Mário Carvalho Fernandes (Banco Carregosa): “O rescaldo da pandemia irá revelar quanto do ajustamento da atividade económica foi conjuntural e quanto foi estrutural”

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(Artigo de Mário Carvalho Fernandes, CFA, Chief Investment Officer do Banco Carregosa)

Nos principais blocos económicos mundiais, a reação à pandemia foi sincronizada e transversal às políticas monetárias e fiscais.

No entanto, o ciclo político nos Estados Unidos, condicionado pelas eleições presidenciais, atrasou o processo de renovação das políticas fiscais, que inevitavelmente se vão refletir numa recuperação mais lenta da atividade económica na fase inicial de 2021.

Pelo contrário, a União Europeia tem-se revelado mais unida do que no passado. A implementação do Plano de Recuperação Europeu coadjuvado pelo compromisso do Banco Central Europeu em garantir a transmissão das condições financeiras favoráveis a todos os estados-membro criam condições de visibilidade e segurança ao investimento. A redução gradual dos impactos diretos da pandemia na atividade económica deverá permitir a recuperação dos sectores mais afetados, como o turismo, com um peso relevante em algumas das economias do sul da Europa. A eleição geral alemã, no segundo semestre, é um risco no horizonte europeu.

Na Ásia, a China continua a emergir mais forte de cada crise e apesar dos atritos causados pela guerra comercial, deverá continuar a trilhar, em 2021, o seu caminho rumo à liderança económica mundial. Os embates sino-americanos na batalha pelo controlo das tecnologias mais avançadas deverão continuar a forçar uma segmentação do mundo digital, com eventuais reflexos no mundo real.

O Japão, com eleições no segundo semestre, foi um dos primeiros países a enfrentar o esgotamento das ferramentas tradicionais da política monetária e continua mais avançado na adoção das políticas menos convencionais, ao mesmo tempo que se debate com uma população envelhecida e com pouca tradição de imigração. O resto do mundo desenvolvido continuará a observar os testes neste laboratório de políticas monetárias não convencionais, onde não se vislumbram sinais de inflação.

Nesta fase de sincronização entre a política monetária e a fiscal, em que ambas as políticas combatem o risco de deflação inerente ao choque exógeno depressivo da pandemia, mantém-se a continuidade da repressão financeira que deverá criar inflação principalmente junto dos ativos financeiros. O grau de inflação nos ativos dependerá da evolução da agressividade das políticas monetárias e fiscais.

Enquanto este duplo contexto de baixas taxas de juro e suporte da atividade económica pelos governos perdurar, os mercados acionistas estarão entre os mais beneficiados. Adicionalmente, os ativos reais (REITS não comerciais, infraestruturas, matérias primas não energéticas) devem continuar suportados.

O maior risco é a capacidade de manutenção da sincronia entre a política fiscal e a política monetária expansiva que permite absorver a ampla emissão de dívida soberana necessária ao financiamento dos déficits elevados. Deste equilíbrio dependerá a evolução da atividade comercial, do desemprego e, não menos importante, da inflação. Se atualmente o mandato dos bancos centrais está em sintonia com o desígnio dos governos, em algum momento, esse sincronismo pode começar a desvanecer-se.

O rescaldo da pandemia irá revelar quanto do ajustamento da atividade económica foi conjuntural e quanto foi estrutural. Que porção do comércio eletrónico regressará às lojas? Quanto do trabalho remoto regressará aos escritórios? Quantas das viagens de negócios foram definitivamente substituídas por sucedâneos digitais? A aparente atratividade de alguns ativos depreciados relacionados com negócios que sofreram uma perda estrutural da procura, que não voltará pós covid, é uma tentação que os investidores devem evitar em 2021.

– Qual o fundo de investimento (obrigações, ações, misto, alternativo) que recomendam para o ano de 2021 e porquê?

Na classe de obrigações, no atual contexto, tendemos a preferir gestores hábeis com mandatos flexíveis, pelo que neste espectro o fundo Jupiter Dynamic Bond cumpre plenamente esses dois critérios.

Relativamente à classe de ações preferimos uma abordagem puramente bottom-up, large cap e mantemos a preferência no Fundsmith.

Entre os fundos mistos, destacamos três fundos que passaram com sucesso o exigente teste deste ano. O Ruffer Total Return como fundo conservador que efetivamente se protege a left tail risks, o Flossbach von Storch Multiple Opportunities que tem revelado habilidade na leitura do panorama macro e, por fim, o Acatis Gané Value Event que executou a sua estratégia de forma exemplar, tirando proveito da forte correção de março.

Na categoria de alternativos continuamos a privilegiar o Nordea Alpha 15.

A evolução da relação sino-americana ao nível da globalização e da supremacia global promete fazer correr muita tinta, sobre a qual iremos debruçar-nos atentamente. Seremos leitores atentos do desenrolar da história sobre a forma como estes dois impérios pretendem desempenhar os seus papéis.