Sixty Degrees: “Enquanto os Bancos Centrais mantiverem as injeções de liquidez, a classe de ativos a privilegiar é a das ações”

António Marques Dias, Catarina Quaresma, António Mello Vieira, Filipe Barreto, Virgilio Garcia, CFA, Nuno Sousa Pereira, Sixty Degrees.
António Marques Dias, Catarina Quaresma, António Mello Vieira, Filipe Barreto, Virgilio Garcia, CFA, Nuno Sousa Pereira, Sixty Degrees. Créditos: Vitor Duarte

(Artigo escrito pela equipa da Sixty Degrees)

As principais economias mundiais estarão, em 2021, concentradas em recuperar os níveis de produção e de consumo perdidos este ano, em resultado das decisões de confinamento um pouco por todo o mundo. O principal objetivo das autoridades governamentais, passa pela redução do número de falências de empresas e pelo minimizar dos estragos persistentes ao nível de desemprego.

Com este pano de fundo, é expectável a manutenção de apoios económicos às empresas e trabalhadores, na forma de programas de estímulos públicos suportados pelo apoio dos programas de compras de ativos dos Bancos Centrais. Além disso, um programa de vacinação eficaz poderá reduzir substancialmente o nível de restrições, impostas em função da pandemia, e permitir uma normalização mais célere da vida quotidiana das populações, que poderão assim gastar em consumo parte da poupança acumulada nos últimos meses.

A economia americana deverá continuar a ser a mais dinâmica e o melhor destino de investimento a nível mundial, mesmo que venha a enfrentar os típicos desafios causados pelas mudanças de políticas inerentes à alteração das cadeiras na Casa Branca. As tensões comerciais e políticas entre americanos e chineses não deverão reduzir-se significativamente, mesmo com a nova Administração americana, uma vez que parecem ser guiadas por fatores alheios às tendências políticas internas dos EUA e ao estilo de cada uma das recentes administrações.

Já a Europa, enfrenta desafios muito específicos, como (i) a consumação do Brexit, até à data sem acordo, (ii) a oposição interna de países de leste, que podem bloquear algumas decisões importantes para a União, e (iii) o crescimento, dentro de cada país, de movimentos com cariz mais populista, nomeadamente na Alemanha que tem eleições agendadas para 2021. O comportamento da economia europeia estará dependente da eficácia na aplicação dos estímulos fiscais, mas poderá estar restringida pelo crescimento cada vez mais acentuado dos níveis de endividamento.

No Japão, onde os efeitos da pandemia têm sido muito mais suaves, a combinação de fortes estímulos fiscais e monetários, caso originem forte expansão económica global, tenderão a beneficiar a economia nipónica, em especial pela sua posição de liderança nas indústrias high-tech, maquinaria de precisão e pesada, robótica, componentes automóveis e química. O Japão está bem posicionado para aproveitar o superciclo, em curso, ao nível dos transportes globais, em resultado da descarbonização e eletrificação dos meios de transporte.

No que diz respeito à China, os desafios no mercado de crédito, resultantes do elevado endividamento, permanecem elevados, com algumas SOE’s (State Owned Enterprise) a abrirem falência, em 2020. No entanto, o reanimar do consumo privado poderá dar uma ajuda ao fortalecimento da recuperação, em 2021. Ao mesmo tempo, os chineses têm-se vindo a afirmar cada vez mais dentro do panorama geopolítico internacional e deverão vir a beneficiar largamente do novo acordo para uma Zona de comércio livre na região Indo-Pacífico.

– Quais as classes de ativos melhor posicionadas para enfrentar o novo ano e que perspetivas têm para cada uma delas (obrigações, ações, imobiliário, commodities…).

Neste novo ano, a força com maior potencial gerador de retornos deverá ser a maior ou menor disponibilização de estímulos às economias, em especial os fiscais, acima dos já existentes. Neste contexto, e enquanto os Bancos Centrais mantiverem as injeções de liquidez, a classe de ativos a privilegiar é a das ações. Aliás, existindo uma relação forte entre a política monetária e o nível de volatilidade do mercado, é expectável que esta possa continuar relativamente calma, beneficiando os ativos de risco. No entanto, caso se materialize algum cenário de elevada volatilidade, uma gestão dinâmica poderá, mesmo assim, conseguir capturar retornos interessantes investindo nos mercados acionistas. Ao mesmo tempo, o mercado poderá continuar a premiar a divulgação de boas notícias, com a subida das ações mais value, e a castigar as más, pela descida das taxas de juro e a subida dos setores growth.

Em relação às obrigações, onde o otimismo é baixo, o desempenho desta classe de ativos depende absolutamente da presença dos Bancos Centrais no mercado. Na eventualidade dessa presença diminuir, numa primeira fase, as obrigações gerarão retornos negativos, até que as yields atinjam níveis condicentes com o risco que os investidores estão a incorrer. Relativamente ao investimento em commodities, as perspetivas poderão ser positivas caso as economias continuem a confirmar uma retoma consistente, mesmo que sustentada pela liquidez disponível e pela fraqueza do dólar. Caso os estímulos sejam retirados precocemente, esta classe de ativos tornar-se-à mais volátil, mas poderá ainda beneficiar do cenário em que os investidores passem a privilegiar o investimento em ativos reais e privados (nota para o crescimento das reservas estratégicas de matérias-primas da China).

– Que riscos monitorizam por esta altura com maior preocupação e porquê (mercado ou negócio)?

Não existindo qualquer país que possa dizer que tem melhores perspetivas para a sua economia pós-covid do que antes da pandemia, não é difícil arranjar uma vasta lista de situações que poderão correr mal em 2021. Aliás, com os verdadeiros danos permanentes nas economias ainda por determinar, os primeiros indicadores de falências, de pequenas e médias empresas, e de desemprego estrutural deixam antever situações preocupantes. Acresce a isto, o facto da tendência recente de desglobalização e de regionalização não estar a dar sinais de reversão, mesmo com a nova Administração norte-americana.

No que toca à política fiscal, no caso de avanços mais céleres ao nível da vacina contra a pandemia covid-19, poderá existir o risco de retirada prematura dos estímulos, para responder às tradicionais necessidades de reequilíbrio das contas públicas após um ano de monetização da dívida, com impacto prejudicial nos mercados financeiros. Levanta-se também a questão da sustentabilidade das dívidas públicas e a possibilidade de ressurgimento de nova crise soberana, em especial na Europa.

Por seu lado, a política monetária poderá estar a atingir o seu limite de utilidade, com as taxas de juro nominais nulas ou mesmo negativas. A expansão dos programas de QE (Quantitative Easing) continua sem sinais de abrandamento, apesar dos benefícios decrescentes da sua utilização e do facto de não fornecerem solução para os problemas da economia real.

Em termos de mercados cambiais, o USD tem vindo a perder terreno face às principais moedas mundiais, o que é visto como favorável para o crescimento económico e para os ativos de risco. No entanto, esta é uma situação que nenhum país à volta do mundo deseja ardentemente. Veja-se o caso das economias emergentes, com dinâmicas exportadoras e frágil consumo doméstico, onde a desvalorização do dólar aumenta as pressões deflacionistas, prejudica as exportações e reduz os fluxos de receitas oriundas do turismo. Importa pois, saber até que ponto esta fraqueza poderá ser mantida à luz dos problemas latentes no mercado de repo’s, onde os desequilíbrios tem sido contrabalançados pelas linhas de swap da Fed e pela FIMA repo facility, e das crescentes responsabilidades em USD, fora dos EUA, acima da disponibilidade de curto prazo da moeda norte-americana. Acresce aqui a possibilidade de intensificação das políticas monetárias e fiscais expansionistas, fora dos EUA, derivadas do agravamento das dificuldades económicas e/ou geopolíticas.

Outros riscos a considerar prendem-se com (i) a possibilidade de vitória democrata na Geórgia e respetivo domínio do Senado que abriria a porta, por ex., ao aumento de impostos e a regulação sobre as empresas, (ii) as famílias decidem não consumir o excesso de poupança acumulado durante a pandemia, atrasando a já descontada recuperação económica, (iii) o vírus sofre mutações inesperadas que invalidam o sucesso das vacinas e prolongam os períodos de confinamento, e (iv) a Fed coloca um cap na taxa da dívida a 10 anos por receios do impacto da sua subida sobre a economia, gerando assim receios de uma curva de rendimentos “plana” que levaria os investidores de volta aos setores defensivos.

Com o sentimento de mercado a atingir recordes históricos, valorizações elevadas nas ações e yields baixas nas obrigações, caso exista uma mudança inesperada em alguma das variáveis atrás mencionadas, poder-se-á assistir a uma “corrida para a porta”, com quedas rápidas na cotação dos ativos.

– Qual o fundo de investimento (obrigações, ações, misto, alternativo) que recomendam para o ano de 2021 e porquê?

Para a gestão do património core do cliente, recomendamos a estratégia de asset allocation flexível do fundo Sixty Degrees PPR/OICVM.

Para o investimento mais específico em ações, faz todo o sentido o investimento no fundo Fundsmith Global Equities.

Já em renda fixa, achamos que o fundo NB Obrigações Europa merece uma alocação dentro de um portfolio diversificado, enquanto o seu gestor for o atual, pois tem sido dos melhores, na Europa, a compreender as dinâmicas do mercado de dívida europeia e a traduzir esse conhecimento em retornos.

– Quais os temas de investimento sobre os quais mais sentem necessidade de informação por esta altura?

A pressão do crescimento da dívida soberana e o acelerar da revolução tecnológica trazem questões muito relevantes sobre a alteração do panorama de emprego e a evolução de apoios e benefícios sociais. Temos pouca informação sobre o que está a ser pensado nos grandes blocos (EUA, Europa, Japão) para responder a este problema de modo a perceber o impacto no perfil de retornos dos ativos nos próximos anos, com especial enfoque sobre a situação das obrigações. Tendo em conta que poderemos estar a atingir o limite possível do alcance da política monetária, num panorama de yields cada vez mais reduzidas, seria interessante perceber melhor como será feito um ajustamento futuro de mercado e quais os planos das autoridades para próximas intervenções. Ao mesmo tempo, existe pouca informação sobre o problema latente no mercado repo norte americano e nos efeitos que possa vir a ter sobre a banca europeia.