A primeira derivada ESG: f'(ESG) = Equities, Soils & Gold

Jorge Silveira Botelho_BBVA_noticia
Jorge Silveira Botelho. Créditos: Vítor Duarte

Tribuna de Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal.

Os critérios ESG são muito mais de que uma simples temática. Eles são por imperativo uma genuína tendência secular pela qual todas as outras vão ter que se alinhar. Não se querer entender a relevância do processo ESG é perder uma das maiores transformações que vai ocorrer ao nível da forma como investimos. Mas esta tendência vai muito para além do atual frenesim da adoção destes critérios para a seleção dos investimentos, na medida em que vai provocar profundas e marcantes alterações no universo de alocação de ativos.

Vai emergir um novo processo de seleção e alocação de ativos, que vai naturalmente fazer sobressair a primeira derivada de ESG: Equities, Soils & Gold. Mas para se melhor compreender o alcance desta primeira derivada de ESG é preciso primeiro entender como neste momento estão alinhadas, as diferentes vontades e as distintas necessidades, entre os Estados, as empresas e os indivíduos.

f'(ESG) = Equities, Soils & Gold

Os Estados através dos seus governos, dos Bancos Centrais e de todos os outros distintos reguladores, debaixo da sustentabilidade económica e social, procuram mitigar riscos, sejam eles de índole climática, social ou de gestão. Os Governos promovem a renovação energética, os Bancos Centrais absorvem nos seus modelos os impactos das alterações climáticas e assumem as externalidades sociais da política monetária, tanto na criação de emprego como na redução da desigualdade, enquanto os outros reguladores promovem um normativo que induz cada vez mais à adoção de boas práticas de gestão, como a total transparência e segregação de funções e asseguram uma informação transparente e acessível para todos.

Por outro lado, as empresas, para garantirem a sua sobrevivência, têm também de alinhar as suas políticas com a plenitude das exigências de uma economia mais sustentável, sendo as mesmas forçadas a realinhar as suas estratégias, a redefinir objetivos, a promover uma cultura interna e a reduzir os riscos de gestão para poder sobreviver de forma sustentável e beneficiar de um custo de capital intrinsecamente mais baixo.

Este efeito ESG no setor público e privado acaba por ser simbiótico, ao permitir a mitigação de riscos de investimento, uma vez que implicitamente se reduz tanto o risco sistémico como o risco idiossincrático do investimento.

Por fim, num mundo em que o excesso de endividamento levou à condução de uma política deliberada de taxas de juro reais de longo prazo negativas, embebida num pressuposto político, económico e social, onde se assume que a única forma de se conseguir absorver a dívida global é não deixar que os colaterais percam valor, é por isso de esperar que seja quase inevitável que esse compromisso esteja vigente por muitos e muitos anos. Esta é uma realidade económica que colide com as aspirações humanas de uma maior longevidade, o que torna incontornável a necessidade dos indivíduos terem de assumir o compromisso de estender o horizonte temporal das suas poupanças.

Em síntese, a mitigação dos riscos de investimento em ativos de risco que está subjacente à implementação dos critérios ESG, a bondade da existência de um “dividendo emocional” intergeracional implícito no investimento sustentável e a ausência de rendimentos reais de longo prazo na curva de rendimentos, são fatores que vão levar a que os indivíduos procurem investir as suas poupanças em ativos com maiores durações.

É neste enquadramento que se extrai a primeira derivada ESG, aquela que deriva das opções de investimento existentes em ativos reais de maiores durações: Equities, Soils & Gold:

Equities: são acima de tudo uma função do prémio de risco do mercado e do risco específico de cada uma das empresas que o integram. Se por um lado, o prémio de risco deve ser considerado estruturalmente mais baixo, quer pela redução do risco com a integração dos critérios ESG, quer também pela vigência de um regime duradouro de taxas de juro reais muito baixas, por outro lado, o risco idiossincrático também se reduz, onde uma maior transparência de processos, a maior previsibilidade de geração de cash-flows e o menor custo de capital associado, supera a expetativa de retornos mais baixos. Esta maior eficiência do binómio risco/retorno que vai estar subjacente a esta classe de ativos, vai-se traduzir inexoravelmente numa maior expansão dos múltiplos de mercado.

Soils:o valor dos solos vai ser cada vez mais importante, pela sua escassez e pela relevância das suas capacidades únicas de criarem externalidades positivas na criação de um mundo mais sustentável. O desafio vem da capacidade de se analisar todo o valor económico dos solos, desde a edificação de edifícios, à instalação de recolectores de energia, às explorações agrícolas e florestais, à extração de recursos, à capacidade de reter águas, à contribuição para a biodiversidade, etc… Num futuro cada vez mais próximo, a moeda digital e a sua infraestrutura, vão poder materializar o valor económico dos terrenos e das casas, conferindo-lhes maior transacionalidade e melhor informação, espoletando uma avaliação económica mais completa do valor intrínseco de todas externalidades positivas que esta classe de ativos gera. 

Vamos conseguir comprar no momento 0,005% de uma quinta, ou de uma casa, com custos de transação muito mais baixos e em que os registos de titularidade são feitos de imediato na infraestrutura digital. Os Governos vão ficar felizes porque vão cobrar mais impostos, não só porque o maior rastreio das operações na infraestrutura digital é um sério entrave ao branqueamento de capitais, mas porque essa infraestrutura vai provocar uma explosão da transacionalidade destes ativos, o que vai permitir aos Estados arrecadar maiores receitas.

Gold: o ouro é uma função direta das taxas de juro reais de longo prazo, na medida em que detém uma perfeita correlação negativa com as mesmas. É neste atual enquadramento, o único ativo de refúgio que atualmente possui características de um ativo real, onde o peso excessivo do endividamento global lhe confere uma relevância e uma robustez suplementar. Mas neste mundo ESG, para além do ouro, existem outros metais preciosos que possuem características peculiares. A prata assume-se como um condutor elétrico de excelência para a mobilidade elétrica e para a indústria fotovoltaica, e a platina e o paládio assumem-se como catalisadores para o hidrogénio.É neste contexto político, económico e social que nasce esta apetência pelo investimento em ESG, que certamente vai mudar a forma como investimos mas também as razões porque investimos. Mas acima de tudo, não deixa de ser importante refletir, como debaixo deste simples acrónimo, sobressai uma primeira derivada que expõe a cru o valor económico das externalidades potenciadas pelo investimento em ativos reais, como Equities, Soils & Gold.