, mas defende que "os Bancos Centrais enfrentarão o dilema de quando e com que rapidez ativar/desativar o botão de acomodação num mundo de inflação mais alta/ permanente e crescimento mais lento (um caminho de estagflação)".

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O crescimento continuará a acompanhar

Um dos motivos que os especialistas alegam para minimizar este risco de estagflação é que a desaceleração do crescimento observada nos últimos meses se deve mais a um evento específico do que a uma mudança de tendência.

“Os avanços na vacinação aproximam-nos de uma maior normalização da atividade. Na nossa opinião, é esse o futuro que os mercados deveriam estar a descontar. As nossas perspetivas de forte crescimento não coincidem com a ideia geral de que a estagflação ainda está por vir”, diz Álvaro Cabeza, responsável da UBS AM na Península Ibérica.

“O elemento 'estag' no termo estagflação é inapropriado no contexto atual. No entanto, isso não significa que não haja motivos de preocupação em relação à atividade económica", explica Olivier de Berranger, diretor de gestão de ativos da  La Financière de l'Echiquier (LFDE). Talvez o primeiro ponto desta lista de preocupações seja como se estão a desenvolver os gargalos na cadeia de abastecimento. E o segundo, o impacto que uma inflação menos transitória do que o esperado pode ter sobre o crescimento mundial. Mesmo assim, este especialista defende que "se trata essencialmente de medos em relação a uma desaceleração na taxa de expansão, não em previsões de crescimento estagnado. " Na verdade, as previsões do FMI apontam para um crescimento global de 5,9% em 2021 e um pouco menos de 4,9% em 2022, o que indica crescimento, não estagnação. E da Amundi preveem que o crescimento esperado, embora tenha caído nos últimos meses, continuará, pelo menos em 2022, acima da média dos níveis pré-crise na maioria dos países.

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Quanto tempo durará a inflação temporária?

Em relação à crise de oferta, parece que ainda terá alguns meses de vida, pois a maioria não acredita que será resolvida até meados de 2022. Isto se não houverem novos sustos sobre a COVID que acabdm a impactar novamente a oferta e a procura.

Em relação à inflação, há mais dúvidas de quando veremos o pico e menos de que ainda seja algo transitório, embora não tanto quanto se esperava inicialmente.

“Os preços subiram em todo o mundo, as commodities recuperaram fortemente e a inflação nos Estados Unidos atingiu a mairca mais elevada em 13 anos. É a primeira vez desde os anos 1970 que um choque de oferta foi a principal causa”, explicam da BlackRock. No entanto, defendem que não há risco de estagflação semelhante ao da década de 1970. “A atividade económica está a crescer de forma vigorosa e tem caminhos para continuar assim”, afirmam e, portanto, mantêm a predisposição para ativos de risco.

Berranger também defende que esta retoma da inflação não deve ser comparada com a observada nos anos 1970, pois deve-se mais a um problema de oferta e procura do que a algo estrutural. Mesmo assim, alerta que devemos lidar com a inflação, pois mesmo que esse ajuste entre oferta e procura seja resolvido, há outro componente inflacionário que começa a apresentar algum alerta. “O aumento dos salários em face da escassez de pessoal poderá desencadear um ciclo vicioso de preços e salários que manteria a inflação relativamente alta”, diz.

Como isto impactaria o mercado

Mesmo assim, e embora haja mais quem nega a estagflação do que quem a apoia, Sean Markowicz, responsável de estratégia, estudos e análises da Schroders, lembrou numa análise quais tipos de ativos tendem a ter um bom desempenho em períodos de estagflação. " Durante os períodos de estagflação, o ouro (+ 22,1%), commodities (+ 15,0%) e REITs (+ 6,5%) tiveram os melhores desempenhos. Em contraste, as ações tenderam a sofrer (- 1,5%) ”, afirma o especialista. Foi um resultado a que chegou ao calcular o retorno real total médio (ajustado pela inflação) das principais classes de ativos desde 1973.

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