Piergaetano Iaccarino (Amundi): decifrar o ressurgimento dos dividendos

Piergaetano Iaccarino. Amundi
Piergaetano Iaccarino. Créditos: cedida (Amundi)

Numa entrevista recente com a FundsPeople, Piergaetano Iaccarino, diretor de Soluções de Ações da Amundi, partilhou as suas ideias sobre a capacidade de gestão do fundo com Rating FundsPeople em 2024, o Amundi Funds Global Equity Income ESG, a importância dos dividendos na dinâmica atual do mercado, o seu processo de investimento, os desafios e as oportunidades de gerir um fundo com o volume de ativos de 2.000 milhões de dólares.

Piergaetano começou por abordar a capacidade para gerir grandes volumes, afirmando que o seu fundo não enfrenta uma limitação de capacidade, pelo que, por ter um viés para títulos de grande e média capitalização numa perspetiva global, permite-o operar sem limitações e sem colocar em risco a liquidez do fundo. Considera 10.000 milhões como um limite, o que garante uma ampla margem de manobra.

Até agora este ano, o especialista destaca os significativos fluxos de entrada que ultrapassam o total de subscrições do ano anterior, um aumento que atribui a uma “combinação de bons resultados e uma narrativa convincente em torno dos dividendos”.

O ressurgimento dos dividendos na rentabilidade total

“Os dividendos, anteriormente ofuscados por outros motores do mercado, estão a regressar”, assinala. Piergaetano Iaccarino comenta que observa uma mudança de paradigma, em que os dividendos estão a recuperar o seu papel histórico na rentabilidade total. Acrescenta que os dividendos foram postos de lado devido a uma política monetária acomodatícia que conduziu a taxas mais baixas e ao foco na expansão de múltiplos. “No entanto, com a normalização das taxas de juro, os dividendos estão a ganhar mais relevância, contribuindo potencialmente entre 30% e 40% para os retornos totais, números semelhantes aos históricos, após terem sido marginalizados em apenas 10%”, afirma.

Além disso, assinala que os dividendos oferecem estabilidade dentro da volatilidade do mercado, servem de cobertura contra a inflação e atraem os investidores receosos das elevadas valorizações. Este ressurgimento é evidente no sentimento dos investidores, impulsionando o interesse pelas estratégias de dividendos.

Também menciona a inflação, sendo evidente que o aumento dos preços está a absorver o poder de compra dos investidores em obrigações, como o dos que investem em cupões, enquanto os dividendos tendem a crescer em termos nominais em linha com a inflação, pelo que os investidores conseguem, de certa forma, uma cobertura contra a inflação, o que é outro fator favorável. “Portanto, há vários fatores em torno dos dividendos que fazem com que haja interesse em estratégias como a nossa”, assinala Piergaetano.

Quanto aos dividendos ou à recompra de ações, o diretor sublinha a importância dos dividendos como principal meio de remuneração dos acionistas. Embora reconheça o papel das recompras das ações, a Amundi dá prioridade aos dividendos pela sua proposta de valor a longo prazo e à sua estabilidade.

Considerações regionais e abordagem de investimento

A primeira razão pela qual o gestor considera comprar uma ação é o facto de gostar do seu modelo de negócio e dos seus fundamentais, que depois se traduzem em dividendos atrativos. Apesar das variações regionais nas preferências de dividendos, a sua abordagem de investimento mantém-se firme. Centra-se em identificar modelos de negócio atrativos baseados nos fundamentais empresariais, em vez de procurar unicamente uma elevada rentabilidade por dividendo.

Com isso, esclarece que a sua alocação a França face à alocação a Espanha e à Alemanha é o resultado de encontrarem mais oportunidades nos fundamentais do que nos dividendos, tratando a Europa como um conjunto, pelo que essas ponderações são resultado de um processo bottom-up.

No processo de investimento são estabelecidos intervalos relativos a cada setor, o que permite ter uma carteira diversificada e equilibrada. O gestor destacou que o dividendo tem de estar bem coberto, não só pelos lucros, mas também pelo fluxo de caixa, visto que indica a disponibilidade efetiva de liquidez para pagar os dividendos.

Foco em empresas de qualidade e na valorização

Piergaetano sublinha: “Centramo-nos principalmente em empresas de boa qualidade, mas a nossa definição de qualidade baseia-se na rentabilidade do capital investido. Não compramos qualidade a qualquer preço, queremos ter valorizações que se justifiquem pelo retorno sobre o capital investido”. Além disso, sublinha a importância de integrar critérios ESG nas decisões de investimento, uma vez que, longe de estarem separados da análise fundamental, melhoram a compreensão dos modelos empresariais subjacentes, dos riscos e das oportunidades potenciais.

Em relação aos riscos, do ponto de vista setorial, Iaccarino reconhece a existência de possíveis focos de sobrevalorização no setor tecnológico, mas sublinha, novamente, a importância da seleção de títulos: “Não compramos qualidade a qualquer preço”.

Objetivos de retorno

Por último, o diretor partilhou que tem um objetivo de rendimento de 3,5% para o seu fundo, reavaliado anualmente para refletir as oportunidades do mercado e a disponibilidade de dividendos. Não especificou um objetivo de rentabilidade total, visto que depende das condições do mercado. Face ao futuro, o gestor incide no seu compromisso com uma abordagem estratégica nos dividendos e processos de investimento prudentes, mas ativos, com uma visão orientada para as tendências a longo prazo e para as mudanças estruturais. A revitalização industrial, a realocação energética e os avanços tecnológicos ocupam um lugar de destaque na sua tese de investimento.