Francisco Falcão (Hawkclaw Capital Advisors): “A gestão ativa será essencial para a geração de retorno tanto ao nível acionista como obrigacionista”

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Cedida

(Artigo de Francisco Falcão, CIO da Hawkclaw Capital Advisors.)

A pandemia de Covid-19 que assolou o mundo marcou severamente o ano de 2020 e ficará registada na nossa memória como um dos eventos mais disruptivos do século. Os impactos foram sentidos a diversos níveis, desde o aspeto económico à própria esfera social. Nos mercados financeiros, a dinâmica recordou momentos vividos noutras crises, mas os movimentos foram sem dúvida mais avassaladores, com vários registos diários de variação negativa só experienciados na crise dos anos 30. No entanto, os bancos centrais e os governos foram intervindo por forma a suavizar o impacto do coronavírus na economia. As contrações de vários indicadores económicos foram evidentes e o ano de 2020 não será de todo um ano positivo a vários níveis.

Para o próximo ano, consideramos que o crescimento económico global deverá registar uma recuperação significativa beneficiando das medidas de política monetária e dos programas de apoio governamentais. Entretanto, os programas de vacinação estão já a desenrolar-se em vários pontos do globo, algo que deverá permitir algum tipo de “normalização” para o último trimestre de 2021.

Nos EUA, a eleição de Biden deverá implicar investimento público em infraestrutura, a melhoria da diplomacia externa, a aproximação ao nível comercial a antigos parceiros económicos e a suavização das relações com a China (atualmente conturbadas devido às políticas de Trump), algo que deverá ser positivo em termos económicos. No entanto, a evolução económica depende também da capacidade do governo incentivar o consumo privado, o que deverá acontecer pela via dos incentivos de política fiscal e subsídios temporários.

Na Europa, as consequências do Brexit deverão fazer-se sentir nos próximos trimestres mas a exposição a economias que deverão recuperar mais rapidamente pós-Covid poderá surpreender pela positiva. No entanto, continuamos a advogar que o problema da Europa é estrutural e não algo pontual, pelo que a prazo só uma reforma de larga envergadura das instituições poderia permitir um ganho significativo de competitividade que justificasse uma “outperformance” regional. A inflação deverá permanecer abaixo dos objetivos dos bancos centrais, sendo de esperar a manutenção das taxas de juro em baixa. Em termos da curva de rendimentos, a confirmar-se a recuperação económica admitimos que poderá haver alguma dinâmica positiva na cauda da curva, i.e., nas maturidades mais longas (+20 anos). As economias emergentes deverão a registar elevadas taxas de crescimento económico e inflação ao nível dos países desenvolvidos.

A Ásia emergente deverá em nosso entender ser a região com maior potencial tendo em conta que é a que se encontra mais avançada em ultrapassar a pandemia. 

Como riscos inerentes mantém-se o mercado imobiliário e o sector bancário nesta geografia, mas estes deverão ser equilibrados pelas intervenções de política de direção central que regem o país. Em suma, consideramos que 2021 será um ano de recuperação económica sendo possível alguma volatilidade dos dados macroeconómicos caso alguns dos estímulos sejam retirados ou suspensos durante o ano (seria cedo demais considerando o cenário que hoje conhecemos). Com a vacinação da população, a normalização da vida social e da dinâmica comercial também será expetável.

Tendo em conta o cenário macroeconómico que traçamos para o próximo ano e a atual situação dos mercados acionista e obrigacionista consideramos prudente um posicionamento balanceado durante todo 2021 tendo em conta o perfil de risco de cada investidor. Tal como em 2020, a gestão ativa será essencial para a geração de retorno tanto ao nível acionista como obrigacionista. Em termos acionistas, privilegiamos Ásia e EUA, setores cíclicos e estratégias “value”. Em termos obrigacionistas, continuaremos a privilegiar a qualidade de crédito, acreditando que a taxa de incumprimento de empresas dos sectores mais afetados, tais como transportes, hotelaria, restauração, diversão e turismo, poderá continuar a aumentar à medida que as moratórias e políticas de apoio ao emprego são extintas. O ouro deverá continuar a desempenhar um papel fundamental na construção das carteiras assim como outros instrumentos com proteção contra inflação (eg. TIPS), principalmente devido à potencial subida das expectativas de longo prazo. O Dólar Americano deverá manter-se estável com alguma pressão sobre Yellen em manter a moeda suportada invertendo o rumo de desvalorização pretendido anteriormente por Donald Trump. Os preços do petróleo e de outras matérias-primas (eg. metais) deverão continuar em alta no seguimento do aumento da produção industrial e reposição de “stocks”. Em suma, defendemos para 2021 uma estratégia que considere um racional de paridade de risco com um “mix” de ativos que nos permita uma assimetria significativa de retornos e um binómio risco-retorno ótimo.

Quanto a riscos, consideramos que o fim das moratórias e dos layoffs assim como uma divergência cada vez mais evidente entre a economia real e o mercado financeiro são algumas das principais preocupações. A sustentabilidade do sistema na era pós-Covid também é algo que nos preocupa embora haja já várias potenciais soluções. Quanto ao negócio, os aspetos regulamentares e a instabilidade fiscal em Portugal continuam a apresentar-se como os principais riscos.     

Quanto a fundos de investimento, consideramos que fundos como o Mirae Asset Asia Great Consumer Equity Fund e o Brown Advisory Sustainable Growth Fund são opções válidas, o primeiro para o tema Ásia e o segundo para o tema da sustentabilidade na perspetiva de investimento (ESG).

A Hawkclaw Capital Advisors continua focada no investimento em ativos e desenvolvimento de estratégias que beneficiem da dinâmica positiva de tendências seculares tais como digitalização, cibersegurança, jogos de computador, comércio online, descarbonização, eletrificação, energias renováveis, entre outros, privilegiando sempre uma abordagem que alinhe os interesses económicos com os interesses da sociedade e do meio ambiente.