O Esta semana vou estar de olho... é da autoria de Tiago Lavrador, economista no novobanco.
O Banco Central Europeu deverá anunciar, na quinta-feira, uma descida das taxas de juro de referência para a área do euro, de 25 pontos base, reduzindo assim a taxa da facilidade de depósito para 3.75%. Tal decisão é amplamente antecipada pelo mercado, dada a sua sinalização na reunião de abril, tendo sido também abundantemente sugerida por diversos responsáveis da autoridade monetária desde então. Tratar-se-á da primeira descida de juros do BCE sob a presidência de Christine Lagarde.
A reunião do BCE constitui, assim, o principal evento da semana, sendo particularmente relevantes as novas previsões macroeconómicas da instituição, bem como o tom do discurso da sua presidente.
De facto, se o anúncio de uma descida de taxas de juro esta semana é largamente esperada, a atuação do BCE ao longo dos meses seguintes reveste-se de grande incerteza, sobretudo depois de ter sido conhecida, na passada sexta-feira, a subida da taxa de inflação homóloga em maio de 2.4% para 2.6% (e de 2.7% para 2.9% na medida core, que exclui energia e alimentação não-processada), com uma aceleração dos preços dos serviços, componente onde as pressões ascendentes se têm revelado persistentes e a que o BCE está particularmente atento.
Riscos e data dependency
Alguns responsáveis da instituição, como a alemã Isabel Schnabel, têm alertado para os riscos de uma descida demasiado rápida dos juros, dada a incerteza quanto à evolução da inflação. Neste contexto, importa avaliar, por um lado, se as previsões para a inflação – apesar da evolução desfavorável recente – continuarão a apontar para uma descida a médio prazo para os níveis desejados (ligeiramente abaixo de 2%). Por outro lado, o mercado estará particularmente atento a qualquer sinalização relativamente à atuação futura. Tanto o comunicado como o discurso da presidente Lagarde deverão ser desta vez particularmente prudentes, enfatizando o caráter data dependent das próximas decisões de política monetária, que dependerá, assim, da evolução dos dados de inflação, salários e atividade.
Não é de esperar, assim, qualquer sinalização explícita quanto a novas descidas, que deverão permanecer em aberto. A aceleração dos preços em maio e a resiliência do mercado de trabalho (com a descida da taxa de desemprego para 6.4% em abril) sugerem, para já, que o BCE não tenha pressa num novo corte dos juros, que poderá ocorrer apenas na parte final do ano, sobretudo tendo em atenção que a atuação da Reserva Federal norte-americana se reveste também de elevada incerteza.

