Luis Sancho (BBVA AM): “Acreditamos que é possível ter uma boa dose de otimismo para o ano que se avizinha”

Luis Sancho
Foto de Vitor Duarte

(Artigo de Luis Sancho, gestor de carteiras da BBVA AM.)

2021 será o ano de todas as vacinas e com ele a esperança de um regresso à tão desejada normalidade. As consequências da pandemia, que ainda nos vai obrigar a um inverno penoso, são bastante difíceis de quantificar. Contudo, a mesma teve o condão de repensar a sociedade e a redescobrir o poder da cooperação. Governos e Bancos Centrais têm funcionado numa sintonia quase perfeita com ajudas sem precedentes à economia, e a ciência uniu esforços para produzir vacinas e terapias contra a Covid-19 a uma velocidade praticamente inimaginável. Mesmo no campo político a perceção que fica é que o populismo, pelo menos nos regimes mais democráticos, começou a ceder terreno em favor de políticas económicas e sociais mais pragmáticas na procura de soluções para o bem comum. Neste enquadramento acreditamos que é possível ter uma boa dose de otimismo para o ano que se avizinha.

Nos EUA, sob a égide de uma nova administração, será expectável um certo apaziguamento nas relações comerciais com os seus principais parceiros ainda que o multilateralismo como o conhecemos num passado recente não vá ser a nova realidade. A luta pela supremacia mundial, sobretudo, a nível tecnológico com a China faz antever que as relações entre estes dois países permaneçam delicadas. Por seu turno, as relações com os seus aliados tradicionais estarão mais alinhadas, sendo previsível que EUA também venha a abraçar os temas da sustentabilidade ratificando, por exemplo, os acordos climáticos de Paris. Em termos políticos, uma presidência democrata com um Senado republicano, como cenário central, deverá configurar um quadro de estímulos fiscais menos ambicioso, mas ainda assim significativo e também uma menor subida do nível de impostos. Neste contexto, a recuperação da economia americana em 2021 irá contar com um forte contributo do investimento que juntamente com o motor do consumo privado levará a que a economia possa crescer cerca de 3,8%. 

Na Europa, um maior alinhamento  em questões como a mutualização de dívida e a necessidade de acelerar as dinâmicas da sustentabilidade e da digitalização poderá levar a economia da zona euro a crescer para níveis próximos de 5%, ainda que a recuperação do comércio global seja fundamental para sustentar este número.

A China, que já conta com uma fase avançada de recuperação pós-pandemia será o bloco que contará com o maior crescimento para 2021, com a dimensão da procura interna a ganhar um peso sem precedentes. Segundo as nossas estimativas a economia chinesa irá crescer 9,1%.

Os países emergentes, em geral, também deverão apresentar níveis de crescimento interessantes, embora com comportamentos diferenciados. Na Ásia os países que passaram praticamente incólumes à pandemia e que apresentem um perfil exportador serão claramente os mais beneficiados, encontrando-se neste campo países como o Vietname e Taiwan, podendo mesmo ter taxas de crescimento superiores à da China. Na América Latina, severamente afetada pela pandemia, os números de crescimento serão necessariamente mais baixos embora alguns países possam tirar proveito do aumento da procura de matérias-primas e energia. 

Em 2021 os Bancos Centrais ainda estarão em modo totalmente acomodatício, o que nos faz acreditar que o número de classes de ativos onde ainda é possível extrair valor seja cada vez menor.

A dívida soberana dos países desenvolvidos continuará a transacionar em níveis próximos dos seus mínimos, sendo de esperar que o aceleramento da atividade económica comece a incorporar um cenário de taxas de juro reais mais elevadas, com a consequente pressão ascendente sobre os yields a fazer com que a curva de rendimentos ganhe inclinação, em particular, nos EUA.

O crédito que tão bem se comportou em 2020, fruto das ações dos Bancos Centrais ainda terá algum espaço de encurtamento de spreads, principalmente, porque a falta de alternativa de retorno continuará a canalizar muitos fluxos financeiros para esta classe de ativos.

O mercado acionista será aquele que, porventura, poderá ter um bom desempenho e, desta vez, sem depender em demasia do setor tecnológico. Parece consensual que se a imunidade de grupo começar a ser uma realidade entre o 2º trimestre e o 3º trimestre, as ações de estilo valor com um forte enfoque cíclico poderão ter valorizações significativas com a recuperação dos setores fortemente impactados pelo eclodir da pandemia como foram, por exemplo, as companhias ligadas às atividades de ócio e lazer. Em termos geográficos Europa e Mercados Emergentes são duas das regiões que poderão tirar bastante proveito destas dinâmicas.

Por outro lado, a nova temática da sustentabilidade complementada pela necessidade de renovar e criar diferentes tipos de infra-estruturas quer nos EUA quer na Europa poderá criar oportunidades em setores específicos como as energias renováveis ou beneficiar empresas ligadas ao setor da construção.

Apesar dos augúrios para 2021 serem bastante positivos, o principal risco continua a ser o ressurgimento do vírus numa altura em que ainda não conhecemos verdadeiramente a eficácia das diferentes vacinas no terreno. Ainda assim, e admitindo um cenário base em que a pandemia se irá desvanecer à medida que formos avançando no ano eu diria que a dinâmica de reflação poderá colocar alguma pressão nos yields de longo prazo, particularmente, nos EUA com a FED a poder permitir que a inflação se possa situar acima de 2% durante algum tempo. Dependendo da reação dos mercados a possibilidade destes incorporarem taxas de juro mais elevadas pode inclinar a curva de rendimentos e elevar os custos de financiamento. 

Face ao processo sincronizado de repressão financeira por parte do Bancos Centrais, e que continuará a fazer-se sentir em 2021 a procura por retornos minimamente atrativos obriga-nos a subir a escada do nível de risco. Face ao acima exposto, os fundos de ações poderão ser uma boa oportunidade em 2021. O ano parece ter reunido as condições perfeitas para o estilo value poder ter um bom desempenho, ainda que temas como a tecnologia, a sustentabilidade, a demografia continuarão a proporcionar boas opções através dos fundos mais temáticos.