Ricardo Seixas (Bestinver): “Acompanhámos a rotação pró-cíclica do mercado”

Ricardo Seixas Fidentiis Bestinver
Ricardo Seixas. Créditos: Vitor Duarte

Na segunda metade do ano de 2019 a Bestinver fechava a aquisição da Fidentiis, entidade gestora especializada nos mercados de capitais do sul da Europa e com DNA português. Pouco antes Ricardo Seixas, um dos sócios fundadores da Fidentiis, agora já integrada na Bestinver, falava à FundsPeople do registo dos fundos no nosso país. “A decisão de trazer os fundos para Portugal teve, claro, que ver com o facto de ser português, e da afinidade com o mercado português. Para além disso, ganhámos algum track record em algumas estratégias, nomeadamente no fundo long/short que entretanto já cumpriu três anos dentro da estrutura do Luxemburgo, o que para alguns selecionadores é um milestone importante. Para além disso, quer o long only quer o long/ short já estão acima dos 100 milhões de euros de ativos sob gestão”, dizia então. 

Dois anos depois, o gestor português – agora responsável pelo segmento de ações ibéricas na entidade gestora –  comunica a intenção de expandir ainda mais a relação que já tem com a sua terra natal e ver uma oferta alargada de fundos da Bestinver disponíveis para os investidores portugueses. A entidade, que agrega ativos sob gestão de mais de sete mil milhões de euros, mostra, segundo o gestor, forças significativas na gestão de ações europeias, complementada com fundos de obrigações e alternativos. “Temos agora uma equipa de 12 analistas setoriais. É um man power e um brain power que ajudou a subir de nível. É uma equipa bastante sénior, muito qualificada e cuja partilha de ideias ajuda a reforçar a convicção das decisões de investimento que tomamos. A Fidentiis era uma casa pequena, com um enfoque institucional. Por seu lado, a Bestinver, muito maior, é um nome muito relevante entre os clientes de retalho. A ideia é que ambas as abordagens se complementem”, explica. Para já, a timeline de registo dos fundos está dependente da reorganização da oferta de ambas as entidades no Luxemburgo, mas é um caminho que será seguido logo que possível, segundo Ricardo Seixas.

Ricardo Seixas Fidentiis

“A Fidentiis era uma casa pequena, com um enfoque institucional. Por seu lado, a Bestinver, muito maior, é um nome muito relevante entre os clientes de retalho. A ideia é que ambas as abordagens se complementem.”

A filosofia? “Não querendo pôr etiquetas nos fundos – value ou growth – aquilo que os define são três pilares: análise fundamental, gestão do risco e um foco no longo-prazo. Somos uma entidade gestora focada no valor, mas que não é necessariamente value. As empresas que têm um crescimento acentuado e previsível veem isso refletido nos múltiplos, mas não é por isso que não entram no nosso universo. O conceito de value está muito esbatido, hoje em dia”.

Ações ibéricas

Já no que se refere à especialidade de Ricardo Seixas, as ações ibéricas, os mercados pós pandemia trouxeram alguns desafios que se viram ultrapassados na segunda metade do ano. “No fundo long-short, por exemplo, estávamos razoavelmente protegidos perante a queda de março de 2020 e até ao verão. Sentimos então que nos tínhamos que expor um pouco mais e aumentámos a exposição a bancos e outras empresas muito cíclicas num movimento que nos beneficiou”. No entanto, o gestor aponta que estes movimentos tiveram um custo. Medidas excecionais para uma conjuntura excecional.  Nomeadamente, refere-se ao relaxamento dos controlos do orçamento de volatilidade típico do fundo. “Para compensar o pico de volatilidade agressivo do final do primeiro trimestre de 2020 teríamos que deitar a perder o resto do ano, se assim não fosse. Obviamente nunca foi um hard limit, mas sim parte do nosso processo de gestão de risco e tomámos a decisão consciente de tolerar mais volatilidade para não comprometer o resto do ano”, explica. 

“Mas não foi só a exposição a beta que nos ajudou na carteira. Houve também criação de alfa. A exposição que mantínhamos em ações defensivas poderia nos penalizar, pelo que acompanhámos a rotação pro-cíclica do mercado e beneficiámos de uma maior exposição do que aquela que é natural para o índice de referência”, acrescenta. 

Critérios ESG

Como algo que é incontornável na gestão de ativos dos dias de hoje, os critérios ESG estavam já bastante integrados nos processos, segundo Ricardo Seixas. “Todos os analistas incluem os critérios na avaliação das empresas. Num segundo nível, interagimos com as próprias empresas com esse foco. Tendo em conta os pontos mais positivos ou negativos de cada elemento ESG podemos penalizar ou premiar a valorização de um título. Ou mesmo excluir”, exclama. Por outro lado, para o gestor, tão importante como o score de uma empresa a cada momento é a evolução na mesma no sentido de melhorar a sua posição. “Uma empresa que apresente um roadmap transparente e credível de redução das suas emissões de carbono, por exemplo, passa a fazer parte do nosso universo”, explica. “Um dos fundos da entidade gestora, inclusive, encaixa no artigo 9º da SFDR. Os restantes são abrangidos pelo artigo 8º”, comenta.