Após duas décadas de taxas de juro e inflação historicamente baixas, o contexto de mercado mudou. Para Manoj Patel, gestor do DWS Invest Global Infrastructure, esta nova era reforça a importância dos ativos reais como instrumentos de proteção, diversificação e geração de retorno. E as infraestruturas cotadas oferecem vantagens únicas. “Vivemos num período de mudança de regime de mercado que começámos a observar em 2022, depois de cerca de 10 a 20 anos de um ambiente de baixas taxas de juro, baixa inflação e crescimento nominal reduzido. Em tal contexto, é fundamental deter ativos reais, ativos cuja proteção contra a inflação esteja intrinsecamente incorporada no seu modelo de negócio. As infraestruturas possuem essas caraterísticas distintivas”, sublinha.
Contudo, não é só o momento económico amigável para a classe de ativos que suporta o investimento, mas também o próprio perfil das infraestruturas cotadas como diversificadores numa carteira. “Do ponto de vista da diversificação da alocação de ativos, as ações de infraestruturas podem ser consideradas como ações de perfil mais defensivo. Oferecem equilíbrio e complementaridade dentro de uma carteira de ações”, expõe o profissional. E, na sua opinião, a conjuntura de guerras comerciais que vivemos não impactam sobremaneira estes argumentos. “O impacto é muito limitado. Tudo é afetado, em alguma medida, pelas tarifas, mas trata-se de um efeito de segunda, terceira ou quarta ordem. A maioria das empresas nas quais investimos é doméstica e não está envolvida em comércio transfronteiriço”, explica.
A filosofia e o método
“A nossa filosofia é investir em empresas puras de infraestruturas: negócios cujo foco está na propriedade e operação de ativos de infraestruturas”, explica Manoj Patel. Definem empresas puras como aquelas que têm “um risco de preço muito reduzido ou inexistente, com receitas fixas, contratadas ou reguladas”, que “prestam serviços essenciais com procura consistente e previsível” e que “são negócios assentes em ativos, com margens operacionais elevadas e estáveis, frequentemente com proteção incorporada contra a inflação”, enumera. É uma abordagem que reduz o universo global investível a cerca de 150 a 200 empresas, que os gestores e a sua equipa acompanham ativamente.
Entrando em detalhe, o gestor destaca três fatores diferenciais na escolha dos ativos. Reforça o quanto apreciam uma taxa de crescimento em aceleração. “Empresas que passam de crescimentos de 2 a 3% para 4 a 5% tendem a mostrar melhor performance. Não se trata de elevado crescimento, mas sim de crescimento em aceleração”, conta. Por outro lado, a diminuição do custo de capital também é importante. “Quando o custo de capital de uma empresa diminui, a sua valorização melhora. Foi o que observámos na Europa este ano, com a redução dos prémios de risco e das taxas de juro”, explica. Finalmente, os elevados retornos sobre o capital investido, considerando que as “infraestruturas são negócios intensivos em capital, pelo que nos focamos em empresas que geram retornos significativamente superiores ao seu custo de capital”.
Um bom exemplo, para o gestor, de um setor de infraestruturas com dois sub-segmentos em espetros opostos do negócio é o setor da energia, nomeadamente, a comparação entre energias renováveis e energia tradicional. “Apesar do elevado volume de investimento em ambos os setores nos últimos cinco anos, as empresas de energias renováveis têm enfrentado dificuldades em gerar retornos atrativos”, diz. “O meu papel como gestor de fundos não é identificar as empresas que investem mais, mas as que investe de forma mais rentável. No universo de infraestruturas, as renováveis não têm sido particularmente rentáveis”, expõe.
Em contraste, diz, as infraestruturas de gás natural, especialmente na América do Norte, apresentam retornos muito superiores. “O mercado não é propriamente um oligopólio, mas existe um número limitado de participantes. As oportunidades são sólidas, impulsionadas pela substituição do carvão pelo gás, pelas exportações de LNG para a Europa e Ásia, pela relocalização industrial nos EUA e pela crescente procura energética associada a centros de dados”, defende.
Vantagens das infraestruturas cotadas vs. os fundos de capital privado
Num setor de negócio em que os fundos de ativos privados competem pelos mesmos ativos que as empresas cotadas de infraestruturas, para Manoj Patel são evidentes as vantagens de investir no segmento cotado. “A principal vantagem: a liquidez. Ter a capacidade de fazer ajustes, reequilibrar e aproveitar oportunidades é fundamental”, diz o gestor. A segunda vantagem: a diversificação. “Investimos globalmente e através de múltiplos setores. Muitos veículos privados concentram-se numa única região ou setor e são, em grande medida, estáticos. Uma vez investido, o capital fica bloqueado a longo prazo”, explica. Para o gestor, as energias renováveis são um bom estudo de caso e um bom exemplo. “Há cerca cinco a sete anos, eram extremamente atrativas, mas os mercados evoluem, e a capacidade de adaptação é crucial. Através das infraestruturas cotadas, conseguimos realocar para novas oportunidades, como o crescimento da procura energética, centros de dados e infraestruturas digitais”, expõe. No entanto, o gestor ressalva que não quer com isto dizer que os veículos privados não têm o seu espaço, mas considera evidente que sendo muito menos flexíveis, apresentam-se em desvantagem: “As infraestruturas cotadas oferecem uma capacidade de adaptação e diversificação que os fundos privados não conseguem igualar.”

