Ciao, Mr Bund…

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Jorge Silveira Botelho. Créditos: Vítor Duarte

Tribuna de Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal.

Mr Bund estava sentado na ombreira da porta de sua casa… Tinha-se esquecido das chaves e não estava ninguém em casa para lhe abrir a porta. Ao longo de todos estes anos foi a primeira vez que tal lhe tinha sucedido, chegar a casa sem a chave no bolso. Enquanto esperava que alguém aparecesse, questionava-se como tinha sido possível isto ocorrer ao fim de tantos anos, dado que era sempre tão rigoroso e precavido. Por instantes, ficou apreensivo ao julgar que a única justificação plausível para o ocorrido era estar a ficar demasiado velho ou a ficar doente. No entanto, a fadiga acumulada com a pandemia era uma justificação mais do que lógica para o sucedido. Na verdade, foram muito desgastantes todos estes momentos em que convivemos com a pandemia, para além de muito ansiedade e de falta de visibilidade, foi necessário empreender um grande esforço coletivo e muito trabalho árduo. Foi preciso fazer sistematicamente muitas análises sobre situação, ter muitas reuniões multidisciplinares, intermináveis e inconclusivas, e acima de tudo, foi preciso ter-se coragem para se tomar decisões para se evitar uma calamidade social.

Mr Bund lembrava-se como tinha sido difícil convencer os seus amigos frugais que era preciso dar luz verde ao Banco Central Europeu para estabilizar os mercado financeiros e evitar a todo o custo a fragmentação financeira e o consequente risco de uma renovada crise soberana. Era preciso um programa de emergência que devolvesse aos Estados a capacidade de financiar as suas economias. Mr Bund, apesar das vozes dissidentes dentro das suas fileiras, conseguiu um consenso e orquestrar com o BCE um programa de emergência de combate á pandemia que atualmente ascende 1,850 Biliões de euros.

Mas rapidamente entendeu que não era suficiente… Mr Bund, percebeu que tapar buracos simplesmente não chegava, era preciso algo que devolvesse capacidade aos Estado de relançar as suas economias, era preciso também dinheiro novo, investimento. De novo, Mr Bund percebeu que iria ter dificuldades adicionais para convencer os seus amigos frugais para este novo desígnio, na medida em que se tratava de uma efetiva partilha de riscos e eles não estavam nem aí. Mas subitamente a ideia da agenda verde surgiu como uma lufada de ar fresco. Era algo consensual e muito impregnada nas inquietações da opinião pública, uma autêntica arma de arremesso que se auto-alimentava e que poderia destituir quem lhe fizesse frente. Com um ou outro ajuste, nasce o Fundo de Recuperação Europeu, com um montante de 750 mil milhões de euros,

Enquanto pensava no mistério da chave, lembrou-se que mesmo antes de sair do escritório, tinha atendido uma chamada do seu grande amigo Mr BTP (Buoni Poliennali del Tesoro). Entre cordiais saudações e um agradecimento particular ao Mr Bund por ter acolhido o seu filho em sua casa que ia fazer o programa Erasmus, Mr BTP exclamou euforicamente:

Congratulazioni Mr Bund! Che orgoglio, amico mio!

Estas felicitações vieram naturalmente pelo facto de que em junho o Fundo de Recuperação Europeu já ia receber as suas primeiras dotações.

Entretanto Mr BTP, pelo sim pelo não, também confidenciou:

Allora Mr Bund, sabe que Draghi já me comentou que estima que o défice este ano vai ter de ser de 11,8% e que o rácio de divida publica sobre o PIB deve passar os 160%. Mas não é caso para ficarmos gregos, esses coitados já vão para lá dos 200%…

Ao que Mr Bund apreensivamente retorquiu:

– Tem a certeza, isso está mesmo assim?

Ao que Mr BTP continuou:

Scusa Mr Bund, dove vivi? Porque é que acha que o balanço do Banco Central Europeu em maio já atingiu o valor dos “diavolos” de 66,6% do PIB? Se tiver dúvidas fala com a sua amiga francesa. Mas agora tenho que ir, tenho ainda muito papel para imprimir. Arrivederci, Mr Bund!

Mr Bund desligou o telefone e olhou para o espelho do hall de entrada antes de sair, exclamou em voz alta:

– Credo!!! E a minha reputação?

Era evidente que o Mr Bund tinha razões de sobra para estar preocupado com o seu estatuto imaculado de ativo de refúgio, que agora se tinha desfigurado e encontrava-se literalmente contaminado neste pós pandemia.

Em primeiro lugar, parecia evidente que a perceção do risco de crédito do Mr Bund já não está dissociada do compromisso irreversível e inequívoco de partilha de riscos. O risco de crédito da República Alemã já não podia ser analisado de forma isolada, da mesma maneira que o risco de crédito de Itália, Grécia, Portugal e Espanha também atualmente já não o são…

Em segundo lugar, toda esta fobia verde que o Mr Bund tão bem encarnou, fez com que a opinião pública alemã queira agora, que o partido verde se afirme como uma verdadeira alternativa de formação de governo para as próximas eleições em setembro. Isto certamente vai-se traduzir por mais despesa pública e por conseguinte pode constituir-se como mais um fator que pode minar o estatuto de ativo de refúgio que o Mr Bund ainda detém.

Depois de todas estas reflexões, foi então que o Mr Bund realizou o que se tinha passado com a sua chave… Se não quando, por detrás da porta saiu o filho do Mr BTP, o tal que estava em sua casa a estudar no programa Erasmus, e lhe disse carinhosamente:

Ciao, Mr Bund, allora cosa fai? Não sabe que a porta agora está sempre destrancada…