Esta semana vou estar de olho… no euro/dólar

Filipe Garcia_IMF
Cedida

(O ‘Esta semana vou estar de olho em…’ desta semana é da autoria de Filipe Garcia, CESGA, economista na IMF – Informação de Mercados Financeiros.)

Em 2021, o dólar vai subir ou descer?” Esta é uma das perguntas mais frequentes no “Ano Novo”, como se o dia 1 de janeiro tivesse forçosamente de marcar um início de ciclo nos mercados. É um tipo de perspetiva que não ajuda a tomar decisões e há que tentar promover outras formas de olhar para o tema.

Por exemplo, há um ano, o Eur/Usd fechava 2019 entre 1.11 e 1.12 dólares. Se um analista fizesse a previsão de valorização do dólar em 2020, teria acertado porque a moeda norte-americana atingiu em março o valor mais alto face ao euro desde a primavera de 2017, ao chegar aos 1.0635 dólares. Segundo vários especialistas, apenas continuava em curso a tendência de baixa do Eur/Usd, em direção à paridade. Ou seja, o analista estava completamente certo na previsão efetuada em dezembro de um dólar mais forte, até porque nas primeiras semanas de 2020 foi precisamente isso que sucedeu.

Mas, se pelo contrário, a previsão fosse de queda do dólar? Pois bem, de facto também estaria certo! Em 9 de março, o Eur/Usd chegava muito perto de 1.15 dólares, na altura máximos não vistos há mais de um ano. E que dizer do que sucedeu de setembro em diante? O Eur/Usd não acabou 2020 sem ter antes cotado em máximos de 32 meses, acima de $1.23. Em ambos os casos o analista poderia dizer que a sua antevisão estaria certa.

Qual a utilidade deste tipo de previsões? Muito pouca…

Este ano, as perspetivas para o Eur/Usd são bastante consensuais: o dólar deverá continuar a desvalorizar. Das dezenas de “outlooks” que tive a oportunidade de consultar, não encontrei quem defendesse com convicção uma tese bull para o dólar. Fala-se em 1.25 e 1.30 dólares como etapas da desvalorização “secular” do dólar, que se terá iniciado em 2020, e que não deverá concretizar-se apenas face ao euro – o Dollar index poderá cair a pique em 2021, na opinião da maioria dos analistas.

A tese bearish para o dólar assenta essencialmente nos seguintes pontos: i) Mudança de poder nos EUA. Os Democratas irão controlar a Casa Branca e o Congresso, tendo via aberta para uma política de mais estímulos e agravamento do défice. As políticas poderão ser menos amigáveis para as empresas e poderá haver menor utilização e confiança do dólar a nível global; ii) As taxas de juro do dólar, tradicionalmente bem mais altas do que as do euro, iene e franco suíço, deverão continuar perto de 0% durante muito tempo; iii) As poderão permitir uma forte recuperação económica, globalmente sincronizada, nomeadamente nas economias asiáticas e emergentes; iv) Como resultado das políticas de estímulos fiscais, taxas de juro baixas e economia a crescer, os mercados manterão a aversão ao risco em níveis baixos, penalizando o dólar, que é normalmente um ativo de refúgio.

duas reservas importantes a esta perspetiva de um dólar mais fraco nos próximos meses. Em primeiro lugar, os consensos são perigosos porque significam que a maior parte do mercado está posicionado numa certa direção e perante algum evento ou desequilíbrio pode ocorrer um squeeze. Por outro lado, toda a narrativa assenta, muito resumidamente, na presunção de manutenção do bull market nas ações e numa forte recuperação económica global. E se não acontecer? E se as vacinas falharem ou tardarem? Como se irá comportar o dólar quando as bolsas fizerem uma correção pronunciada? E é muito provável que essa correção irá acontecer durante este ano, mais cedo ou mais tarde…

Em resumo, nas próximas semanas vou estar de olho no Eur/Usd para perceber se o consenso vai ser confirmado ou se o mercado será apanhado em contrapé.

Numa perspetiva de longo prazo, a quebra em alta da linha descendente no último trimestre de 2020 neutralizou a tendência de baixa do Eur/Usd. Note-se também que a ida a 1.0635 dólares em março constituiu um mínimo relativo mais alto, face aos níveis observados em 2017. O Eur/Usd tem caminho aberto até à zona de 1.25/1.26 dólares, mas poderá consolidar previamente. Uma quebra em alta de 1.26 dólares sinalizará mais ganhos do euro. Pelo contrário, o regresso a níveis abaixo de 1.15/1.16 dólares colocam em causa a narrativa bull para o euro.

Olhando mais para um prazo mais curto, percebe-se uma tentativa de correção em alta do dólar (queda no Eur/Usd), mas que ainda não quebrou qualquer suporte relevante. Não afastamos a hipótese de um regresso à zona de 1.20/1.21 dólares, por onde passa a média móvel de 50 dias e que era também a zona de anterior resistência. O facto é que, a 1.2350 dólares, a cotação estava já quase 7% acima da média de 200 dias. Não sendo inédito, é um sinal de alerta.