COLABORAÇÃO de Duarte Manuel Lemos, Sales Manager Financial Assets da United Investments Portugal.
Os fundos de capital de risco estão a atravessar um momento de redefinição. Durante anos, foi visto sobretudo como uma classe de ativos guiada por operações financeiras sofisticadas e capacidade de alavancagem. Hoje, esse paradigma está a evoluir. O setor está a mover-se para um modelo mais disciplinado, transparente e orientado para criação estrutural de valor, onde a execução operacional pesa tanto quanto a estratégia financeira.
O investidor moderno; seja um family office global, um high-net-worth individual ou uma instituição; não procura apenas retornos elevados. Procura visão, rigor e responsabilidade. Não rejeita risco, rejeita opacidade. Pretende processos claros, governação profissional, equipas alinhadas e transparência desde o primeiro dia até ao exit.
O capital de risco deixou de viver só de múltiplos de entrada e saída. Hoje, os investidores valorizam a forma como o retorno é criado ao longo do ciclo do investimento. Modelos baseados apenas em sistemas financeiros puros deram lugar a estratégias que integram:
- Competência operacional real e equipas dedicadas;
- Transformação digital e eficiência tecnológica;
- Desenvolvimento comercial e expansão internacional;
- Princípios ESG como motor de valor e reputação;
- Incentivo de gestão e alinhamento económico a longo prazo.
Estamos a assistir à consolidação de uma abordagem mais industrializada. Menos dependente de timing e alavancagem; mais dependente de capacidade de transformar ativos, otimizar operações e preparar empresas para crescer de forma sustentável.
Mercados como Portugal reforçam esta evolução. Investidores internacionais procuram estabilidade, gestão séria e enquadramento regulatório sólido. Fundos supervisionados, auditados e com depositários bancários credíveis tornaram-se o standard, não uma exceção. A credibilidade institucional passou a ser uma vantagem estratégica clara.
O setor da hotelaria é o exemplo perfeito da restruturação. Durante muito tempo, avaliar um ativo era essencialmente olhar para localização e potencial turístico. Hoje, fundos de capital de risco profissionais analisam muito mais: eficiência operacional, sistemas de gestão, reputação digital, performance financeira granular e plano de sustentabilidade. Métricas como RevPAR, GOPPAR e índice de satisfação do cliente tornam-se tão relevantes quanto o valor por metro quadrado. O fundo não financia apenas a operação — acompanha, intervém e acelera o processo quando necessário.
Esta transformação não limita a ambição do setor, pelo contrário, amplifica. Ao reforçar transparência e disciplina, atrai capital mais sofisticado e estimula investimentos que criam valor económico real, emprego, inovação e impacto social.
A próxima fase será liderada por quem consegue alinhar estratégia com execução, risco com método e autonomia com responsabilidade. O setor continuará a envolver risco, isso nunca mudará, mas a forma como o risco é gerido mudou de forma clara e positiva.
Fundos de capital de risco atuais não são apenas sobre comprar e vender melhor. É sobre construir, transformar e desenvolver. Sobre criar projetos mais fortes, mais eficientes e mais preparados para competir num contexto global. A ambição dos resultados aumenta com o reforço na disciplina.
