A CMVM alerta para uma subida dos riscos que pairam sobre os investidores e os mercados

Risco Risk Danger Alerta CMVM

“O sistema financeiro português, e em particular a gestão de ativos, esteve entre os que melhor resistiram ao choque pandémico em 2020 a nível europeu. Sociedades emitentes e as gestoras de fundos merecem que lhes seja reconhecida a resiliência, flexibilidade e o foco na gestão de riscos que demonstraram. Face aos desafios e riscos de 2021, importa construir sobre o que já se aprendeu e mantemo-nos atentos, preparados para reagir e focados em oferecer às famílias e às empresas oportunidades de poupança e financiamento adequado às suas necessidades”, comenta Gabriela Figueiredo Dias, presidente da CMVM no contexto do publicação do Risk Outlook 2021

Também recentemente, a máxima responsável pela entidade reguladora elogiava a gestão de ativos nacional realçando que, “não obstante a grande pressão que os fundos tiveram em 2020, a verdade é que chegámos a valores sob gestão inéditos desde há muitos anos. Os fundos de investimento conseguiram lidar bem com a crise pandémica, e apesar dela continuar numa rota de crescimento”.

Já neste relatório sobre os riscos que pairam sobre os investidores e os mercados em 2021, a entidade reguladora dos mercados financeiros analisa os riscos mais significativos que se perspetivam para 2021, identificando três principais:

  • O risco de crédito decorrente do forte impacto da crise pandémica nas empresas não financeiras, famílias e Estados;”
  • “Os riscos ambientais, sociais e de governo societário, com impactos, nomeadamente, na valorização de ativos e nas práticas de mercado;”
  • “O risco de mercado, em função das dificuldades de avaliação de ativos e da valorização de risco num contexto de elevada incerteza sobre a evolução e efeitos de longo prazo da pandemia e da política monetária.”

O painel de riscos analisado, no entanto, não se cinge a estes três e encontra-se resumido na tabela seguinte, onde é evidente uma subida generalizada em 2019 e uma previsão para 2021 pouco menos pessimista: 

Já o detalhe das causas e efeitos que motivam a inclusão de cada um dos riscos enunciados estão discriminados na tabela abaixo: 

O documento Risk Outlook 2021 pode ser consultado em detalhe no website da CMVM, mas destacamos alguns dos comentários incluídos no relatório sobre os três principais riscos enunciados e que se apresentam como de especial relevância para o universo de gestão de ativos nacional: 

  1. Risco de crédito: 

“Aproximadamente 30 mil milhões de euros de montantes nocionais de dívida de empresas não-financeiras da zona Euro transitaram de uma notação investment grade para uma notação high yield após a primeira vaga da crise pandémica, sendo expectável que aumentem os volumes de dívida com degradação da respetiva notação de risco. Tal poderá originar ajustamentos nas carteiras de investimentos de quem adquiriu essa dívida empresarial no sentido do cumprimento de imperativos legais e regulamentares.” 

Tem-se assistido ao reforço da procura por rendibilidade (search-for-yield) por fundos de investimento que atuam na zona Euro, e também em Portugal, com o aumento da duração das suas carteiras e aumento da exposição a emitentes com qualidade creditícia inferior. A materialização do risco de crédito pode conduzir a perdas significativas e levar a volumes de resgates substanciais.”

  1. Risco ESG

“Os reguladores também enfrentam um risco considerável de reputação, por serem eles quem define as regras de participação nos mercados financeiros. A criação e a distribuição de produtos ESG, e a produção da respetiva informação ESG, apresentam riscos, sendo um dos principais o risco de greenwashing (i.e., o risco de um produto reportar que tem determinadas características ESG, quando na realidade tal não se verifica). Na mitigação dos riscos ESG, os investidores e consumidores de produtos e serviços financeiros deverão ser exigentes no que respeita à qualidade da informação ESG que recebem. Esta exigência também se aplica aos intermediários financeiros que distribuem e comercializam os produtos financeiros e que prestam serviços de aconselhamento, gestão de carteiras, negociação, receção e execução de ordens e planeamento financeiro, entre outros. “

“Alerta-se, assim, para a importância da consideração dos riscos ESG por todos os agentes dos mercados financeiros, sob pena das consequências da inação serem irreversíveis e financeiramente irrecuperáveis.”

  1. Risco de mercado

“A recuperação económica dos últimos trimestres parece ser insuficiente para justificar o crescimento dos preços de ativos com risco desde abril. O desalinhamento entre o setor real da economia e os preços dos ativos financeiros parece sugerir que o desempenho do mercado acionista foi impulsionado pela política monetária. Uma leitura do consenso dos analistas financeiros para os EPS dos próximos três anos indicia que a recuperação económica não deverá estar completa antes de 2023. A evolução dos mercados financeiros permanecerá condicionada pelo progresso da crise pandémica e pela eficácia das vacinas desenvolvidas (e em desenvolvimento) na contenção da propagação do vírus. A capacidade de resposta da política fiscal e orçamental é atualmente menor do que no início de 2020, e novos aumentos abruptos do stock de dívida pública poderão tornar-se insustentáveis para algumas economias, mesmo na presença de taxas de juro negativas durante os próximos anos.”