Felipe Lería (UBP): “Uma parte importante do crescimento orgânico futuro desta indústria ocorrerá no segmento médio”

UBP, Felipe Lería (UBP): “Uma parte importante do crescimento orgânico futuro desta indústria ocorrerá no segmento médio”
Felipe Leria. Créditos: Cedida (UBP)

As gestoras internacionais estão a partilhar cada vez uma fatia maior da indústria de fundos ibérica, mas isso não significa que o trabalho dos vendas tenha sido simplificado. Talvez muito pelo contrário. Este crescimento do património tem sido acompanhado por um aumento da concorrência. Muitos pretendentes para um setor cada vez mais fragmentado. “A concentração do setor tem sido brutal. E para entidades de média dimensão, como a UBP, este é, sem dúvida, um headwind”, reconhece Felipe Lería, responsável de Negócios Institucionais para a Península Ibérica e América Latina da gestora suíça.

Lería é um histórico do setor. Desde 2006 que a sua carreira profissional está ligada à UBP. Nas suas mais de duas décadas de experiência comercial (começou a trabalhar na indústria em 1998) viu o setor reduzir significativamente o número de players na Península Ibérica, passando a estar presentes na região maioritariamente as grandes instituições que absorveram as mais pequenas.

E esta concentração do setor financeiro não intensifica só a concorrência. Por um lado, foram elevados os requisitos para se poder ser considerado na análise. Se há alguns anos o limite mínimo para entrar no radar dos selecionadores era um património de 100 a 300 milhões de euros, agora há casas que só começam o due dilligence a partir dos 1.000 milhões. Por outro lado, as comissões foram comprimidas como um efeito de pressão da gestão passiva. Isto facilita a que as grandes gestoras, com capacidade para economias de escala, tenham uma vantagem.

O nascimento de um novo motor para a indústria

Estas são linhas vermelhas que, na opinião de Lería, fecham inevitavelmente a porta a bons produtos. E precisamente por isso considera lógico o renascimento do segmento médio. Há várias entidades a florescer com o interesse de um cliente mais instruído à procura de um serviço mais personalizado. “É um cliente com elevado nível financeiro, que em inglês se chama sticky money, por isso o crescimento que pode vir da sua mão é mais orgânico”, afirma Lería.

Na verdade, é precisamente no segmento médio da banca privada e institucional onde Lería vê um espaço para entidades como a UBP. “Há espaço. Porque além disso, este tipo de cliente tem acesso a mais informação, está a tornar-se mais especializado e está aberto a procurar produtos mais diferenciadores. Obviamente que a banca é um segmento onde todos os gestores querem estar, mas penso que uma parte importante do crescimento orgânico futuro desta indústria ocorrerá no segmento médio”, afirma.

Claro que há exceções a qualquer regra e Lería é claro sobre quais são: investimentos temáticos e investimento sustentável ou de impacto. Nestas duas áreas, os selecionadores, os assessores e os banqueiros privados estão abertos a novas ideias. Por isso, deteta o especialista, houve uma alteração na oferta que é apresentada ao cliente. O exemplo mais claro é visto com o ESG, que numa questão de dois anos foi estabelecido como uma exigência mínima. Existem ainda casas mais rigorosas que só estão a analisar fundos classificados como artigo 8º ou artigo 9º ao abrigo da SFDR. E gestoras como a UBP têm de responder. “No nosso caso, dois terços da nossa gama, que corresponde a 50% dos ativos, já está classificado como artigo 8 ou 9.º”, conta.

A evolução da UBP na Península Ibérica

O ESG é um motor de mudança, mas também de crescimento. O fundo de ações globais especializado em empresas com crescimento estável e de qualidade, o UBAM - 30 Global Leaders Equity, artigo 8.º, tornou-se no fundo-bandeira de ações da gestora na Península Ibérica. Mas nem sempre foi assim. De facto, até à crise causada pela pandemia, a UBP era uma casa conhecida principalmente pelas suas estratégias de floating bonds e high yield.

Agora, o negócio na região está a diversificar-se fortemente. Dos 1.200 milhões de euros em ativos que têm em Espanha, 75% são de obrigações. Este valor divide-se entre 35% em estratégias flutuantes, 25% em high yield e outros 25% no crédito a médio prazo (uma das suas propostas diferenciadoras). Os restantes 25% dividem-se entre ações e alternativos ilíquidos. Mas o ponto-chave é que a maior parte desta última área foi gerada numa questão de um ano.

A sua oferta tem crescido graças à assinatura de joint ventures com boutiques fora do mercado europeu. Em alternativos, por exemplo, trabalham com a SCOR Investment Partners para a criação um fundo de obrigações catástrofe. Em ações, fecharam acordos com a Angel Japan para a criação de um fundo japonês de small cap ou com a Bell AM para a criação de um fundo global de small e mid cap.

Mas crescer noutras classes de ativos não significa ignorar as suas origens. “A realidade é que muitas carteiras são compostas maioritariamente por obrigações”, reconhece Lería. Que opções tem um investidor tradicional de obrigações? É precisamente a pergunta que querem responder. A UBP está a trabalhar em estratégias para colmatar essa lacuna. Lería fala de soluções globais de high yield, fundos monetários cash plus ou do seu expertise em emissões de médio prazo.

América Latina: às portas de um novo mercado

Outro foco para o responsável da UBP será o mercado latino-americano, que é coberto pelo escritório ibérico. O objetivo de Lería, e a sua previsão, é que este ano pelo menos 25% do novo negócio gerado venha deste mercado. “E para ser honesto, acho que estou a subestimar da minha estimativa. Não me surpreenderia se, até ao final de 2022, 50% do nosso novo negócio viesse deste mercado”, prevê Lería. Porque a verdade é que nos poucos meses que de 2022, já estamos no caminho certo para cumprir esse objetivo orçamentado de 25%. Por exemplo, finalizar acordos com dois AFP no Chile e um na Colômbia.

Na opinião de Lería, vêm num bom momento para o mercado latino-americano. Com a COVID-19, o mercado chileno sofreu quando o governo permitiu reembolsos dos AFP para lidar com a crise. Agora, as instituições chilenas superaram o baque e estão a trabalhar para reposicionar as suas carteiras.  E o que é que a UBP lhes vai propor? Lería tem em mente dois focos de oportunidade: as ações de pequenas empresas japonesas e as soluções globais de obrigações high yield.