Mais crédito europeu, menos concentração nos EUA e ativos privados como pilar: o guião da Amundi

Noche Amundi 2026

A geopolítica deixou de ser um ruído de fundo para condicionar de forma direta o crescimento, a inflação e o comportamento dos ativos. Assim o resumiu durante a celebração da Noite da Amundi, Anna Rosenberg, head of Geopolitics do Amundi Investment Institute, ao descrever o momento atual como uma fase de “desordem controlada”, marcada pela erosão do multilateralismo e a ausência de um poder global capaz de impor regras estáveis.

O crescimento resiste, a inflação modera-se e os bancos centrais aproximam-se do final do ciclo, mas tudo isso convive com um aumento estrutural do risco geopolítico, valuations exigentes em alguns ativos e uma aceleração tecnológica que introduz novas fontes de disrupção. Neste contexto, onde os quadros macro tradicionais são cada vez menos suficientes para explicar o comportamento dos mercados, a pergunta já não é tanto que cenário dominará, mas como posicionar as carteiras para conviver com a volatilidade, a dispersão e as mudanças de regime.

A partir deste diagnóstico, a Amundi articulou a sua visão para 2026 a partir de três eixos estreitamente conectados: uma geopolítica que passou a marcar o ciclo económico, uma alocação de ativos que exige maior seletividade, especialmente em obrigações e ações, e uma inteligência artificial com potencial transformador, mas ainda mal compreendido pelo mercado.

A geopolítica como novo eixo macro

Segundo explicou Rosenberg, o aumento da instabilidade não responde unicamente ao segundo mandato de Donald Trump, mas a uma combinação de megatendências que levam anos a formar-se: o avanço do protecionismo e a guerra económica, a competição estratégica entre EUA e China, a corrida tecnológica e as implicações geopolíticas das alterações climáticas. Tudo isso configura um mundo multipolar “intrinsecamente mais arriscado”, no qual o pragmatismo, a rivalidade e as novas alianças convivem ao mesmo tempo.

Para os investidores, este novo quadro implica assumir que a volatilidade será estrutural, mas também entender que a geopolítica não só gera riscos, mas tendências de investimento. “As melhores classes de ativo do ano passado, ouro, mercados emergentes ou setores ligados à defesa e inteligência artificial, refletem precisamente estas dinâmicas”, apontou Rosenberg, sublinhando que a geopolítica se tornou no novo macro que guia a alocação de ativos.

Do ponto de vista macroeconómico, a visão da Amundi continua a ser construtiva. O cenário base contempla um crescimento global próximo dos 3%, com os EUA a desacelerar de forma gradual para taxas próximas dos 2%, a Europa avançando lentamente para 1% e os mercados emergentes mantendo-se como principal motor de crescimento, com taxas em torno dos 4%.

Relativamente à inflação, a mensagem foi igualmente tranquilizadora. Nos EUA, os preços já se situam abaixo dos 3%, enquanto na Europa movem-se mesmo abaixo dos 2%, níveis coerentes com o objetivo dos bancos centrais. Neste contexto, a Amundi desmarca-se do consenso ao antecipar duas descidas adicionais de taxas tanto por parte da Reserva Federal como do BCE em 2026, uma previsão que, segundo reconheceram, não está plenamente descontada pelo mercado.

Este ambiente de crescimento moderado e preços contidos reforça a ideia de que os bancos centrais continuarão a atuar como apoio para os mercados financeiros, embora com uma margem de erro cada vez menor.

Obrigações: oportunidades seletivas num ambiente exigente

Nas obrigações, o foco esteve em como posicionar-se perante um cenário de taxas em baixa, mas com défices públicos elevados e uma oferta crescente de dívida soberana. Desde a Amundi, Amaury D’Orsay, head of Fixed Income and Money Markets, insistiu que o contexto favorece uma aproximação ativa e seletiva, com preferência pelas faixas curtas e médias da curva na Europa, onde as descidas de taxas não estariam totalmente refletidas nos preços.

No crédito, apesar de uns spreads ajustados, a mensagem foi de cauteloso otimismo. A baixa probabilidade de recessão, a solidez dos balanços corporativos e o apoio dos bancos centrais sustentam o atrativo do ativo, especialmente em investment grade europeu face ao norte-americano. Também se destacou o potencial da dívida emergente, favorecida pelas descidas de taxas e a fraqueza do dólar, mesmo em moeda local.

Isso sim, o aumento da dívida pública e o deterioro fiscal em alguns países obrigam a extremar a disciplina. A recomendação passa por priorizar o carry face à beta, favorecer obrigações de curta duração e ser muito seletivos por países e setores, com uma visão favorável para emitentes como Espanha ou Itália face a França ou Alemanha.

Ações: diversificar além da tecnologia norte-americana

Em ações, um dos principais avisos girou em torno da elevada concentração do mercado norte-americano num reduzido grupo de grandes tecnológicas. Embora o potencial da inteligência artificial seja indiscutível, Barry Galvin, Head of Equities da Amundi, expressou dúvidas sobre a sustentabilidade das margens e sobre o retorno real do enorme volume de investimento em capital que está a exigir o desenvolvimento desta tecnologia.

Perante este risco de concentração, a Amundi defendeu uma visão mais equilibrada, com oportunidades em diferentes geografias. Na Europa, as valuations continuam a ser atrativas em termos relativos e os lucros têm mostrado uma melhoria progressiva. O Japão destaca-se como uma história idiossincrática, apoiada na saída definitiva da deflação e nas reformas de governo corporativo, enquanto os mercados emergentes combinam crescimento económico superior, valuations razoáveis e um tailwind de um dólar mais fraco.

Dentro da Europa, apontaram-se oportunidades em small e mid caps, bem como em setores como o financeiro ou o industrial, que oferecem valuations mais contidas e uma melhoria estrutural de rentabilidade.

Ativos privados: um pilar cada vez mais estrutural

Os ativos privados consolidaram-se como um dos grandes pilares de diversificação em carteira. Private equity, infraestruturas e dívida privada demonstraram, a longo prazo, uma maior capacidade para gerar rentabilidade com menor volatilidade que os seus equivalentes cotados.

A principal novidade é o maior acesso para o investidor não institucional através de veículos semilíquidos, que reduzem algumas das barreiras tradicionais de entrada. No entanto, a mensagem foi clara: não existem atalhos. “A chave continua a ser a seleção de gestores de primeiro quartil e uma diversificação adequada por estratégias, geografias e estilos”, insistiu Petra Salesny, Managing Partner da Amundi Alpha Associates, recordando que cada segmento dos ativos privados cumpre uma função distinta dentro da carteira.

Inteligência artificial: da eficiência à transformação real

A mesa dedicada à inteligência artificial e tecnologia colocou o foco na lacuna entre o enorme potencial da IA e a sua aplicação real na indústria financeira. Benjamin Lucas, CIO da Amundi Technology, reconheceu que existe um consenso quase unânime sobre o caráter transformador desta tecnologia, assim como que terá um impacto transversal em todos os setores, incluindo os serviços financeiros. No entanto, advertiu que a adoção real está a ser muito mais gradual do que sugere o discurso dominante.

Segundo explicou, grande parte dos casos de uso que hoje se apresentam continuam centrados em melhorias incrementais da eficiência, ou seja, fazer processos um pouco mais rápidos, baratos ou com menos erros, quando o verdadeiro potencial da IA está na efetividade: em repensar como se fazem as coisas e como se organizam os modelos de negócio. “Estamos a utilizar uma tecnologia transformadora para produzir o mesmo relatório 10% mais rápido”, assinalou, sublinhando a limitada ambição que ainda domina em muitas organizações.

No caso dos serviços financeiros, Lucas mostrou-se mais otimista. Defendeu que o setor parte com vantagens estruturais para adotar a IA, pelo seu caráter intensivo em dados e o seu avanço em digitalização, embora insistisse que o sucesso dependerá da liderança e da gestão da mudança. A mensagem final foi um apelo à reflexão: abraçar a inteligência artificial, sim, mas de forma consciente. “Devemos pensar com cuidado que parte da nossa humanidade estamos dispostos a externalizar para a tecnologia”, concluiu.

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