Miguel Munhoz (Nevada Investments): "Nos Estados Unidos, os principais riscos residem na narrativa de AI e na postura dovish da Fed"

Miguel Munhoz (Nevada Investments)
Miguel Munhoz. Créditos: Cedida (Nevada Investments)

COLABORAÇÃO de Miguel Munhoz, presidente do conselho de administração e responsável de Fixed Income na Nevada Investments.

A Europa enfrenta graves desafios relacionados com o elevado endividamento público e a implementação de novos estímulos orçamentais, num contexto de estagnação económica e fraco crescimento. Estes fatores têm exercido pressão negativa sobre as taxas de juro. Em França, por exemplo, a instabilidade política soma-se a um défice orçamental persistente, projetado para permanecer acima dos 5%, enquanto um governo fragilizado enfrenta dificuldades em aprovar as reformas propostas por Sébastien Lecornu.

Nos Estados Unidos, os principais riscos residem na narrativa de AI e na postura dovish da Reserva Federal, num momento em que a inflação, CPI a 2,8%, permanece acima da meta de 2% pelo quarto ano consecutivo. A eventual nomeação de Kevin Hasset para presidente da reserva federal americana poderá degradar a independência, agravar pressões inflacionistas e desancorar as expetativas de inflação. Ainda assim, a economia norte-americana continua a destacar-se pelo seu crescimento robusto e pela solidez das margens e lucros do tecido empresarial.

No Japão, declarações recentes do governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, foram interpretadas como sinal de novas subidas das taxas diretoras, desencadeando uma forte correção no mercado obrigacionista, podendo impactar os mercados globais. A subida acentuada das yields da dívida pública japonesa reacendeu receios de repatriação de capitais por grandes investidores japoneses, o que poderá pressionar as obrigações soberanas de outras economias. A normalização monetária japonesa permanece, assim, uma fonte relevante de incerteza e potencial para desencadear uma instabilidade global.

Na China, os principais riscos macroeconómicos incluem deflação, um enfraquecimento no consumo interno e uma desvalorização do renminbi para mínimos da última década. Estas dinâmicas podem originar retaliações comerciais, nomeadamente através de tarifas adicionais ou investigações anti-dumping. Embora o Partido Comunista Chinês rejeite qualquer acusação de manipulação cambial, a manutenção de uma moeda artificialmente desvalorizada contribui para a criação de excedentes comerciais. O aspeto positivo para a economia chinesa é que esta desvalorização funciona, de facto, como um subsídio às exportações, preservando a competitividade, inclusive no setor tecnológico, reforçando a capacidade do país para competir globalmente com os Estados Unidos.

A classe de ativos para enfrentar o início do próximo ano

Recomendamos uma diversificação do património equilibrada, contudo, em termos reais, cremos que ativos como TIPS poderão revelar-se particularmente interessantes, face à incerteza quanto ao impacto potencial das tarifas.

Postura dovish da Fed: o principal risco para 2026

O principal risco que identificamos reside na postura dovish da Fed, já que uma redução demasiado acentuada das taxas de juro nos Estados Unidos poderá desencadear uma nova subida da inflação.

Existe, por isso, o receio de que os membros do FOMC possam exagerar na dose no processo de normalização monetária. A preocupação intensifica-se com a posição de alguns membros, nomeadamente Stephen Miran, que defendem uma taxa terminal de juro em torno dos 2%.

O fundo de investimento recomendado para 2026

Recomendamos o Fundo Nevada por se tratar de um fundo multiativo com exposição a ativos globais, capaz de mitigar eventuais riscos e, certamente, oferecer um retorno ajustado ao risco extremamente competitivo no atual contexto de mercado.

Temas de investimento a monitorizar

A narrativa em torno da IA está amplamente refletida nos preços dos ativos a nível global, sobretudo nos Estados Unidos, que constituem o epicentro deste movimento. Persistem, contudo, várias incertezas, incluindo a preocupação com a possível insuficiência de recursos energéticos para suportar investimentos de dimensão tão significativa.

Adicionalmente, os retornos atuais do S&P 500 pressupõem um choque de produtividade que não é evidente que venha a materializar-se num horizonte tão curto como aquele que o mercado parece antecipar.