Revenge spending marca o início do aumento do consumo pós-pandemia

pós-covid, Revenge spending marca o início do aumento do consumo pós-pandemia
Créditos: Syed Ahmad (Unsplash)

Após mais de um ano com fortes restrições à mobilidade marcadas pela pandemia de COVID-19, há muita vontade de voltar à normalidade para a qual a campanha de vacinação está a contribuir. Há vontade de viajar, de sair, de ir a festas, de consumir. E todas essas vontades vão ter impacto quando se materializar um aumento importante do PIB que tem no consumo um dos seus principais componentes.

Mas, que tipo de consumo é que mais vai tirar partido deste regresso à normalidade? Nigel Bolton, co-CEO do grupo de Ações Fundamentais da BlackRock, e Sophie Steel, diretora do grupo da indústria de Consumo da BlackRock, acreditam que essa primeira subida do consumo virá daquilo a que chamam revenge spending.

“As pessoas estão contentes por recuperar a sua liberdade, e estão dispostas a gastar em eventos e artigos discricionários. A isto chamamos revenge spending”, afirmam. E identificam sobretudo dois subsetores dentro do consumo nos quais podem ver números surpreendentemente altos.

Um deles é a restauração de luxo, que ficou para trás na recuperação do setor nos últimos meses. “Os restaurantes de luxo ficaram afetados comparativamente com as marcas de restauração informal devido ao esperado atraso no gasto empresarial. Acreditamos que este gasto vai recuperar mais rápido do que o previsto à medida que as pessoas regressem aos escritórios”, afirmam.

Boom das viagens

O outro subsetor que pode beneficiar desse revenge spending é o das viagens. De facto, por já se estar a ver um claro aumento em países nos quais o ritmo de vacinação está mais avançado, é previsível que essa subida também chegue à Europa. “Os últimos dados mostram que a Europa está a vacinar-se ao mesmo ritmo que os EUA e o Reino Unido, o que implica que o atraso na recuperação deverá manter-se fixo em dois ou três meses, em vez de aumentar. Acreditamos que as ações das linhas aéreas europeias podem descolar quando as taxas de COVID-19 baixarem”, afirmam Bolton e Steel.

Tal como as linhas aéreas há outro meio de transporte que ganha adeptos em tempos pós-pandémicos e que beneficia também da ânsia do regresso às viagens: o setor dos cruzeiros, que, além disso, conta com uma alta fidelidade dos seus clientes. Todd Saligman, analista de ações da Capital Group explicou-o recentemente. “Alguém que nunca fez um cruzeiro não consegue entender a fidelidade e o entusiasmo dos que têm esse hábito, e essa fidelidade não fraquejou durante a crise. De facto, mais de 70% dos inquiridos numa sondagem sobre o setor realçaram que voltariam a fazer um cruzeiro”, afirma.

Em geral, é de esperar um forte aumento de todos os setores ligados ao consumo e uma prova disso é que as gestoras de ativos cada vez mais as ações BEACH - as empresas do setor das viagens (B de booking), entretenimento (E), linhas aéreas (A de airlines), casinos e cruzeiros (C) e hotelaria (H). - no momento de identificar as oportunidades trazidas pela pandemia.

É sustentável esse forte aumento do consumo?

Que há vontade de consumir é claro, mas o ponto-chave é saber se essa ânsia pelo consumo se manterá com o passar do tempo ou se, pelo contrário, tenderá a suavizar-se à medida que se volte à normalidade. Neste ponto, Bolton e Steel estão certos de que também se acabará por discriminar no momento de gastar. “Nem todo o gasto atual dos consumidores se vai manter. Os investidores devem identificar as empresas com potencial para manter ganhos sólidos em 2022 e 2023”.

E nesse potencial cada vez mais tem influência a sustentabilidade dos negócios, não só do ponto de vista dos números, mas do ESG. “A sustentabilidade continua a ser um ponto-chave para os consumidores, que cada vez esperam mais das suas marcas favoritas. As práticas sustentáveis também podem dar lugar a cash flows mais sustentáveis e, por sua vez, a uma forte rentabilidade do preço das ações”, concluem.