Investir em rendimento fixo através de veículos indexados: faz sentido para o investidor?
Historicamente, o ambiente natural dos veículos indexados tem sido o das ações. No entanto, esta situação mudou nos últimos anos, com o avanço progressivo das estratégias passivas de rendimento fixo.
“A nível mundial, os ativos em fundos de ações de gestão passiva representam aproximadamente um terço da capitalização total dos ativos de ações”, explica Tim Edwards, responsável de Estratégias de Investimento Indexadas na S&P Dow Jones Indices, durante o encontro organizado pela FundsPeople no âmbito da iniciativa ETF&Index Minds, no qual participaram também Silvia Senra (BlackRock), Laure Peyranne (Invesco), Antonio Royo-Villanova (DWS) e Nina Petrini (UBS AM).
Em comparação, os ativos em estratégias passivas de rendimento fixo representam apenas 3% do total, “mas o crescimento está a ser mais rápido nas obrigações”, sublinha Edwards, que acredita que esta tendência irá acentuar-se por várias razões. Em primeiro lugar, porque em determinados mercados de rendimento fixo é muito difícil para um gestor ativo superar o índice, o que representa um impulso estrutural para os veículos indexados.

Em segundo lugar, “porque os argumentos a favor do uso de índices como blocos de construção para a criação da carteira são ainda mais relevantes nas obrigações do que nas ações”.
Para Silvia Senra, diretora na BlackRock, esta tendência representa uma grande oportunidade para os fornecedores de ETF. “É impossível obter, no investimento direto em obrigações, a liquidez que os ETF oferecem no mercado, pelo que o investidor obtém diversificação, baixo custo, blocos de construção e liquidez”, afirma, ao mesmo tempo que qualifica a Península Ibérica como uma das regiões mais avançadas no que toca à adoção de ETF de rendimento fixo.
“Deparo-me com muitos investidores institucionais que, por exemplo, investem nas curvas de taxas de juro europeias ou norte-americanas através de ETF porque é mais simples e um único ticker oferece exposição a um conjunto diversificado de obrigações investment grade em euros ou em dólares, que são também extremamente líquidas. Estes investidores utilizam cada vez mais os ETF como blocos de construção numa carteira multiativos, por exemplo, e para aportar liquidez ao capital exposto a esta classe de ativos”, comenta Senra.
Na UBS AM também observaram esta tendência. “Estamos a assistir a uma fortíssima procura, sobretudo em crédito investment grade, tanto norte-americano como europeu”, refere Nina Petrini, Country Head da gestora suíça para Espanha, Portugal e Andorra. “Obviamente, a duration é muito importante e acredito que os investidores institucionais ibéricos são muito sofisticados quando se concentram nesta classe de ativos”.
Laure Peyranne considera que a pandemia marcou um antes e um depois para os ETF de rendimento fixo. “Alguns clientes começaram a mudar de mentalidade depois da pandemia, pois a crise de liquidez que vivemos foi uma autêntica prova de resistência para os ETF”, argumenta a responsável de ETF para a Península Ibérica, América Latina e EUA Offshore da Invesco. “Naquela altura era impossível obter liquidez diretamente em algumas obrigações ou em fundos ativos, e os ETF eram os únicos que continuavam a fornecer liquidez. De facto, foram utilizados como ferramenta de descoberta de preços no mercado. Acredito que isso marcou um ponto de viragem e levou mais investidores a interessarem-se pelos ETF de obrigações”.
Outra das tendências que Antonio Royo-Villanova, especialista em Gestão Passiva na Xtrackers (DWS), identifica são os ETF de cash e os ETF com vencimento fixo, “talvez mais orientados para o cliente de retalho do que para o institucional, já que os clientes de retalho não podem aceder a determinadas obrigações corporativas por não terem KIID, mas, desta forma, dispõem destes veículos para ancorar um retorno sem terem de se preocupar demasiado com o comportamento das taxas de juro e dos spreads de crédito”.
Neste sentido, Silvia Senra observa que “com o lançamento dos produtos de cash e de vencimento, tanto fixo como rolling, os ETF de rendimento fixo abriram-se aos investidores de retalho”. A profissional sublinha que “o crescimento deste tipo de estratégias está a vir principalmente do segmento de retalho”, embora reconheça que “o mercado de retalho europeu ainda está um pouco atrás do mercado norte-americano” no que diz respeito à adoção de ETF de rendimento fixo.
Um aspeto que, na opinião de Royo-Villanova, pode dificultar a adoção destas estratégias entre os investidores de retalho ibéricos é a menor cultura de poupança a longo prazo em comparação com outros países europeus. “Na Alemanha, por exemplo, o mercado de retalho é enorme, o que obriga os alemães a poupar desde muito jovens para a reforma”.
Aqui entra em jogo o nível de literacia financeira dos investidores. “Há clientes de retalho que compram ETF de rendimento fixo com vencimento fixo sem perceber realmente como funcionam e surpreendem-se quando, por exemplo, o retorno é negativo”, comenta Laure Peyranne. “Neste sentido, é fundamental educar o cliente para que tenha muito claro em que está a investir”.
De volta ao segmento institucional, Tim Edwards identifica outra tendência importante no rendimento fixo, como é o facto de o ecossistema dos índices estar a expandir-se para além dos fundos indexados e dos ETF, para incluir, por exemplo, futuros sobre índices de rendimento fixo – que existem há já algum tempo, mas que começaram recentemente a descolar –, contratos de derivados cotados, etc. “Estamos a passar de um mercado OTC tradicional, baseado em swaps, para um mercado mais transparente e de negociação pública, o que facilita a descoberta de preços”, argumenta o profissional da S&P Dow Jones Indices.
“A ideia é dar aos gestores de rendimento fixo mais ferramentas para gerir as suas carteiras”, acrescenta Silvia Senra. “Espanha, por exemplo, é um dos mercados mais ativos em opções sobre ETF e começa também a destacar-se em futuros. Os investidores institucionais ibéricos são muito sofisticados e precisam deste tipo de ferramentas para gerir as suas carteiras, sobretudo quando a volatilidade aumenta, como acontece atualmente”, conclui.






